Rozette Rago / The New York Times
Rozette Rago / The New York Times

Filme latino de super-heróis chega às telas

Para investidores, 'El Chicano' é um risco porque elenco não traz personagem branco; indústria cinematográfica ainda resiste à diversidade

Cara Buckley, The New York Times

16 de maio de 2019 | 06h00

Quando os cineastas Joe Carnahan e Ben Hernandez Bray começaram a apresentar seu roteiro de um novo filme de super-heróis, no início de 2017, eles disseram que os presidentes dos estúdios e produtores elogiaram muito o projeto. O filme, El Chicano, contava a história da origem de um herói diferente: um policial americano de origem mexicana que perde um irmão, em meio à violência entre gangues, e adota o manto de um vingador mascarado para enfrentar um cartel.

Mas todos os personagens principais eram latinos. Para os investidores em potencial, isso fazia do filme um risco. “Acho que eles não conseguiram lidar com a ideia de um elenco totalmente latino", disse Carnahan, cujos filmes incluem Narc e The A-Team. Um executivo disse a ele que seria necessário encontrar uma “influência caucasiana” no filme. Talvez o personagem veterano da polícia fosse branco, ou quem sabe o parceiro do herói no esquadrão de polícia?

Mas, para Bray, americano de origem mexicana, o elenco inteiramente latino não estava aberto a debate. “Eu repetia a eles: ‘Enquanto cineasta e contador de histórias, é a isso que fui exposto durante toda a minha vida’”, afirmou. “Não havia caucasianos vivendo no meu bairro. Nem mesmo na polícia.”

Fontes de Hollywood disseram que a resistência continua comum na indústria do cinema. Darnell Hunt, um dos autores do Relatório da Diversidade em Hollywood, publicado anualmente, disse ter recebido numerosas queixas de cineastas cujos projetos foram descartados porque eles se recusaram a fazer concessões em relação à presença de brancos no elenco, ou cujos filmes foram rodados apenas porque eles aceitaram inserir personagens brancos.

“Há um antigo truísmo segundo o qual um filme de sucesso estrelado principalmente por um elenco étnico acaba incluindo um personagem branco por pressão dos produtores, para garantir o acesso ao público branco", destacou Hunt. Depois de meses ouvindo negativas, Carnahan encontrou interessados: investidores canadenses do setor do petróleo e do gás interessados em diversificar suas atividades no cinema. O filme foi produzido, principalmente, em Calgary por cerca de US$ 7 milhões, com distribuição pela Briarcliff Entertainment.

“É uma excelente história, cheia de integridade e autenticidade, representando uma comunidades sub-representada, para usar um eufemismo", disse Tom Ortenberg, diretor da Briarcliff. Para Bray, o elenco tinha de ser composto exclusivamente por atores latinos porque a história é muito pessoal; parte exorcismo, parte eulogia e parte fantasia de vingança.

Ele cresceu em meio a um bolsão de criminalidade no Vale de San Fernando, noroeste de Los Angeles, o mais velho de seis filhos criados por uma mãe solteira que afugentava os traficantes de drogas do bairro. Bray teve uma carreira de sucesso como dublê em Hollywood - participou de filmes como Homem de Ferro e Jornada nas Estelas - e depois como diretor de televisão. Mas o irmão mais novo, Craig, envolveu-se com as gangues e acabou morto.

Para lidar com o luto, Bray começou a trabalhar em um livro de memórias a respeito do irmão. O projeto acabou se transformando em um roteiro a respeito de um policial que, enfrentando um cartel após o aparente suicídio do irmão, adota o alter ego de El Chicano, também conhecido como “ceifador do gueto".

O roteiro ainda não estava pronto quando, alguns anos atrás, a filha de Bray morreu durante o parto. Por insistência de Carnahan, e como forma de suportar a dor, Bray resolveu concluir El Chicano, vivendo por um mês no apartamento de um amigo em Nova York - com a bênção da mulher, disse. Ele e Carnahan passaram então quatro semanas finalizando o manuscrito na casa de Carnahan. “Nos abraçamos, choramos, bebemos tequila", disse Bray.

Carnahan pensou que o filme seria um grande sucesso e ficou pasmo quando os produtores de Hollywood demonstraram pouco interesse. “Todos concordavam que o roteiro era ótimo, mas ninguém queria filmá-lo". Para Bray, a falta de interesse foi menos surpreendente. Além de Coco, o sucesso de animação da Pixar lançado em 2017, foram poucos os filmes estrelados por latinos em língua inglesa, e muito menos ainda os sucessos nas décadas mais recentes, privando os investidores de critérios para avaliar as perspectivas de sucesso do filme. “As pessoas têm medo", concluiu Bray. “Se a conta não fechar, elas preferem apostar em algo mais garantido. Se tiverem a sorte de conseguir um sucesso com filmes estrelados por não-brancos, ótimo. Mas não é algo que os estúdios pensem em tentar.” / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

 

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