Gordon Welters para The New York Times
Gordon Welters para The New York Times

Regente da Filarmônica de Berlim é conhecido por perfil discreto

Russo Kirill Petrenko é adorado por artistas, mas avesso a expor sua imagem

Michael Cooper, The New York Times

12 de setembro de 2019 | 06h00

BERLIM - Há duas coisas que um maestro costuma fazer e que Kirill Petrenko - que acaba de ascender a um dos mais lendários postos da música clássica: o de regente da Filarmônica de Berlim - positivamente não faz. Ele não dá entrevistas. Não socializa com artistas. Quase não grava apresentações. Ele se limita a reger algumas orquestras seletas.

E como ele resiste à era do Instagram, não havia um retrato seu nos cartazes que anunciavam a execução ao ar livre da Nona Sinfonia de Beethoven, no dia 24 de abril no Portão de Brandemburgo, sob a sua regência, que atraiu uma multidão de 20 mil pessoas para a inauguração do seu novo cargo. Em uma coletiva realizada aqui em 2016, quando assinou o seu contrato, explicara afavelmente: “Prefiro me expressar com o meu trabalho no pódio”.

Agora, ao assumir o seu posto - reunindo-se ao panteão que inclui Wilhelm Furtwängler, Herbert von Karajan, Claudio Abbado e Simon Rattle - Petrenko, 47, complica as discussões sobre o papel de um moderno regente. Se à antiga escola dos maestros ameaçadores, distantes, sucederam novas gerações de “anti-maestros” definitivamente acessíveis, que consideravam o contato em todas as suas formas fundamental em seu trabalho, acaso isto fará de Petrenko - concentrado no puro trabalho de fazer música e nos repertórios mais conhecidos - uma espécie de... anti-anti-maestro?

“Ele é uma pessoa de grande fama, mas extremamente tímida”, afirmou Nikolaus Bachler, o diretor geral da Ópera Estadual da Baviera em Munique, que deu a Petrenko o primeiro emprego, há mais de vinte anos, na Vienna Volksoper. Quando a Ópera Estadual, onde Petrenko encerra um aclamado período como diretor musical, precisou de um retrato dele, teve de usar uma instalação de vídeo que mostrava apenas suas mãos, regendo Götterdämmerung (O crepúsculo dos deuses), de Wagner.

Nos bastidores, os músicos adoram trabalhar com ele - a grande estrela, o tenor Jonas Kaufmann, disse que não há ninguém que transmita mais confiança do que ele - mas poucos o conhecem bem. “Uma vez, o obriguei a tomar uma cerveja comigo”, disse Kaufmann. “Ele veio, pediu uma cerveja pequena, e então falou. Ele tinha talvez dez minutos para conversar, mas não tocou na cerveja. Depois, pegou o copo e bebeu de uma vez” - Kaufmann fez o gesto - “e disse: ‘Muito bem, tenha uma boa noite’”.

Petrenko nasceu em Omsk, na Sibéria. Seu pai era o regente da orquestra local, e sua mãe uma dramaturga. Quando tinha cerca de quatro anos, lembrou em 2010, seus pais o levaram para o trabalho, e ele viu pela primeira vez um regente. “Para os meus olhos e ouvidos, ele era alguém capaz de criar os mais lindos sons que eu jamais ouvira”, disse Petrenko. “Então me dei conta: ‘Se eu quiser ser alguma coisa, quero ser este homem’ ”.

A sua nomeação para Berlim foi quase uma surpresa - e não apenas para Petrenko. Mas está se adaptando. Já permitiu que os integrantes da orquestra tocassem na primeira gravação dele da Sexta Sinfonia de Tchaikovsky, adotou a Digital Concert Hall da orquestra, e até concordou em dar algumas entrevistas aos seus músicos.

Agora, a orquestra tenta transformar a mística de Petrenko, e o fato de que ele é ainda pouco conhecido fora da Alemanha, em um ponto de venda. Sua campanha de apresentação usa a hashtag #PetrenkoLive, para encorajar as pessoas a conhecerem a sua considerável energia, e espera  que a escassez do seu catálogo de gravações atraia os curiosos para a Digital Concert Hall para ouvi-lo. Melissa Eddy contribuiu para a reportagem. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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