Jane Hahn / The New York Times
Jane Hahn / The New York Times

Sexualidades e feminismos protagonizam série no Senegal

A produção 'Mistress of a Married Man' desencadeou debate sobre a feminilidade contemporânea em uma nação da África Ocidental de grande maioria muçulmana

Julie Turkewitz, The New York Times

05 de setembro de 2019 | 06h00

DACAR, SENEGAL – No cenário mais controvertido de Mistress of a Married Man, nova série de televisão muito popular no Senegal, a protagonista, Marème, veste um terninho ousado cor magenta e vai a um encontro com um homem casado, mas não antes de indicar um ponto abaixo da cintura. “Isto é meu”, diz à amiga. “Eu dou para quem quiser”.

A série, que estreou em janeiro, desencadeou um violento debate sobre a feminilidade contemporânea em uma nação da África Ocidental de grande maioria muçulmana, que está rapidamente se urbanizando. O primeiro episódio  recebeu mais de três milhões de visualizações no YouTube, quase o equivalente a toda a população da região da capital senegalesa.

A declaração de Marème, segundo afirmam as fãs, equivale praticamente a uma rebelião. Ela se enquadra em um movimento de mulheres que afirmam a própria independência. O espetáculo fala não apenas do desejo feminino, mas também de estupro, doenças mentais, masculinidade tóxica, da violência doméstica e de ciúmes decorrentes da poligamia.

A série faz parte de uma explosão de produções para a televisão e o cinema em toda a África, em que roteiristas, produtores e atores afirmam abertamente a sexualidade feminina, desafiam os papéis de gênero tradicionais e apresentam  histórias especificamente africanas. Houve certa reação negativa por parte de fontes oficiais e de telespectadores costumeiros. No Senegal, uma autoridade reguladora ameaçou proibir a série.

Outras séries

A Netflix prepara outras duas séries sobre as mulheres na África. A próspera Gollywood de Gana tem várias produtoras influentes. E no Quênia, Rafiki acompanha o romance entre as filhas de políticos rivais em um país onde ser gay é contra a lei. Mistress of a Married Man é uma criação de Kalista Sy, de 34 anos, ex-jornalista de TV. Ela disse que se cansou de personagens femininos criados por homens, ou por gente de fora. “Em primeiro lugar, isto é para o público senegalês, e depois para o mundo”, afirmou.

O Senegal pratica uma forma de Islã que o presidente Macky Sall definiu como moderado e tolerante. As mulheres  podem correr na praia de regata, frequentar uma universidade e levar uma vida profissional. Mas, em casa, em geral, o poder pertence aos homens.  Alguns têm duas esposas, ou mais, mas para as mulheres, a sexualidade muitas vezes continua escondida por trás de uma cultura de discrição e modéstia.

A televisão, muitas vezes, tem sido dominada por séries dos Estados Unidos, da América Latina e da Nigéria. Nos últimos dez anos, as emissoras  começaram a preferir trabalhos locais, mas estes mostram com frequência mulheres em papéis subservientes. Em Dacar, muitas pessoas afirmaram que a popularidade do programa reflete um profundo desejo de ver a realidade representada na tela.

As adolescentes copiam o penteado de um personagem chamado Djalika. Os homens se veem em um complexo problema matrimonial como adúlteros. Mas nem todos os senegaleses aprovam o seriado. Este ano, um grupo de influentes muçulmanos do Senegal, a Jamra, ameaçou fazer uma passeata de protesto contra o espetáculo.

Apesar do seu sucesso, não está claro se o programa voltará para uma segunda temporada. A diretora comercial, Julia Cabrita Diatta, disse que alguns grandes anunciantes se retiraram do show depois de decidirem que era muito controverso. O episódio final foi ao ar horas depois do fim das filmagens. Mbayang Gueye, uma fã de 29 anos, mal tirou os olhos dos personagens durante os 70 minutos seguintes.“É muito bom”, garantiu. “Vou sentir saudade deles; vou ficar sozinha sem eles”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

 

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