Elisabetta Zavoli para The New York Times
Elisabetta Zavoli para The New York Times

Festival reúne limpadores de chaminés e recorda horrores do passado

Profissão perigosa dependia da exploração de crianças em cidades italianas

Elisabetta Povoledo, The New York Times

12 de outubro de 2019 | 06h00

SANTA MARIA MAGGIORE, ITÁLIA - O grupo animado desfilou pelas ruas calçadas de pedras, brandindo longas escovas como bastões. Todos os anos, centenas de limpadores de chaminés do mundo inteiro vêm para Santa Maria Maggiore para o Festival Internacional de Limpadores de Chaminés em homenagem ao seu trabalho na cidade que afirma ser o seu berço. Este ano, estavam presentes representantes de 24 países.

A festa atrai milhares de turistas para Valle Vigezzo, cidade próxima da fronteira com a Suíça. São poucos os que esqueceram os horrores de uma profissão perigosa que dependia da exploração de crianças. As lembranças de uma vida de pobreza e humilhações ainda são dolorosas.

“Quando o evento foi criado, nos anos 1980, poucos profissionais locais participaram porque se sentiram envergonhados,” disse o prefeito Claudio Cottini. O museu local do limpador de chaminés exibe um mapa do século 16 em que Vale Vigezzo é identificada como “camifeger tal”, vale dos limpadores de chaminés no dialeto suíço-alemão.

Durante séculos, as famílias desta região foram tão pobres que muitas mandavam os filhos, de seis ou sete anos de idade, para trabalhar como limpadores de chaminés. As crianças eram aprendizes dos “padroni”, os patrões, e relatos de sua vida falam de uma miséria profunda.

Mal alimentados propositalmente para que não engordassem, os meninos eram obrigados a subir pelos canos das chaminés, arranhando os cotovelos e os joelhos, e a escovar a fuligem fumegante das paredes. Às vezes, viajavam até lugares distantes por uma remuneração insignificante.

E frequentemente eram espancados. “Eram desprezados, humilhados e maltratados, mas mesmo assim faziam enormes sacrifícios para enviar o dinheiro para casa e ajudar a família”, contou Anita Hofer, vice-presidente da Associação Italiana dos Limpadores de Chaminés da Itália.

Todos os anos, os limpadores visitantes empreendem uma peregrinação coletiva para a cidade vizinha de Molesco até a estátua de Faustino Cappini, um menino de 12 anos que morreu eletrocutado em 1929, ao enfiar a mão fora de uma chaminé e acidentalmente tocar um fio elétrico. Era comum as crianças anunciarem aos patrões que haviam limpado a chaminé até o topo.

Hoje, a tecnologia, as chaminés modernas e rigorosas normas de segurança fazem da limpeza uma tarefa muito menos perigosa. “Com o tempo, isto se tornou um motivo de orgulho”, disse Corttini. “Agora, existe o reconhecimento de que este país deu aos nossos ancestrais uma profissão, e nós prestamos uma homenagem”.

Os turistas acorrem também outras épocas do ano para admirar os afrescos nas paredes externas das casas e as galerias de arte, aproveitando da fama de Vale Vigezzo de “Vale dos Pintores”. Enquanto o desfile percorreu as ruas, os escoceses marchando ao lado dos russos, os japoneses bombardeados pelos pedidos de fotos; um limpador local, Livio Milani, agitava uma bandeira da Itália no teto da prefeitura da cidade. “Esta é a imagem que vocês devem levar para casa”, disse Rosanna Ramoni, uma moradora do lugar, enquanto todos aplaudiam. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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