Suzie Howell para The New York Times
Suzie Howell para The New York Times

Filme conta história de filho de imigrantes 'salvo' por Bruce Springsteen

Dirigido por Gurinder Chadha, obra foi ovacionada pelo público no festival Sundance

Sarah Lyall, The New York Times

22 de agosto de 2019 | 06h00

LONDRES - Ser adolescente no bairro suburbano pouco inspirador de Luton, em Londres, nos anos 1980, já era bem difícil sem pais paquistaneses que funcionavam como um esquadrão antidiversão. Mas Sarfraz Manzoor encontrou a salvação quando ele tinha 16 anos. Em 1987, as rádios tocavam Debbie Gibson, Duran Duran e os Pet Shop Boys. Mas não ajudavam muito Manzoor. Um dia, ele pegou emprestado de um colega de classe uma fita cassette de Bruce Springsteen.

“Pensei: ‘Não é ele o cara que ganha milhões fingindo que é da classe operária?’”contou Manzoor. A primeira música que tocou foi The River. Ele nunca tinha ouvido algo parecido. “Não era uma música de escapismo, mas de confronto - o confronto é normal para um adolescente em uma cidade problemática, é normal brigar com os pais”, disse. “Comecei a pedir emprestados os álbuns e copiando as letras para estudá-las. Voltava da escola e ia para o meu quarto, punha Born to Run, Darkness on the Edge of Town e tocava a noite toda”.

Como um músico de Nova Jersey, que usava uma bandana na testa, conseguiu ajudar um menino paquistanês na Inglaterra falando dos próprios problemas - a inquietação, a alienação, o peso das expectativas dos pais, a pobreza - foi o tema do livro de memórias de Manzoor publicado em 2007, Greetings From Bury Park: Race, Religion and Rock’n’ Roll. É também o tema do filme Blinded by the Light, que será lançado mundialmente daqui a dois meses.

Dirigido por Gurinder Chadha, o filme tem a mesma vibração, uma boa sensação, um ambiente multicultural, triunfando sobre a adversidade semelhante à do seu filme mais conhecido, Bend It Like Beckham. A película foi ovacionada pelo público no festival Sundance.

Manzoor hoje tem 48 anos, é jornalista e pai de dois filhos com sua esposa escocesa, Bridget. É estranho, ele disse, ver a própria vida na tela, mesmo que a fictícia seja diferente da real. O filme omite o seu irmão mais velho, apresenta a mãe falando fluentemente inglês e mostra Manzoor brigando com o pai; nada disso é real. Mas a maior parte da história corresponde à realidade, afirmou, “é emocionalmente autobiográfica”, assim como as músicas de Springsteen.

A letra de Dancing in the Dark, a canção com a qual Springsteen conquistou novos fãs  em meados da década de 1980 com uma melodia cativante, brota da tela, algo tão íntimo para Javed, o adolescente interpretado por Viveik Kalras, quanto a poesia secreta do menino.“As pessoas que ouvem Dancing in the Dark pensam: ‘Que música impressionante!’”, diz Chada. Mas quando ouvem a letra, é uma canção que fala de alienação, de uma criança que acha que não se enquadra no lugar onde vive, odiando-se e querendo ir embora, porque pode sentir que há algo melhor acontecendo em outro lugar”.

Hoje, na Grã-Bretanha, cresce o nacionalismo que dá as constas à imigração, como em 1987, enquanto nos Estados Unidos as relações de raça estão piorando. Blinded by the Light proporciona um vislumbre dos valores americanos - tolerância, inclusão, otimismo - que às vezes parecem relíquias de outros tempos. “Quando eu tinha 16 anos, olhava realmente para a América como a terra prometida. E pensava: ‘Se as coisas ficarem feias por aqui, vou para lá’ ”.

Em uma cena da vida real, os funcionários da imigração dos Estados Unidos questionam Javed à sua chegada a Nova Jersey onde pretende visitar a cidade natal de Springsteen. Sua resposta mostra que o amor de Springsteen transcende as diferenças de raça, idade e nacionalidade. Manzoor conta que recentemente um casal de Nova Jersey se aproximou dele depois de uma exibição de Blinded by the Light. “Eles falaram: ‘Você é uma versão paquistanesa da gente’ ”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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