Lena Mucha para The New York Times
Lena Mucha para The New York Times
Melissa Eddy, The New York Times

31 de março de 2019 | 06h00

WARDENBURG, ALEMANHA - O grupo foi puxando o seu carrinho decorado com luzes enquanto o alto-falante tocava canções populares alemãs no entardecer de inverno, para uma caminhada através dos campos cobertos de gelo. Ninguém, com exceção do ‘Rei e da Rainha da Couve’ conhecia o itinerário. Mas todos sabiam que as quatro horas seguintes, durante as quais iriam ziguezagueando pelos atalhos, parando para algumas brincadeiras, por exemplo, uma competição para ver quem quebra mais nozes e doses de schnapps, serviriam apenas como aquecimento. 

O prêmio seria a couve-de-folhas cozida na gordura de porco ou de ganso, e servida com toucinho, salsichas e salada de batatas. “O gosto é muito melhor do que a aparência”, observou um dos participantes. Nesta parte da Alemanha, cerca de 80 quilômetros ao sul do Mar do Norte, a couve kale é mais do que um ingrediente essencial de um complemento para uma super-alimentação, uma bomba de vitaminas melhor do que brócolis. Ela resume toda uma temporada, um evento, uma tradição.

As caminhadas e as festas que caracterizam a colheita anual da couve-de-folhas - brünkhol, em alemão - nas planícies ao redor de Oldenburg e Bremen, costumavam provocar olhares perplexos na maioria dos alemães. Alguns anos atrás, a cidade de Oldenburg decidiu mudar isto. Intitulando-se a “Capital da caminhada da couve”, começou a promover eventos com passeios durante o inverno, de novembro até o final de fevereiro.

Um casal real, coroado a cada ano, tem a missão de encontrar os caminhos, que variam de 1,5 a cinco quilômetros, e organizar os eventos para o ano seguinte. Nesta temporada, restaurantes e bares estão lotados de gente que vem participar da comilanças à base da couve-de-folhas cultivada na região, com todos os complementos. Isto inclui uma salsicha suavemente apimentada recheada de grumos, uma especialidade regional conhecida como pinkel (salsicha de bacon, barriga de porco e temperos).

Soa um pouco melhor em versos, como fez um “Jornal da Couve” em 1953: a couve-de-folhas é servida com bacon, pinkel e carne de porco. Agora todos são encorajados a erguer bravamente os seus garfos! A couve-de-folhas um pouco dura comum aqui é conhecida por seu sabor amargo. Ela se torna mais tenro quando permanece por mais tempo no caule, e adquire mais flavonoides à medida que a temperatura cai.

A associação da couve-de-folhas com o frio está tão arraigada nas mentes da população, que os fazendeiros têm dificuldade para vender a sua safra quando a temperatura se eleva demais, disse Eike Frahm, que dirige uma cooperativa agrícola. “Podemos ter couves lindas no mercado, mas se não fizer bastante frio, as pessoas não os comprarão”, afirmou. As origens das caminhadas estariam em uma tradição antiga de ricos proprietários de terras que moravam no campo e saíam em busca de um pouco de diversão no inverno.

Havia então uma parada inesperada na casa de algum fazendeiro, diz a lenda, onde se sabia que um caldeirão da verdura estaria sendo preparado em cada fogão. A tradição evoluiu e se tornou uma festa popular local, além de uma noitada com os amigos. Restaurantes e pousadas oferecem pacotes de refeições de tudo o que se pode imaginar, seguidas por uma dança.

Este ano, um dos integrantes do passeio foi Jens Warntjes, na primeira das três caminhadas planejadas - “esta, com os meus amigos, depois com os colegas de trabalho, e então com os amigos da minha esposa”. Depois disso”, afirmou, “não precisaremos comer couve-de-folhas por mais um ano”.

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