Informação para você ler, ouvir, assistir, dialogar e compartilhar!
Estadão Digital
Apenas R$99,90/ano
APENAS R$99,90/ANO APROVEITE
Lauren Lancaster para The New York Times
Lauren Lancaster para The New York Times

E quando os filhos não querem manter o negócio da família?

Em fazendas americanas de família, cujos administradores envelhecem cada vez mais, a geração mais jovem opta por carreiras diferentes

Alan Mattingly, The New York Times

26 de janeiro de 2020 | 06h00

Há um ideal romântico no conceito de negócio de família: um empreendimento que sustenta a todos, construído com amor e dedicação, herdado de pais para filhos por gerações. “Com frequência, uma empresa mantém a família unida, dando aos parentes uma identidade compartilhada e conferindo aos descendentes um status estabelecido na comunidade pelas gerações anteriores", escreveu Paul Sullivan, do Times.

Mas a realidade por trás do ideal pode ser mais complexa, especialmente para as empresas menores, os estabelecimentos mantidos por casais que dependem dos filhos para compartilhar a pesada carga de trabalho, e para assumir o comando quando o dia chegar. O que acontece quando esses filhos recusam essa herança? Este é frequentemente o caso das fazendas americanas de família, cujos administradores envelhecem cada vez mais enquanto a geração mais jovem opta por carreiras diferentes. Essa situação costuma deixar pessoas como Frank e Sherry Hull sem muita escolha.

O casal administra uma propriedade de 260 acres ao norte de Nova York que já está na família Hull há 240 anos. Os quatro filhos cresceram trabalhando na fazenda, mas nenhum deles quer assumir o controle da operação. Um morreu em um acidente de carro, dois se mudaram para seguir carreiras diferentes, e o quarto não tem interesse em ficar com a fazenda para si.

Frank, de 71 anos, e Sherry, de 67 anos, não conseguem mais arcar com tanto trabalho. Assim, se não for possível encontrar outra solução, eles terão de vender a propriedade, uma decisão dolorosa. “Se Frank para de trabalhar, fica com a sensação de estar decepcionando os parentes, como se a continuidade da família fosse rompida", disse Sherry ao Times. “Sei que isso não faz sentido, pois essas pessoas já morreram, mas temos a sensação de haver o compromisso de levar adiante aquilo que cada uma delas fez com sucesso no passado.”

David Haight, do American Farmland Trust, disse que muitas famílias de agricultores “estão na mesma situação que os Hulls, ou se aproximando muito disso. Possuem terras mas não têm dinheiro, e estão dizendo, ‘O que fazer com esse negócio de família que criamos?’” A cerca de 60 quilômetros da fazenda dos Hulls, Tom e Faye Lee Sit também envelhecem no negócio de família deles, o restaurante chinês Eng’s, onde Sit já trabalhava há mais de 40 anos, antes de comprar o estabelecimento. 

Como os Hulls, eles não sabem o que vai acontecer com o resultado de uma vida de trabalho. Como ocorre com os filhos dos Hulls, as filhas dos Sits não pensam em assumir o negócio. Mas, para o casal, tudo bem. “Esperava que elas tivessem uma vida melhor que a minha", disse Sit, de 76 anos, a respeito das filhas, profissionais formadas na universidade. “Uma vida boa. E é isso que elas têm.”

É uma situação comum entre os imigrantes que administram restaurantes chineses em todo o território americano, conforme os filhos buscam ocupações menos exigentes. Nas 20 principais áreas metropolitanas dos EUA, o número de restaurantes chineses diminuiu em 1,2 mil nos cinco anos mais recentes.

“O fato de esses restaurantes estarem fechando é um sucesso", disse Jennifer Lee, autora de um livro a respeito dos restaurantes chineses, The Fortune Cookie Chronicles. "São pessoas que aprenderam a cozinhar para que seus filhos não tivessem que seguir esse rumo, e agora esses filhos têm outras profissões.”

Em busca de trabalho e liberdade, Sit trocou a China por Hong Kong em 1968 e imigrou para os EUA em 1974. Ele e outros imigrantes encontraram oportunidade trabalhando na cozinha. “Eles não sonhavam alto", disse Jennifer. “Não vieram pensando em ser chefs; vieram como imigrantes, e a cozinha era seu sustento.” / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

Tudo o que sabemos sobre:
empreendedorismo

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.