Adam Dean para The New York Times
Adam Dean para The New York Times

Festividades são vistas como desvios ao caminho de Buda

Um clamor popular garantiu que os cingaleses continuassem a comemorar o nascimento de Buda com elefantes cerimoniais e ilustrações coloridas de pandol ao redor dos templos

Maria Abi-Habib, The New York Times

12 Maio 2018 | 10h30

COLOMBO, SRI LANKA — Enquanto os cingaleses se preparavam para celebrar o Vesak, feriado que, no início deste mês, celebra o nascimento, a iluminação e a morte de Buda, o governo balançava a cabeça com um severo não. As celebrações haviam se tornado indulgentes demais, advertiu um comunicado oficial.

A comemoração deve ser um momento de oração e meditação, não de diversão e jogos, declarou em março o ministro de Buda Sasana, um departamento do governo dedicado ao budismo. O ministro proibiu os pandols, grandes ilustrações que retratam a vida de Buda com tinta brilhante e luzes de néon, os quais custam centenas de dólares, levam horas para serem construídos e são jogados fora logo depois do feriado.

O clamor contra a proibição surpreendeu o ministro. As partes então chegaram a um acordo: o primeiro dia do Vesak seria reservado às orações, o resto da semana seria mais livre e leve. E, sim, os pandols seriam permitidos. Mas só no segundo dia.

A diversão, os excessos e as extravagâncias continuariam tendo seu espaço.

A disputa pela alma do Vesak reflete as tensões sobre o lugar da religião no Sri Lanka, cuja população é 70% budista. Os pandols se tornaram símbolo de uma classe crescente de cingaleses que estão se afastando da religião e adotando um estilo de vida mais voltado ao consumo. As festividades se tornaram oportunidades para o marketing corporativo.

O Vesak é celebrado no Sri Lanka quando a primeira lua cheia de maio surge no céu. Os budistas de toda a Ásia celebram o feriado, que pode cair em épocas diferentes, dependendo do calendário utilizado por cada país. Também conhecido como “aniversário de Buda”, o Vesak é uma das festas mais importantes da religião.

No primeiro dia do Vesak, os devotos, vestidos de branco, se reunem nos templos de todo o Sri Lanka ao romper da aurora, rezando, queimando incenso e oferecendo flores para as estátuas de Buda.

O templo de Gangaramaya, no coração de Colombo, reuniu a elite urbana, aqueles que são descritos como mais “socialmente budistas”.

Ao redor do templo Gangaramaya, havia prêmios em dinheiro para as melhores lanternas, um elefante adornado à frente de uma procissão e dançarinos tradicionais vestindo pesados colares feitos de flores de metal entrelaçadas com cota de malha.

Conforme a noite se aproximava, bandas tocavam músicas e barracas de comida ofereciam bebidas e lanches de graça, embora grandes empresas de alimentos e bebidas também vendessem seus produtos.

Os religiosos budistas denunciam os excessos em torno de uma festa em homenagem a um homem que trocou a fortuna da família por uma vida ascética. Eles argumentam que as festividades, tal como agora celebradas em templos como Gangaramaya, muitas vezes não conseguem promover as tradições budistas de simplicidade e a busca por uma vida dedicada à satisfação espiritual, e não à aquisição de bens materiais que, segundo eles, deixam a alma pesada.

“Queremos que as pessoas se concentrem no nascimento do Senhor Buda, na espiritualidade”, disse Piyal Kasthurirathne, religioso budista. “Isso não pode se tornar uma religião do Mickey Mouse”./ Arthur Wamanan contribuiu com a reportagem

Mais conteúdo sobre:
Sri Lanka [Ásia]BudaFesta

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.