Anthony Rassam / The New York Times
Anthony Rassam / The New York Times

Fenômeno musical Kidz Bop e a sobrevivência no mundo do streaming

No Top 10 da Billboard, a marca só perde para The Beatles, The Rolling Stones e Barbra Streisand; queda na vendas de discos preocupa executivos

David Peisner, The New York Times

19 de julho de 2019 | 06h00

Vários anos atrás, Vic Zaraya, presidente da marca musical Kidz Bop, estava almoçando com um importante executivo da indústria musical. Na época, Zaraya também era presidente da Razor & Tie, selo que lançou os álbuns Kidz Bop até 2018, quando foi absorvido pela Concord Music.  “Kidz Bop é a nossa Adele", comparou Zaraya ao colega no almoço. O executivo riu.

Na verdade, Zaraya estava ocultando a verdadeira popularidade do Kidz Bop. A série teve um início bastante inocente em 2001: um álbum de sucessos atuais do pop cantados por adolescentes com letras higienizadas e seguras. Desde então, foram vendidos mais de 20 milhões de álbuns. Entre 2005 e 2015, os artistas que participam da escalação do Kidz Bop Kids emplacaram 22 álbuns no Top 10 da Billboard. Apenas três artistas - os Beatles, os Rolling Stones e Barbra Streisand - têm mais álbuns no Top 10 do que Kidz Bop Kids. Adele tem três.

Mas o excepcional sucesso da série parece ter evaporado. Nenhum dos sete álbuns mais recentes chegaram ao Top 10 da Billboard, e três dos quatro mais recentes não conseguiram nem sequer ficar no Top 40. “Um dos problemas é que a ideia de uma compilação se tornou algo obsoleta", justificou Vickie Nauman, fundadora do CrossBorderWorks, grupo de consultoria da indústria fonográfica. “As compilações satisfaziam uma necessidade porque eram portáteis, escolhidas cuidadosamente, oferecendo uma forma de apreciar a obra de diferentes artistas sem a compra de dez álbuns. Mas as listas de reprodução, ou playlists, são as novas compilações".

Consumo de música

As dificuldades da série coincidem com uma mudança geral na forma de consumir música observada no público. Entre 2015 e 2018, a transmissão via streaming cresceu de 35% para 75% do mercado musical dos Estados Unidos. Zaraya afirma que a recente queda na popularidade do Kidz Bop nas paradas da Billboard não representa uma queda na popularidade. “Não estamos concentrados na primeira semana, no primeiro mês ou mesmo em álbuns específicos", afirmou. “Quando lançamos o Kidz Bop 39, as pessoas acessam o Spotify e não ouvem necessariamente Kidz Bop 39. Elas acabam ouvindo o catálogo do Kidz Bop”.

Ainda que álbuns da série continuem a ser lançados em serviços de streaming e nas principais lojas do varejo, o ritmo diminuiu. Agora, o foco é o fluxo constante de singles. “Um dos motivos que garantiram o sucesso dos CDs da série Kidz Bop é o fato de serem um ambiente seguro", disse Vickie. 

Isso ajuda a explicar porque o Kidz Bop conseguiu continuar vendendo CDs. Ainda que o total de álbuns vendidos - vendas de CDs e downloads digitais, de acordo com dados da Nielsen - tenha caído de 818 mil em 2016 para 410 mil em 2018, essa queda é relativamente modesta. O cantor Drake vendeu 1,9 milhão de álbuns em 2016, mas apenas 436.000 no ano passado. “Conforme observamos o declínio do segmento dos CDs e o segmento do streaming demorou um pouco para crescer, tivemos que usar a criatividade nos gastos e na estratégia para chegar a novos consumidores", argumentou Zaraya.

Em 2014 o Kidz Bop lançou seu canal no YouTube, que agora conta com mais de 1,3 milhão de assinantes. Novos videoclipes, bem como vídeos de bastidores e aulas de dança, são compartilhados semanalmente. Quando Sasha Junk, vice-presidente sênior de marketing do Kidz Bop, entrou para a empresa dez anos atrás, quis transformá-los, na época um apanhado de músicos de estúdio, em uma trupe que estrelasse vídeos musicais, participando de aparições públicas e apresentações ao vivo. “Agora, eles são os rostos da marca", empolgou-se. 

As turnês dos The Kidz Bops Kids, que começaram em 2014, venderam meio milhão de ingressos nos três anos mais recentes. Em 2017, turnês adicionais foram anunciadas na Grã-Bretanha, seguida de Alemanha, Austrália e Nova Zelândia. No ano passado, o Hard Rock Hotel de Punta Cana, na República Dominicana, estreou a sua Kidz Bop Experience, atração na qual as crianças aprendem passos de dança, compõem músicas e estrelam seus próprios videoclipes. Este ano, outra Kidz Bop Experience foi inaugurada em um Hard Rock no México.

Para Zaraya, o Kidz Bop tem o potencial de evoluir para um império em crescimento. “Estamos em um ponto de virada interessante, análogo à Disney do início dos anos 1980, quando eles tinham parques temáticos e alguns filmes, mas apenas começavam a vislumbrar aquilo que se tornariam". / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

 

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