Erika Gerdemark / The New York Times
Erika Gerdemark / The New York Times

Filha de refugiados, rapper canta contra o populismo na Suécia

Silvana Imam, de 32 anos denuncia, em suas canções, o racismo, a misoginia e a homofobia que pairam sobre o país

Thomas Rogers, The New York Times

01 de maio de 2019 | 06h00

ESTOCOLMO - Em uma recente noite de sexta feira, a rapper sueca Silvana Imam subiu no palco da casa de shows Annexet, em Estocolmo, vestida como uma vilã de histórias em quadrinhos. Escondendo o rosto com uma máscara repleta de espetos, ela arrastava um taco de beisebol pelo palco em meio a gritos do público, formado principalmente por mulheres.

A apresentação era a versão encarnada do papel confrontador desempenhado por Silvana, uma lésbica filha de refugiados, no cenário da música pop sueca. A artista, de pai sírio e mãe lituana, é um símbolo da contra-reação à ascensão do populismo de direita no país mais populoso da Escandinávia.

Ao tirar a máscara, Silvana, de 32 anos, começou a cantar "I Min Zon", canção abatida de seu primeiro EP, na qual critica o racismo e sexismo em seu país. “Há quinze milhões de pessoas no mundo chamadas Mohamed", canta ela em sueco, “mas qual é o nome que eles querem ver no currículo?”.

Em meio à plateia, o iluminador Mattias Naxe, de 30 anos, disse sentir-se atraído pela música dela, mas acrescentou que seu sucesso é também um reflexo do clima político polarizado da Suécia. Nas eleições nacionais realizadas no segundo semestre do ano passado, o partido populista de direita Democratas da Suécia (SD) obteve 18% dos votos, tornando-se o terceiro maior do país. Naxe disse que Silvana “representa muito” o momento atual da Suécia.

O primeiro sucesso de Silvana, IMAM, lançado em 2014, no qual ela se descreve como “uma versão de um metro e oitenta do Pussy Riot", alcançou a primeira posição nas paradas de sucesso suecas. Seu álbum mais recente, Helig Moder, foi muito elogiado. Ela disse que o álbum foi uma tentativa de aceitar “a super-heroína que todos querem que eu seja, ou aquela que me tornei na Escandinávia, aos olhos de muita gente".

Embora a Suécia seja frequentemente vista internacionalmente como um paraíso liberal, muitas das canções dela denunciam o racismo, a misoginia e a homofobia que, de acordo com ela, permeiam a sociedade local. Em 2013, o líder dos Democratas da Suécia, Jimmie Akesson, republicou no Twitter uma foto de Silvana cantando em uma manifestação e usando um casaco em que se viam as letras “SD” cortadas por uma faixa vermelha. A canção dela incluía o verso "mandem os porcos para o abatedouro", referindo-se a membros do partido. Posteriormente, ela recebeu ameaças de morte de partidários.

A apresentadora de rádio e produtora Ametist Azordegan descreveu Silvana como “uma das melhores” letristas, argumentando que ela “criou um espaço para mulheres jovens e gays que não existia na mídia da Suécia". O documentário Silvana mostrou seu relacionamento com Beatrice Eli, cantora pop sueca. Para Silvana, elas são o primeiro casal lésbico de destaque no país, consideradas “jovens e estilosas". Após uma pausa, ela acrescentou, “e lindíssimas".“Silvana é um símbolo para a nova garota sueca", disse Leonora Haag, de20 anos, presente no Annexet. “Os suecos são uma coletividade bastante homogênea, poucos se destacam. O mais incrível a respeito dela é que simplesmente não se importa com isso”. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

Tudo o que sabemos sobre:
Suécia [Europa]rapracismohomofobia

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.