Pedro Pardo Agence France-Presse - Getty Images
Pedro Pardo Agence France-Presse - Getty Images

Morte de mãe e filha gera revolta em razão do feminicídio no México

Os assassinatos de mulheres estão forçando o acerto de contas em um país que lutou contra a violência contra as mulheres. A resposta do presidente foi duramente criticada

Kirk Semple e Paulina Villegas, The New York Times

27 de fevereiro de 2020 | 06h00

CIDADE DO MÉXICO – Os pavorosos assassinatos de uma mulher e de uma criança, no início de fevereiro, abalaram o México, desencadeando a revolta por protestos de rua, fúria nas redes sociais e crescentes exigências de uma ação incisiva do governo contra a violência de gênero. Ingrid Escamilla, de 25 anos, foi morta a facadas, esfolada e estripada, e Fátima Cecilia Aldrighett, de apenas 7 anos, foi retirada da escola e o seu corpo foi encontrado mais tarde envolto em um saco plástico.

O clamor está forçando o país que há muito luta com a violência contra as mulheres, a um acerto de contas. Trata-se de um teste para o presidente Andrés Manuel López Obrador – e os críticos, que definiram a sua resposta anêmica, insensível e condescendente, afirmam que ele não está se comportando à altura das expectativas.

Xóchitl Rodríguez, que faz parte do coletivo feminino, Feminasty, declarou-se decepcionada com a resposta de López Obrador, que fez campanha como figura transformadora e defensor das populações marginalizadas. “O fato de que acordarmos de manhã e o nosso presidente não possa nos garantir que tomará ações específicas para tratar da questão, é vergonhoso”.

Em 2019, o governo mexicano registrou 1.006 casos de feminicídio, o assassinato de mulheres ou meninas por causa do seu gênero – ou um aumento de 10% em relação a 2018. O total de mulheres que morrem de maneira violenta também aumentou, de sete por dia em 2017, para dez em 2019, segundo informou o escritório do México da UN Women, a agência da ONU que trata da causa da mulher.

“As mulheres estão exigindo uma mudança do paradigma, e nada mais”, disse Estefania Vela, diretora executiva  do Intersecta, um grupo sediado na Cidade do México que promove a igualdade de gênero. Mas López Obrador aparentemente teve dificuldade para responder a esta reivindicação. Em uma coletiva à imprensa, em meados de fevereiro, ele se irritou com as perguntas sobre ferminicídios, e tentou fazer com que a conversa voltasse para o seu anúncio de que o governo havia recuperado US$ 100 milhões em ativos criminosos.

“Olhe, não quero que o tema seja exclusivamente sobre feminicídio”, ele disse. “Esta questão foi muito manipulada na mídia”. Entre a escalada da violência e a falta do que as suas participantes consideram uma resposta efetiva, um movimento feminista de protesto ganhou impulso no ano passado, e alguns manifestantes quebraram as janelas de uma delegacias e picharam monumentos. As mortes de Fátima e de Ingrid injetaram uma maior urgência no problema da violência de gênero e do machismo.

A morte de Ingrid, cujo corpo foi encontrado no dia 9 de fevereiro, foi tão horrenda que chocou a nação. Um homem, encontrado coberto de sangue e considerado o seu parceiro na casa, foi preso e confessou o crime, anunciaram as autoridades. Fotos do seu corpo mutilado vazaram para os tabloides, que saíram com as imagens na capa. No dia 11 de fevereiro, Fátima foi dada como desaparecida depois de ter sido levada da escola primária que ela freqüentava por uma mulher não identificada. A descoberta do corpo da menina, dias mais tarde, jogado perto de uma construção nos arrabaldes da capital, intensificou a ira crescente.

Manifestantes, na maioria mulheres, picharam a fachada e a entrada do Palácio Nacional do México com os dizeres “Estado Feminicida” e “Nem uma mais”. Claudia Scheinbaum, prefeita da Cidade do México, informou que  foram detidos indivíduos suspeitos da morte de Fátima. Ela disse que os promotores pediriam a sentença máxima para o assassino de Ingrid e chamou o feminicídio de “crime absolutamente condenável”.

Na Câmara dos Deputados, no dia 18 de fevereiro, os parlamentares aprovaram uma reforma do código penal mexicano que aumenta a sentença máxima de prisão nos casos de feminicídio de 60 para 65 anos. Naquele dia, uma coalizão de vários partidos políticos emitiu uma declaração condenando a violência de gênero e exigiu que todos os níveis do governo intensifiquem a luta contra este crime.

“Esta é uma crise nacional”, disse em um discurso Ana Patricia Peralta, deputada do partido Morena (Movimento de Regeneração Nacional), de López Obrador. “O que mais precisa acontecer para aceitarmos que a violência contra as mulheres no nosso país é uma epidemia que se estendeu a todos os estratos sociais?”. Elda Cantú contribuiu para a reportagem. TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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