Nicole Tung / The New York Times
Nicole Tung / The New York Times

Grafites de Camilo Fidel López no combate às injustiças

Fundador da equipe de artistas grafiteiros Vértigo Graffiti, López enxerga nas telas em branco oportunidades para promoção da justiça social

Perry Garfinkel, The New York Times

29 de novembro de 2019 | 06h00

BOGOTÁ, COLÔMBIA – Camilo Fidel López come, bebe, pensa, dorme e respira grafites. Onde o olhar da pessoa comum vê muros de edifícios vazios e decadentes, López, de 38 anos, fundador  da equipe de artistas grafiteiros Vértigo Graffiti, enxerga nas telas em branco oportunidades para promover da maneira mais colorida possível a causa da justiça social.

López não é grafiteiro, mas desempenha várias funções: diretor de arte, gerente de negócios, promotor, negociador, advogado, empreendedor, produtor de festivais, e até guia de turismo. Além disso, é professor de direito da área do entretenimento e das indústrias culturais na Universidade Jorge Tadeo Lozano, em Bogotá.

Ele recusa atribuir-se um título específico. “O meu negócio é entabular conversações”, afirmou. Atualmente, está à frente de uma revolução da arte de rua que reflete o novo orgulho da Colômbia.

López é filho de pais acadêmicos e socialistas ferrenhos. Instado por eles a procurar educar-se da melhor maneira possível e a transformá-la em uma luta pela justiça social, ele decidiu tornar-se advogado. Depois de formar-se em uma das mais prestigiosas faculdades de direito de Bogotá, López voltou suas aspirações para a Harvard Law School, e ficou arrasado ao ser rejeitado.

No entanto, a rejeição de Harvard inadvertidamente o levou à sua atual ocupação. Ele partiu para Manhattan. “Em Soho, me encontrei diante do cenário de uma vibrante arte do grafite que falava da injustiça social. E inclusive estava sendo vendida nas galerias,” contou. “Foi quando uma luz se acendeu na minha mente. Pensei: Talvez seja possível fazer as duas coisas, provocar uma revolução social e  criar um negócio."

López voltou ao seu país e, em 2009, fundou a Vértigo Graffiti. Embora  na época pintar nos muros públicos fosse proibido por lei, algumas companhias se mostraram interessadas. Após o assassinato de um jovem grafiteiro de 16 anos pela polícia, em 2012, trabalhou com a prefeitura da cidade para descriminalizar os grafites em determinadas áreas. Agora, ele disse, o grafite está mudando a concepção das pessoas em relação ao seu país.

“Antes de me mudar para cá, há três anos, eu tinha a mesma visão equivocada de muitos – a Colômbia era um país de produtores de café bigodudos e de chefões da droga”, destacou Mark Bingle, gerente geral do Four Seasons Casa Medina de Bogotá, para o qual López atualmente organiza as excursões para apreciar os grafites. “Camilo abriu os meus olhos para a nova Colômbia”, continuou Bingle. “Andando pela cidade, a gente percebe que os muros de Bogotá são um museu vivo que respira a história moderna."

Recentemente, López corria atarefado de uma reunião para outra, depois foi para o ateliê da Vértigo Graffiti para ver os trabalhos em andamento. No caminho para mais um encontro, parou no Distrito Graffiti de Bogotá, que a Vértigo Graffiti e mais de 50 artistas do mundo todo pintaram em 2017.

“Esta era uma das áreas mais sujas e mais poluídas de Bogotá”, explicou. “Agora, ela é limpa e atrai turistas e aficionados de todas as partes”. Nos dois últimos anos, López levou a Vértigo Graffiti para excursionar em Ottawa, Miami e Ammã, na Jordânia, entre outros lugares. Em setembro, viajou para a Turquia, onde os artistas pintaram um muro do centro cultural infantil Halis Kurtca, em Kadikoy, um subúrbio de Istambul, para as comemorações do 60º aniversário das relações diplomáticas entre a Colômbia e a Turquia.

López disse que jamais imaginaria, há dez anos, que o grafite, que começou como um protesto contra  os sistemas de todo tipo, agora poderia ser usado para simbolizar vínculos entre dois governos. Mas ele tem ambições ainda maiores para o grafite. “Quero que seja reconhecido como uma das principais artes, como a opera, o balé e o teatro." / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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