Por que a sua filha é tão linguaruda
Jessica Grose / The New York Times - Life/Style, O Estado de S.Paulo

11 de junho de 2021 | 05h00

Minha filha mais velha é obcecada pela verdade. Falando com ela às vezes tenho a sensação de estar sendo questionada pela menor e mais sagaz advogada do mundo. Certa vez, descrevi algo como “esnobe” e ela ouviu, então me atacou com uma saraivada de perguntas. “O que é esnobe? O que você quer dizer com isto? Por que você disse isso se não sabe o que significa realmente?” Até que ela me venceu e eu disse a ela (porque algo era muito caro e eu estava emitindo um juízo e sendo um pouco rude).

Como ela tem oito anos, a desvantagem do seu desejo de precisão é que ela não entende exatamente o que é intenção. Frequentemente, ela acusa os meteorologistas de “mentirem” porque o seu boletim do tempo não é preciso, e eu explico gentilmente que eles não estão mentindo, só estão errados. Ela também adora impor a sua definição de “verdade” à irmãzinha, informando-me e a seu pai imediatamente quando a irmã não atende às suas desmedidas expectativas.

Outros pais de crianças de 7, 8 anos me falaram a respeito de experiências semelhantes (“Por que minha filha é tão linguaruda?” perguntou uma mãe), então falei com três psicólogos para descobrir o que acontecia, em termos de desenvolvimento, com estas crianças deste grupo etário.

Ocorre que as crianças que mal chegaram à idade escolar estão em uma fase de desenvolvimento cognitivo chamado estágio operacional concreto, e, ao mesmo tempo, embarcando em uma viagem de raciocínio moral que continuará para o resto de sua vida.

O psicólogo pioneiro Jean Piaget observou que as crianças da faixa dos 7 aos 11 anos conseguem aplicar a lógica a situações concretas, ou da vida real, mas encontram dificuldade para aplicar o seu conhecimento a situações hipotéticas.“Tudo é muito preto no branco, e elas podem ter dificuldade para distinguir o que é uma situação em que a pessoa infringe uma regra menor, e o que é infringir a regra em uma situação grave”, disse Sally Beville Hunter, professora assistente na clínica de estudos da criança e da família na Universidade de Tennessee, Knoxville.

Juntamente com o desenvolvimento cognitivo, as crianças estão trabalhando no desenvolvimento da sua bússola moral. Baseado em ideias de Piaget, um psicólogo chamado Lawrence Kohlberg observou três níveis de desenvolvimento moral: pré-convencional, convencional e pós-convencional. Elas sabem o que é certo e o que é errado, mas são motivadas a fazer o “certo” porque temem a punição ou pelo desejo de recompensa, disse Hunter.

As crianças do ensino fundamental estão trabalhando no desenvolvimento convencional, que envolve o aprendizado das normas sociais e das emoções por trás destas normas. “As crianças pequenas adquirem normas, mas depois as generalizam exageradamente -  elas aplicam estas normas a tudo,” explicou Tina Malti, professora de Psicologia da Universidade de Toronto, Mississauga, e diretora do Laboratório de Desenvolvimento e Intervenção Sócio-Emocional.

Malti descreve os passos seguintes do desenvolvimento moral como um “processo que dura a vida toda” de desenvolvimento da empatia e de avaliação da intenção em situações complexas, conhecido como pensamento moral pós convencional. Mesmo quando adultos, ela disse, nós lidamos com dilemas éticos, em que fazer alguma coisa para ajudar uma pessoa pode ferir outra, e não existe uma resposta correta clara.

Portanto, como esclarecemos nossos filhos quando eles continuam chamando o homem da previsão do tempo de mentiroso? Aqui vão algumas dicas.

Converse a respeito

Se o seu filho está tentando aplicar uma norma a situações em que a leniência seria mais apropriada, analisem a coisa juntos. Por exemplo, quando minha filha mais velha está sendo rigorosa demais com irmã por não seguir as regras da família e comer com o garfo, nós a lembramos de que crianças de 4 anos ainda estão aprendendo, e é nossa tarefa lembrá-la carinhosamente. “Idades de 6 a 9 anos constituem uma grande janela de oportunidade para aprender a respeito das necessidades e desejos dos outros”, disse Malti.

“Às vezes, estes pais se sentem incapazes de fazer frente às preocupações dos filhos sobre a aplicação das normas ou com que cada um faça a coisa ‘certa’ o tempo todo”, disse Stephanie F. Thompson, cientista pesquisadora do Centro para o Bem-estar da Criança e da Família da Universidade de Washington. Ela disse que se você tem um filho como este, é importante conversar por meio de exemplos quando está adequando suas próprias regras baseado em circunstâncias extenuantes, ou protegendo os sentimentos de alguém. Minha filha preza a sinceridade a ponto de ainda estarmos discutindo sobre o que é certo manter para você mesmo se acha a camisa da mamãe horrível.

Lembre do hiato

Ao mesmo tempo, principalmente com irmãos, sempre tenha em mente que você não pode se mostrar mais dura com um filho do que com outro, e que as suas regras estão sendo aplicadas com justiça. Se um filho está afirmando que eles acham que suas regras não estão sendo aplicadas aos irmãos, ouça o que eles têm a dizer. “Periodicamente, examine se você tem de fato normas mais duras para o seu filho mais velho”, ela sugeriu.

Encenação

Se as crianças estão tendo problema para distinguir entre grandes e pequenas transgressões, tente representá-las com eles. Hunter dá o exemplo de um problema na casa de uma amiga: Se um colega quebrou o giz, você pode dizer a seu filho que é algo que ele pode resolver por conta própria, sem correr para um adulto em busca de ajuda. Se aquele amigo está pondo fogo nas coisas, esta é uma situação em que ele definitivamente quer contar a um adulto.

Nos momentos em que os filhos correm para contar a você cada pequeno problema, Thompson recomenda que você lembre a eles que provavelmente não gostariam se os seus amigos dissessem para eles o que fazer, falando algo como: “Pode ser arriscado  monitorar os outros em tempo integral se o seu objetivo é fazer e manter amigos“.

Isto também deverá passar. A maioria das crianças supera esta fase se teve um desenvolvimento mais cognitivo e experiência da vida. Hunter, cujos filhos já superaram a fase moralista, confessou: “Agora sinto falta disto”.

Eu vejo também o lado positivo do ultraje moral da minha filha. Ela está aprendendo a diferença entre nevoeiro e poluição na escola e já está me amolando para comprar uma composteira. Espero que ela guarde parte dessa certeza moral quando aprender a perceber as nuances do meio-termo. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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