Ines Sebalj/The New York Times
Ines Sebalj/The New York Times

Um festival de cinema para uma pessoa numa minúscula ilha nórdica

O Festival de Cinema de Gotemburgo levou o distanciamento social ao extremo, com uma única participante durante uma semana numa ilha desabitada, tendo por companhia somente os filmes em competição

Lisa Abend, The New York Times - Life/Style

05 de fevereiro de 2021 | 05h00

Como ocorre na abertura de qualquer festival de cinema repleto de astros e estrelas, os fotógrafos se agitam em busca de uma melhor posição, focando suas câmeras no local onde os membros do público se aglomeram. Mas quando a primeira – e única - convidada de honra apareceu, ela não usava smoking ou um vestido cintilante, mas vestia uma calça jeans e uma jaqueta forrada de inverno laranja (estilista desconhecido). Nenhum tapete vermelho, somente o chão gelado e nu. E em vez de se dirigir a uma sala luxuosa repleta de celebridades, ela entrou numa lancha a motor que zarpou nas águas geladas na direção de uma minúscula ilha onde assistiria à estreia.

Enquanto os festivais em todo o mundo enfrentam dificuldades por causa da pandemia, o Festival de Cinema de Gotemburgo, que teve início nesta que é a segunda maior cidade da Suécia em 29 de janeiro, não só implementou as medidas de distanciamento social como as incrementou. Durante uma semana, serão exibidos filmes em duas salas da cidade para uma única pessoa presente. Além disto, um único espectador foi enviado para uma minúscula ilha desabitada do Atlântico Norte, onde assistirá aos 70 filmes em competição – sozinho.

Alguns festivais, como o de Veneza, que se realizou em setembro, tiveram lugares, mas em versão reduzida, com assentos alternados nas salas de cinema e checagem obrigatória de temperatura dos espectadores.

Outros, como o de Sundance e a Berlinale, partiram para a versão digital, oferecendo acesso via streaming aos filmes e outros eventos. Alguns organizadores adiaram os seus festivais, torcendo para que mais adiante as regras impostas pela pandemia permitam uma experiência que se aproxime mais do habitual. Em 27 de janeiro, foi anunciado que o festival de cinema de Cannes se realizará em julho e não em maio como é o costume.

Mas em Gotemburgo, cujo festival é o mais importante dos países nórdicos, os organizadores fizeram da necessidade uma virtude. “Muitas pessoas em casa sozinhas, impossibilitadas de se reunirem com amigos ou a família, se voltaram para o cinema em busca de companhia e consolo”, disse o diretor artístico do festival Jonas Holmberg. “Quisemos então fazer uma experiência com isto, isolar essa sensação e levá-la ao extremo. Então pensamos, ‘por que não segregar a pessoa numa pequena ilha com nada mais a não ser filmes para assistir?’”

Como o único país da Europa a resistir a um lockdown formal, a Suécia seguiu seu próprio caminho em meio à pandemia, não recomendando o uso de máscaras e não fechando escolas até dezembro, até registrar uma taxa de mortalidade desproporcionalmente alta em decorrência da covid-19 que a obrigou a mudar a estratégia.

Mas grande parte do país tem respeitado as diretrizes expedidas pelo governo e depois de meses de distanciamento social até voluntário, e lockdowns, uma semana isolada numa ilha tendo somente filmes como companhia parecia ser a última coisa que muitas pessoas necessitam. Mas quando um vídeo postado online anunciou o concurso, mais de 12 mil pessoas se candidataram à experiência. Em 19 de janeiro, o festival escolheu a vencedora, a enfermeira Lisa Enroth, 41 anos, da cidade de Skovde, do sudoeste do país.

Como os trabalhadores da área da saúde de qualquer lugar, Lisa tem vivido meses estressantes. “Diariamente no hospital temos de enfrentar tanta coisa. Com todos os pacientes e todos os novos protocolos. Nunca me senti tão isolada em minha vida”.

Assim, quando viu o vídeo abrindo candidaturas, ela não hesitou. “Sozinha na natureza, numa ilha? E com filmes? Pensei, ‘sim, é o que preciso’”.

O hospital concedeu a ela uma licença e, em 30 de janeiro, foi levada de lancha para Hamneskar, uma ilha rochosa a 40 quilômetros de Gotemburgo, apelidada de Pater Noster pelos marinheiros que costumam rezar o Pai Nosso quando se aproximam de águas traiçoeiras. Ali ela se instalou num antigo chalé do zelador da ilha que fica ao lado do farol e se preparou para a maratona de filmes.

Durante o tempo em que estiver na ilha, Lisa terá acesso a 70 filmes do festival, incluindo o concorrente ao Oscar pela Finlândia, Tove, o aclamado filme de Thomas Vinterberg Another Round, e Pleasure, de Ninja Thyberg, natural de Gotemburgo, todos os filmes competindo pelo prêmio de melhor filme nórdico. No campo internacional, os filmes em competição incluem The Macaluso Sisters, de Emma Dante, ambientado na Sicília, e Slalom, de Charlène Favier, sobre esquiadoras abusadas pelo seu técnico.

Há também uma sessão separada, chamada Distâncias Sociais, com filmes produzidos em resposta à pandemia e uma chamada Lockdown Cine, para curtas realizados na quarentena.

Mesmo tendo de postar diariamente suas impressões online numa página dedicada a isto no website do festival. Lisa concordou em evitar todas as formas de comunicação e entretenimento – nada de telefone e nem livros durante sua estadia na ilha. Ela diz não estar preocupada com a solidão, mas não descarta a possibilidade de “talvez começar a conversar com os móveis”. E como Holmberg, ela também está interessada em ver como a sua semana na ilha pode mudar a experiência de assistir a filmes.

“No primeiro dia, achei ótimo estar ali, sozinha, assistindo a um filme. Mas depois de alguns dias, talvez eu pense, ‘ok essas pessoas são minha única companhia. Mas e se eu as odiá-las?”, disse ela.

Mas para ela, que adora ficção científica (seu filme predileto é História sem Fim), mesmo isso será uma fuga bem-vinda. “Adoro ver filmes porque consigo me distanciar do trabalho e de tudo o que vem ocorrendo neste momento. É ótimo ficar envolvido na realidade de outra pessoa”, disse ela. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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