Herinneringscentrum Kamp Westerbork
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Ferrovia que colaborou com nazistas indenizará sobreviventes do Holocausto

Diretor executivo da companhia disse que o dinheiro era apenas um gesto, e que reconhecia que “é apenas um pequeno curativo sobre uma enorme ferida”

Nina Siegal, The New York Times

16 de outubro de 2019 | 06h00

AMSTERDÃ - O papel desempenhado pelas ferrovias alemãs na máquina do genocídio nazista, na Segunda Guerra Mundial, é notório. Mas agora, os holandeses estão começando a admitir a contribuição das ferrovias nacionais no Holocausto. Por dezenas de anos, segundo o historiador David Barnouw, muitos holandeses consideraram heroico o trabalho das suas ferrovias, Nederlandse Spoorwegen, ou N.S., na guerra.

Em setembro de 1944, o governo holandês em exílio em Londres, ordenou que os ferroviários fizessem a greve, que durou quase oito meses até o fim do conflito. A greve ocorreu depois que as estradas de ferro holandesas já haviam deportado cerca de 107 mil judeus residentes na Holanda - dos 140 mil cidadãos identificados como judeus em 1941 - para campos de trânsito e de extermínio. Somente 5,1 mil sobreviveram. 

O fato é notório na Holanda, assim como o elogio que Adolf Eichmann, o oficial nazista que elaborou os planos de deportação e genocídio, fez às ferrovias holandesas: “Os transportes funcionam tão perfeitamente que é um prazer observá-los”. Mas novas pesquisas, divulgadas no livro de um holandês lançado em setembro, indicam que havia em funcionamento mais meios de transporte do que originalmente se pensava.

Ao todo, os pesquisadores concluíram que 112 trens holandeses saíram da Holanda com destino a nove campos nazistas em países como Alemanha, Áustria e Polônia de junho de 1942 a agosto de 1944. Cada trem deixou o principal campo de trânsito, Westerbork, com em média mil pessoas a bordo aproximadamente, e alguns com uns milhares. As ferrovias holandesas cobraram dos alemães mais ou menos o equivalente a três milhões de euros, corrigidos de acordo com a inflação, para operar estes trens, segundo Dirk Mulder, um dos autores.

Os alemães pagaram à empresa uma pequena quantia por pessoa para transportar uma parte de Amsterdã até o campo de trânsito. E pagaram alguns centavos a mais por pessoa para o trajeto até a fronteira alemã-holandesa. Lá, o condutor holandês e a sua turma eram substituídos por uma tripulação alemã, disse Barnouw, por isso não se sabe ao certo até que ponto os funcionários dos trens holandeses sabiam o que aconteceria com os seus passageiros.

Guus Veenendaal, um dos autores, discordou. “Mais tarde ao longo da guerra, os funcionários da ferrovia ficaram cientes do que aconteceria exatamente”, ele disse. “Não sei se eles sabiam anteriormente. Talvez nem quisessem saber”. Em 2005, a companhia admitiu ter colaborado com os nazistas e pediu desculpas por isto. No ano passado, anunciou que destinaria uma verba de 50 milhões de euros, ou cerca de US$ 55 milhões, para indenizar os sobreviventes e seus parentes.

Roger van Boxtel, o diretor executivo da ferrovia, disse que o dinheiro era apenas um gesto, e que reconhecia que “é apenas um pequeno curativo sobre uma enorme ferida”. Veenendaal afirmou que os pesquisadores não encontraram provas de sabotagens por parte dos funcionários da ferrovia, gerentes ou empregados da época.

“Há um único maquinista que se recusou a conduzir um dos trens que transportavam judeus”, disse. “Ele foi simplesmente substituído por outro, e foi dado como doente e incapaz de cumprir a sua obrigação. E só, apenas um. Os restantes cumpriram a sua obrigação, e operaram os trens”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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