Lauren Lancaster The New York Times
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Férias silenciosas demais para um crítico musical

Com apresentações silenciadas pelo coronavírus, Anthony Tommasini, o principal crítico de música clássica do The New York Times, ficou desejando mais som, não menos

Anthony Tommasini, The New York Times - Life/Style

15 de setembro de 2020 | 05h00

Geralmente, o período que vai do fim de agosto até o início de setembro é o ideal para que eu tire duas semanas de férias. A música clássica costuma ser suspensa nessa época também. Depois de uma temporada de concertos lotada e uma série de festivais de verão [no hemisfério norte], tudo parece parar um pouco antes da retomada no outono boreal. É uma pausa bem-vinda não apenas para os músicos e as instituições, mas também para os dedicados amantes de música.

Podemos dar um descanso aos nossos ouvidos e recordar as apresentações que ouvimos. Mas este ano as coisas pararam em meados de março, quando a pandemia do novo coronavírus fechou salas de concerto e de ópera no mundo inteiro. A maioria das apresentações nos Estados Unidos foi cancelada pelo menos até o fim do ano.

Portanto, um pouco de surfe e um pouco de areia não terão para mim o mesmo significado que tiveram nos anos anteriores. Em vez de apreciar o silêncio, estou ansioso por música. As paralisações têm sido devastadoras para a música clássica americana, devido à sua dependência de patrocínios – que vêm minando nos últimos tempos – e à falta de apoio significativo do governo, que ainda sustenta instituições na Europa.

É deprimente ler todas as publicações nas redes sociais de artistas freelancers talentosos que estão sem trabalho há meses e têm uma visão sombria do futuro. Quando tudo está funcionando normalmente, em uma cidade como Nova York há espetáculos em abundância – talvez mais do que qualquer outra arte ao vivo. Só na Juilliard School se realizam quase 700 apresentações por ano, cerca de 85% delas gratuitas.

Frequentemente, há vários concertos excelentes por dia. Para muitos deles, não é preciso comprar ingresso; você simplesmente entra. Lá se foi a percepção injusta de que a música clássica é elitista e cara. Mesmo durante as semanas mais concorridas da temporada, quando assisto a apresentações quase todas as noites, estou apenas experimentando uma fração pequena do que está disponível.

No entanto, o simples fato de saber que esses concertos estão sendo realizados, de locais pequenos, como o Roulette, no Brooklyn, aos grandes palcos do Carnegie Hall e do Lincoln Center, comprova a riqueza e a vitalidade dessa forma de arte. Mas o que acontecerá com os concertos ao vivo, já que continuamos lutando contra a covid-19? Mesmo se uma vacina for disponibilizada, o público ainda ficará inquieto por estar no meio de uma multidão?

Anos antes da chegada do vírus, alternativas tecnológicas para apresentações presenciais estavam se tornando mais sofisticadas e ganhando popularidade. Os cancelamentos deste ano têm estimulado as instituições e os artistas a lançar uma enxurrada de programação online, intensificando nossa dependência desses recursos de áudio e vídeo.

Ainda assim, temo que as pessoas se distanciem digitalmente do que é para mim e para muitos um elemento determinante da música clássica: o puro prazer sensorial de estar imerso em um som natural (que não é eletronicamente aprimorado), quando uma peça é executada por artistas talentosos em um espaço acusticamente vibrante.

Evidentemente, os elementos eletrônicos têm sido incorporados à música há gerações: a música computadorizada de Milton Babbitt, o uso delicado de aprimoramentos eletrônicos de Pierre Boulez, inúmeras obras que misturam instrumentos tradicionais com guitarra de rock e bateria. Ainda assim, a grande maioria das apresentações clássicas envolve tradicionalmente vozes treinadas e instrumentos que não mudaram muito nos últimos séculos – e sem nenhum traço de amplificação.

Pensando nas minhas primeiras lembranças de óperas e concertos, os sons reais das apresentações – as notas agudas do pianíssimo de Leontyne Price flutuando até os balcões do Metropolitan Opera em Aida, Leonard Bernstein liberando todo o poder da Filarmônica de Nova York em A Sagração da Primavera – me cativaram tanto quanto a própria música. Meus sentimentos sobre a diferença entre música ao vivo e on-line foram capturados este mês em um tuíte contundente do jovem e aventureiro pianista e compositor Conrad Tao.

"Estou me referindo a duas futuras apresentações que serão pré-gravadas como 'shows', um pouco jocosamente, mas definitivamente não são concertos, na minha opinião; são 'shows' no sentido de programas de tevê. Somos empresas de produção agora", escreveu ele. Um desses "shows" foi um recital emocionante de uma hora que Tao gravou em julho para o Festival Tanglewood Online.

Para esse programa ousado, cativante e brilhantemente tocado, Tao justapôs novas e recentes obras de Felipe Lara, de Tania León, de David Lang e do próprio Tao, com duas iterações de um étude pedregoso de 1930 de Ruth Crawford Seeger e a Sonata nº 17 de Beethoven, conhecida como A Tempestade, no centro. Tao desenhou vividamente os elementos orgânicos, as atmosferas coloridas e os modos alternadamente abruptos e místicos de obras contemporâneas, fazendo com que Beethoven soasse audaciosamente experimental em sua companhia.

O trabalho da câmera foi excelente; a qualidade do áudio, excepcional. Tao falou com perspicácia e charme das peças que tocou. Esse oferecimento online foi como um presente em tempos de austeridade. Ainda assim, pensei em uma apresentação sua no outono passado, sua estreia no Carnegie Hall no Weill Recital Hall, que também justapôs trabalhos recentes de Lang, Julia Wolf e Jason Eckhardt com peças de Elliott Carter, Rachmaninoff, Bach e Schumann.

Tocando descalço, Tao tinha aquele espaço íntimo de 268 lugares como um ponto de encontro informal para o qual todos nós havíamos sido convidados. Depois, ele se misturou ao público que estava no lobby. Tente reproduzir essa experiência online. Poucos dias depois da publicação do tuíte sobre os "shows" que havia gravado, Tao estava tentando afastar outro medo.

"Não foi uma semana ruim para mergulhar de novo no trabalho, no planejamento e em tudo o mais, considerando que estou me sentindo totalmente desesperançado", escreveu ele. Enquanto os devotos da música clássica esperam até que as condições sejam favoráveis novamente e o medo do vírus tenha passado, artistas como Tao estão tentando manter essa forma de arte de toda maneira possível. Estou pensando neles durante minha curta ausência – e desejando mais música, em breve, em vez de mais pausas".

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