Linh Pham/Agence France-Presse - Getty Images
Linh Pham/Agence France-Presse - Getty Images

Festivais de música crescem na Ásia, mas sofrem com repressão de governos

Governos têm cancelado eventos vistos como ameaças à segurança pública ou valores sociais

Mike Ives, The New York Times

30 de dezembro de 2018 | 06h00

HONG KONG - Quando os membros da banda Bottlesmoker, grupo do gênero “indietronic” da Indonésia, pousaram no Vietnã, estavam ansiosos para tocar no Quest Festival, evento anual anunciado como “maravilhoso acontecimento de contato com a natureza, a arte e o entretenimento eclético".

Mas, no dia seguinte - depois que as bandas e os fãs tinham viajado até o local do festival, perto da capital, Hanói - os organizadores do Quest enviaram um email ao Bottlesmoker dizendo que o evento tinha sido cancelado. “Depois de manter seu apoio ao nosso evento até hoje, as autoridades decidiram cancelar o alvará do festival por motivos que ainda desconhecemos", escreveram eles. “O Bottlesmoker esperava há quase dois anos para se apresentar no Quest Festival", disse Anggung Suherman, que toca sintetizadores na banda. “Ficamos de coração partido.”

A Ásia é um crescente mercado para festivais de música de inspiração ocidental nos quais as batidas eletrônicas seguem até a alta madrugada. Somente na China, o número de festivais de música eletrônica foi de aproximadamente 150 este ano, uma alta em relação aos 32 realizados em 2016, de acordo com levantamento recente.

Mas os promotores de eventos de boa parte da Ásia estão cada vez mais em desacordo com governos conservadores para os quais esses festivais são ameaças à segurança pública, à estabilidade social e aos valores religiosos. O conceito de um festival de música à moda ocidental ainda é novidade para muitas autoridades na região, e há poucas regras para a sua regulamentação, disse Reason Xie, diretor de programação do Looptopia, maior festival de música ao ar livre de Taiwan.

“A maioria dos governos asiáticos prefere evitar festas e, com isso, evitar problemas", disse ele, acrescentando que o comentário não se aplica ao Japão ou Coreia do Sul. “As autoridades não querem assumir a responsabilidade porque, para elas, o festival é um risco a correr.”

O festival Quest foi apenas um dos eventos musicais de grande porte a serem cancelados na região nos anos mais recentes. O Quest Festival deveria ocorrer cerca de dois meses depois de a emissora jornalística estatal ter divulgado em setembro que sete pessoas morreram depois de terem usado drogas durante o festival de música eletrônica Trip to the Moon, num parque aquático perto de Hanói. As mortes levaram o governo da cidade a anunciar uma proibição temporária a todos os festivais de música.

Em 2015, as autoridades de Taiwan proibiram o festival de música 2F: White Party depois que uma explosão num parque aquático perto de Nova Taipé deixou 15 mortos e centenas de feridos. No ano anterior, o Future Music Festival Asia, na Malásia, foi cancelado no terceiro dia depois de 19 frequentadores serem detidos por suspeita de porte de drogas e seis outros morrerem de insolação.

Os organizadores do festival tentaram transferir o evento para Cingapura em 2015, mas as autoridades do país não aprovaram o alvará para a realização do espetáculo de entretenimento público. Em meados deste ano, dois dos maiores eventos de música eletrônica da China - os festivais Ultra, em Xangai e Pequim - não foram realizados como o planejado. As perguntas em relação ao motivo do cancelamento e ao futuro dos eventos no país seguem sem resposta.

Xie destacou que o governo chinês é conhecido por suspeitar de subculturas populares, e os festivais de música eletrônica não deixariam de chamar atenção. “Eles proibiram o hip-hop", disse ele, referindo-se aos recentes esforços de autoridades chinesas para suprimir referências ao gênero musical na televisão. Ele acrescentou que a música dançante “é o próximo alvo do monitoramento deles, especialmente com os festivais de música envolvendo milhares e milhares de pessoas reunidas".

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