Ivan Marianelli/The New York Times
Ivan Marianelli/The New York Times

Fendace, a união frustrante de Fendi e Versace

Nas passarelas da Semana de Moda de Milão, esperava-se uma parceria, mas o que se viu foi uma sobreposição onde a Versace saiu com mais destaque

Vanessa Friedman, The New York Times - Life/Style, O Estado de S.Paulo

15 de outubro de 2021 | 05h00

Milão – A Semana da Moda de Milão terminou com a confirmação oficial do que pode ser a maior tendência no mundo da moda de agora em diante – não as franjas (embora houvesse muitas delas) ou os braceletes (idem) ou mesmo os tops de biquíni (que ainda estão na moda), mas sim a união de marcas poderosas.

O evento apresentou a Fendace, também conhecida como Fendi por Versace, ou Versace por Fendi, com as coleções pop-up pré-primavera de 2022 criadas por Kim Jones, diretor artístico de moda feminina da Fendi; Silvia Venturini Fendi, designer de moda masculina da Fendi; e Donatella Versace, da Versace, em que os designers trocaram de lugar e depois mostraram os resultados na passarela. O nome pode ter sido criado para ser divertido, mas não é uma piada. "Isso nunca tinha acontecido na história da moda", disse Versace, hiperbolicamente, em um comunicado à imprensa. Ela descreveu o experimento como "uma troca de papéis".

Pense nisso como uma colaboração elevada ao enésimo grau (mas não ouse chamar de colaboração, porque isso é coisa de 2019). Ou o oposto de separação consciente, mas em uma versão de curta duração, quando duas marcas na mesma categoria de moda decidem que, em vez de competir, começarão a jogar no mesmo time. De propósito e com permissão.

A Gucci deu início à ideia em abril, quando seu designer, Alessandro Michele, "hackeou" a marca irmã Balenciaga (nada de "colaboração", viu?) para a coleção principal da Gucci; a Balenciaga retribuiu o favor em junho. Em seguida, Jean-Paul Gaultier – a marca, não o homem – anunciou que, depois da aposentadoria de Gaultier, cada desfile de alta-costura seria criado por um designer convidado diferente, interpretando as características da marca: em julho, foi a vez de Chitose Abe, da Sacai; o próximo será Glenn Martens, da Y/Project e da Diesel. Abe também se juntou a Jones, da Fendi, como parte de seu outro trabalho, como diretor artístico da Dior Men's, para criar uma pequena coleção masculina em junho.

Trata-se de um encontro de iguais, ao contrário dos projetos anteriormente conhecidos como colaborações, que costumavam apresentar marcas de diferentes partes do mundo da moda (nomes da alta-costura e do mercado de massa; da alta-costura e do streetwear; da alta-costura e do esporte), em uma mistura que funcionava porque a dupla era tão incompatível que ficava legal. O plano é explorar o legado e as características de cada marca, para iluminá-las de maneira inédita.

Afinal, está ficando cada vez mais difícil fazer com que essas parcerias se destaquem, agora que praticamente todo influenciador faz alguma colaboração – e vive em uma casa colaborativa. É preciso expandir o conceito.

Em teoria, Versace e Fendi partiram dessa ideia e deram um passo à frente: revelaram o projeto no último minuto (embora estivesse em andamento desde meados de fevereiro) em um programa supostamente secreto (a não ser pelo fato de que a notícia vazou na semana anterior), não como duas marcas relacionadas no mundo da moda, como Gucci e Balenciaga, que pertencem à Kering, mas como duas marcas que fazem parte de conglomerados completamente diferentes (Capri Holdings, no caso da Versace, e LVMH Moët Hennessy Louis Vuitton, no caso da Dior).

Que divertido! Uma polinização cruzada! Típico do mundo da moda, já que havia muitos rumores de que Jones seria oficialmente escolhido como o herdeiro de Donatella Versace em 2017, antes que ele assumisse o cargo na Dior e ela decidisse que ficaria no comando por mais algum tempo.

No fim das contas, ficou muito difícil perceber a diferença. Foi até meio difícil notar a diferença entre esse desfile e o desfile da Versace no início da semana.

A maior surpresa da Fendace foi como a falta de ousadia – e como a estética da Versace se sobrepunha. Talvez houvesse um pouco mais de alfaiataria na seção Versace por Fendi, emendada e com estampas de lenço; um pouco mais de atenção ao trabalho manual, especialmente em um minivestido tubinho tomara-que-caia com estampa rococó adornado com bordados. Mas, essencialmente, o Versace por Fendi parecia muito Versace – e o Fendi por Versace também parecia muito Versace. Embora com mais logotipos "F".

Isso se deve, em parte, ao fato de haver muitas características associadas à casa fundada por Gianni: não apenas símbolos como gravuras gregas e curvas barrocas, mas alfinetes de fralda, cota de malha, preto e dourado, sexo e dominação de salto alto (além do cabelo, basta ver as perucas Donatella na seção Fendi por Versace). Por outro lado, se você examinar a mente coletiva em busca da semiologia da Fendi, encontrará principalmente uma letra do alfabeto. Alguns complementares, dois tons de marrom. E peles, é claro, mas a Versace anunciou que não voltaria a usá-las.

Além disso, os dois lados adoram uma supermodelo original: Shalom Harlow, Amber Valletta e Kate Moss fecharam a seção Versace por Fendi; Naomi Campbell, a Fendi por Versace. Kristen McMenamy e Karen Elson também fizeram aparições, assim como outras modelos.

Para que as colaborações – ou, para ser mais específico, a "celebração da moda italiana e uma ruptura da ordem estabelecida", descritas no comunicado de imprensa da Fendace – alcancem certo nível de grandeza, é preciso haver tensão, em vez de aconchego, carinho; é preciso haver uma necessidade de negociação entre estéticas opostas para dar origem a uma nova forma de ver, tirando os designers de sua zona de conforto.

O que torna essas junções empolgantes é o encontro de duas mentes, cada qual com uma história antitética, cabo de guerra que cria uma quimera tão inovadora que poderia se tornar um mito. Caso contrário, resta apenas a apreciação mútua e o marketing. Ou uma entrevista de emprego.

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