Valerie Plesch para The New York Times
Valerie Plesch para The New York Times

Festival de música lança alguma luz sobre o Kosovo

Tentativa é de superar imagem criada por uma guerra étnica

Alex Marshall, The New York Times

31 Agosto 2018 | 15h30

PRISTINA, KOSOVO --  Dukajin Lipa, 49, ficou sentado na coxia no primeiro importante festival de música do Kosovo, com os olhos embaçados. “Oh, Deus”, disse. “Não durmo há 48 horas”.

Organizar o Sunny Hill Festival de três dias de duração em meados de agosto - com a presença fundamental de sua filha, a pop star Dua Lipa - tinha sido um trabalho insano. “Nenhum promotor estaria disposto a ir ao Kosovo”, respondeu falando da razão pela qual ninguém havia montado um evento como esse antes. “É um pesadelo logístico. E um pesadelo financeiro”.

Lipa contou que contratara equipamentos de som e palco no valor de US$ 2 milhões da Romênia, e teve de pedir alguns favores para facilitar sua passagem pela alfândega. “Nós não estamos infringindo nenhuma regra, só procuramos tornar as coisas fáceis quando é para uma boa causa”, acrescentou.

Ele sentia a necessidade de fazer o festival por uma razão. “Há mais de 50 anos, existe um enorme preconceito em relação ao Kosovo. Não é nada do que vocês leem”, explicou.

A imagem de Kosovo, segundo ele, ainda é a do final dos anos 90, quando os rebeldes de etnia albanesa combateram pela independência da Sérvia, e a isto se seguiu a crise dos refugiados. Lipa e a sua família são albaneses, assim como, ao que se calcula, 90% da população do país.

As relações do Kosovo com a Sérvia continuam tensas. As duas nações ainda não concordaram a respeito de uma fronteira, um passo básico para a Sérvia ingressar na União Europeia.

A situação política contribui para a percepção negativa do Kosovo, diz Lipa. E percebe isto quando as pessoas perguntam de onde ele é. Quando responde Kosovo, elas comentam “ah, que triste. Sinto muito por você”.

Lipa afirma que queria mostrar que o Kosovo é um lugar vibrante, onde as pessoas podem se divertir. “Nós temos nossos problemas, mas também temos uma juventude maravilhosa nesta parte do mundo”, afirmou. “Os jovens são inteligentes, criativos. Eles têm coisas a dizer”.

Talvez seja difícil conviver com os sérvios, que em grande parte não reconhecem o Kosovo como nação independente.

“Há pouco respondi a um garoto sérvio no Instagram”, falou Lipa recentemente. “Ele comentou algo ofensivo sobre os albaneses e eu disse que seria bem melhor se ele viesse aqui e se divertisse com os seus vizinhos. Se fizer isto, arranjaria o ingresso”.

Mas o festival de Lipa não precisava apenas de um público internacional. Para encher o local de 15 mil lugares, era preciso encontrar também um público local. Ele teve certa dificuldade para fazer isto. As pessoas se queixaram do preço do ingresso: 55 euros, ou cerca de US$ 62. Mais da metade dos jovens entre os 15 e os 24 anos do Kosovo está desempregada, segundo a ONU.

Lipa disse que os ingressos eram os mais baratos possíveis, considerando que ele tentava realizar um evento de padrão internacional, que incluía trazer artistas conhecidos mundialmente, como sua filha, Dua Lipa. 

Ela nasceu em Londres, mas passou quatro anos de sua infância em Pristina, a capital. Dua fala normalmente de suas origens kosovares nas entrevistas e aos seus 16 milhões de seguidores no Instagram. Outros músicos kosovares, como Rita Ora, também contribuem para chamar a atenção para o país.

No festival, Lipa estava vestida de vermelho e preto, as cores da bandeira albanesa, nos 90 minutos de sua apresentação no palco. Ela falou quase exclusivamente em albanês entre uma música e outra. Mais tarde, levantou a bandeira da Albânia entre os gritos dos fãs.

Muitos dos artistas, como o astro do rap albanês M.C. Kresha, ganharam muitos aplausos fazendo sinal com duas mãos para indicar a águia da bandeira albanesa. O rapper americano Action Bronson, cujo pai é albanês, também fez o gesto.

A bandeira azul do Kosovo com seis estrelas, que representa os diversos grupos étnicos do país, não foi vista em nenhum lugar.

Bajram Kinolli da Gipsy Groove, uma banda que tocou no evento, disse que sua única crítica era que o festival não trouxe ninguém da Sérvia. Deveria ter sido apresentado um artista sérvio para chamar os sérvios étnicos que vivem no norte de Kosovo. “E só há um Gypsy”, acrescentou rindo, referindo-se a si mesmo.

O evento atraiu alguns não kosovares também. Sara Aleksieska, 18, uma colegial da vizinha Macedônia assistiu ao festival com a irmã e uma amiga, e disse que era a primeira vez que ia ao Kosovo, e não sabia o que esperar. Quando seus pais falavam sobre Kosovo, era sempre de política e sempre ficavam muito sérios.

“Vou voltar e contar a eles que este lugar é maravilhoso”, disse depois do festival. Todo muito se mostrou muito amistoso, as bandas foram ótimas e a comida barata, acrescentou.

Ela não compreendeu o albanês falado no palco, pois não sabe uma palavra do idioma; sua irmã só sabe contar até 10 e pedir sorvete  - mas isto não teve nenhuma importância. “Quando todos gritavam, nós gritávamos. Foi muito divertido”.

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