REUTERS/Ken Bohn/San Diego Zoo/Handout/Arquivo
REUTERS/Ken Bohn/San Diego Zoo/Handout/Arquivo

Fêmeas de condores da Califórnia ameaçadas de extinção podem se reproduzir sem macho, diz estudo

A descoberta rara surgiu como resultado de esforços para preservar a espécie

Claire Fahy, The New York Times - Life/Style, O Estado de S.Paulo

10 de novembro de 2021 | 05h00

Os geneticistas conservacionistas trabalhando para preservar os condores da Califórnia, ameaçados de extinção, descobriram dois casos de filhotes de ovos não fertilizados - os primeiros casos conhecidos dos chamados nascimentos virgens dentro da espécie.

Essa descoberta, incluída em um estudo publicado na quinta-feira, 4, no The Journal of Heredity, é particularmente notável, já que tais casos são incomuns entre as aves.

A partenogênese, o processo segundo o qual as fêmeas produzem embriões que não foram fertilizados pelo esperma, é mais comum entre espécies de vertebrados, como peixes ou lagartos. Antes de as descobertas tornarem-se públicas na quinta-feira, as outras instâncias conhecidas de partenogênese entre pássaros estavam limitadas a perus, tentilhões e pombos domésticos, segundo a San Diego Zoo Wildlife Alliance.

“A partenogênese é considerada um fenômeno raro em pássaros”, disse Oliver Ryder, co-autor do estudo e diretor de genética da conservação na San Diego Zoo Wildlife Alliance. “Nós a descobrimos nos condores da Califórnia porque temos uma análise genealógica detalhada de toda a população.”

Os condores da Califórnia são uma espécie em extinção há muito tempo, com a população mundial caindo para apenas 23 em 1982, segundo o Fish and Wildlife Service dos EUA. Nesse ponto, a agência retirou todos os condores conhecidos da Califórnia da natureza selvagem e os criou em cativeiro.

A espécie, que em 2020 contava com 504 pássaros, foi monitorada e estudada de perto por décadas, levando a descobertas como a publicada na quinta-feira, disse Samantha Wisely, uma geneticista conservacionista da Universidade da Flórida que não esteve envolvida no estudo.

A necessidade de identificar as aves por sexo para desenvolver um programa de reprodução bem-sucedido levou à descoberta sobre os dois filhotes.

Anos atrás, Ryder foi convidado para desenvolver um sistema que identificasse o sexo dos condores da Califórnia em cativeiro porque machos e fêmeas têm a mesma aparência. Ele também teve que identificar parentes próximos entre as aves para que os parentes não fossem acasalados. Então ele criou um banco de dados genético para todos os condores da Califórnia.

Em 2013, a equipe de Ryder notou algumas discrepâncias no banco de dados, o que levou a uma nova análise de todas as aves em cativeiro. A equipe de Ryder descobriu dois filhotes machos - um nascido em 2001 e o outro em 2009 - que não correspondiam a nenhum dos perfis genéticos dos machos. Isso significava que nenhum dos condores machos os havia gerado.

“Não houve contribuição paterna”, Ryder disse. “Eles tinham apenas informações genéticas de suas mães.”

A pista final de que esses filhotes se desenvolveram a partir da partenogênese foi o fato de ambos serem machos. Por causa da composição genética dos pássaros, os condores fêmeas que se reproduzem por si só podem dar à luz apenas condores machos.

No passado, a partenogênese era considerada uma forma um tanto desesperada de reprodução, ocorrendo quando as fêmeas estavam em populações com poucos machos ou em ambientes com poucos membros de sua própria espécie, disse Wisely.

Os condores em cativeiro, contudo, foram acasalados com machos em um cercado, mas ainda assim reproduzidos por partenogênese.

Segundo Ryder, a descoberta de “nascimentos virgens” em uma população de pássaros monitorada de perto está levando os cientistas a se perguntarem se mais pássaros na natureza selvagem estão se reproduzindo por partenogênese do que se acreditava anteriormente.

“Para outras espécies, parece ser uma espécie de derradeiro esforço para se salvarem”, disse Wisely. “Será muito interessante saber o contexto em que isso ocorre para os pássaros na natureza selvagem.”

Outro aspecto interessante da partenogênese é que os traços genéticos letais não podem ser transmitidos da mãe. Ainda assim, Ryder disse, alguns traços menos favoráveis ainda podem aparecer na prole.

“Talvez eles pudessem, você sabe, não carregar os genes da boa aparência ou algo assim”, ele disse. /TRADUÇÃO LÍVIA BUELONI GONÇALVES

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