Victor Moriyama para The New York Times
Victor Moriyama para The New York Times

Feministas argentinas querem tornar o tango menos patriarcal

“Por muito tempo, nossa cultura permitiu que homens tocassem as mulheres quando bem entendessem e, se você reclamasse, era chamada de louca”, diz uma das líderes do movimento

Ernesto Londoño, The New York Times

13 de outubro de 2019 | 06h00

BUENOS AIRES - Os sapatos baixos e vermelhos de Liliana Furió deslizavam pelo salão de dança em movimentos ágeis e certeiros, imprimindo às suas calças largas um suave balançar. Ela e um esguio jovem russo grudaram os corpos em um apertado abraço enquanto giravam, em sentido anti-horário, em perfeita sincronia com os outros parceiros de dança. Mas era difícil dizer quem estava conduzindo os passos. Alguns dançarinos pareciam perdidos em um abraço apaixonado, enquanto outros se moviam para frente e para trás com um jeito brincalhão.

E era isso que Liliana tinha em mente quando criou um encontro semanal de dança que viria a quebrar todas as regras do tango. Ela inaugurou o evento este ano, batizando-o de La Furiosa, como parte de um esforço das feministas para tornar o tango menos patriarcal.

No tango tradicional, os homens tiram as mulheres para dançar com um sutil cumprimento da cabeça, o “cabeceo”, frequentemente feito do outro lado do salão. Na pista de dança, o homem impõe controle, em uma sequência de movimentos que oscilam entre o sexualmente provocativo e a dominação desconfortável.

As mulheres, sempre de vestido e salto alto, têm de aguentar firme durante sessões de quatro canções. Dançarinas de tango experientes afirmam que essas sessões, normalmente de 15 minutos, podem ser de agonia, quando o abraço do parceiro é sufocante ou quando a mão dele passeia abaixo de suas cinturas.

“É como um jogo para testar onde estão os limites”, afirmou Victoria Beytia, que, juntamente com Liliana, compõe uma coalizão informal conhecida como Movimento Feminista do Tango. Em julho, o grupo publicou uma cartilha para tornar os salões de tango menos dogmáticos em relação aos papéis dos gêneros e mais assertivos no sentido de combater assédios e ataques sexuais. A publicação estabelece orientações para os organizadores de eventos de tango, incluindo aceitar casais que rompam com papéis da "norma hétero".

“O tango é um reflexo do que está acontecendo na nossa cultura e, por muito tempo, nossa cultura permitiu que os homens tocassem as mulheres quando bem entendessem e, se você reclamasse, era chamada de louca”, afirmou Victoria. Liliana, uma cineasta de 56 anos, conheceu o tango ainda criança. Seu pai, um oficial militar posteriormente condenado por vários crimes cometidos durante a ditadura argentina, obrigava a família ao ritual de sempre assistir ao programa de TV Grandes Valores do Tango.  

“Eu tinha uma fascinação pela dança”, afirmou Liliana no apartamento que compartilha com a companheira alemã. “Aquele abraço único, aquelas coreografias sensuais, isso é algo de que me lembro vividamente.” Depois de adulta, ela começou a frequentar os encontros de tango em Buenos Aires chamados de milongas. Mas a paixão dela foi diminuída por hábitos que lhe pareciam sexistas.

O tango argentino é produto dos ritmos e tradições que se encontraram nos séculos 18 e 19 nos bairros pobres de Buenos Aires, mantidos por imigrantes europeus, ex-escravos africanos e a população local. A princípio rejeitado pelas elites e a Igreja Católica, que o qualificava como obsceno, o tango passou a ser aceito no início do século 20.

As letras de muitos clássicos do tango contam histórias de amor, saudade e traição. Mas muitas canções são odes explícitas à submissão das mulheres e à violência contra elas. Amablemente, de Iván Díez, relata o caso de um homem que encontrou a mulher com outro. Ele exigiu que ela lhe preparasse uma bebida, se aproximou para beijá-la e “amavelmente, a apunhalou 34 vezes”. Tortazos, de Edmundo Rivero, um discurso sobre uma ex-amante que se casou com outro, diz: “Não te quebro com uma bofetada (tortazo) para não bater em você na rua!”.

“Por um tempo, esses versos eram apenas muito conhecidos, e eu somente ria deles”. Mas esse tipo de tango passou a ser criticado conforme o movimento feminista argentino crescia. Para Soraya Rizzardini González, uma instrutora de dança que integra o Movimento Feminista do Tango, ainda que as canções justificando explicitamente a violência sejam uma minoria, o tango sempre refletiu o sexismo generalizado na cultura argentina.

“Os papéis dos gêneros são estáticos”, afirmou Soraya. “Uma pessoa está conduzindo e a outra, não. O tango é uma caricatura do patriarcado”. Na década de 1990, argentinos gays começaram a organizar coletivos de dança que criaram espaços em que mulheres podiam conduzir as danças e casais do mesmo sexo podiam se alternar entre os papéis.

Em 2003, pouco após ter se assumido lésbica publicamente, Liliana viu um anúncio para aulas de tango queer e achou a ideia fascinante. “Significava poder se apossar de um pedaço de herança cultural que é tão profundamente nosso, mas que era acessível, até então, somente a um certo segmento da população”, afirmou ela. “Havia algo muito subversivo naquilo.”

Liliana afirmou que aprender a conduzir um tango exigia dela aceitar o fato de ter se sentido, por anos, maltratada pela vida em geral. “Como mulher, você se dá conta que é capaz de liderar, e que você consegue fazer isso bem”, afirmou ela. Mais mulheres foram se tornando instrutoras de tango. E mais milongas passaram a aceitar casais homossexuais, mulheres conduzindo homens e outros rompimentos com as convenções.

Mas alguns permanecem aferrados à tradição. Héctor Norberto Pellozo, diretor da milonga Los Cachirulos, insiste que os convidados se vistam com elegância e realizem os rituais de cortejo nos quais as mulheres têm de aguardar o interesse dos homens. Ele riu diante da sugestão de que o tango tem perpetuado a desigualdade de gênero e afirmou que respeita gays, mas a ideia de que elas possam dançar tango é uma blasfêmia. “O encaixe de peito com peito não funciona bem quando não há um homem e uma mulher no abraço”, afirmou ele.

Após ter sido expulsa da milonga de Pellozo por tentar dançar com outra mulher, Liliana está longe de ser fã do evento. Mas ela pode se consolar com o fato de atrair público maior para o La Furiosa. “Talvez tenhamos ampliado o tango para algo fraternal, e não necessariamente sensual”. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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