Caroline Tompkins para The New York Times
Caroline Tompkins para The New York Times

Filme narra a breve carreira de uma pioneira do rap

Após três décadas do único sucesso de Roxanne Shante, o filme 'Roxanne, Roxanne' retrata a trajetória repleta de altos e baixos da rapper

Bruce Fretts, The New York Times

12 Abril 2018 | 10h00

Roxanne Shante estava trabalhando como D.J. em uma festa em 2016 quando percebeu que duas mulheres acenavam para ela.

“Pensei, devo estar arrasando”, disse Roxanne. Na verdade, as mulheres estavam procurando por ela: queriam produzir um filme baseado em sua vida como uma pioneira do hip-hop pouco conhecida. “Eu achei aquilo curioso, e que havia bebido algo muito forte”, lembrou.

Você não pode culpar Roxanne por seu ceticismo. Como dramatizado em “Roxanne, Roxanne”- uma cinebiografia que estreou nos cinemas e na Netflix no mês passado - ela sofreu traições esmagadoras depois daquela primeira explosão de sucesso.

Em 1984, motivada por “Roxanne, Roxanne”, da banda UTFO, sobre uma mulher que havia rejeitado as súplicas românticas desse trio, Roxanne, então com 14 anos e vivendo em um conjunto habitacional em Nova York, mudou seu nome de Lolita para Roxanne e lançou uma canção-resposta com letras como "Se ele trabalhou para mim, você sabe que ele seria demitido" e "Ele não é realmente bonito, e ele não é ótimo / Ele nem sabe como operar." "Roxanne's Revenge", tornou-se um hit para Roxanne e levou a dezenas de singles de outros artistas supostamente contando a verdadeira história de Roxanne.

“Nos dias anteriores à internet, isso seria um meme”, disse Alan Light, ex-editor-chefe da revista Vibe e colaborador de The New York Times. "Teve um impulso louco".

Como o filme retrata, no entanto, Roxanne foi maltratada por gerentes e outros homens da indústria da música e se mostrou incapaz de lançar um álbum por cinco anos, o que lhe causando um severo golpe na carreira. Mas ela emergiu mais forte e mais sábia dessas experiências.

"Todo mundo passa por um sofrimento, e tudo bem chorar e desmoronar, mas você só precisa se recompor”, disse Roxanne, hoje com 48 anos. "Eu passei por isso e estou bem".

Agora, graças a "Roxanne, Roxanne", ela pode finalmente ser reconhecida como a figura revolucionária que é. "Ela foi realmente a primeira rapper mulher solo", disse Light. “Ela mostrou que isso poderia ser feito e ilustrou possibilidades que nunca haviam existido antes. Esse é um legado duradouro”.

Mahershala Ali, vencedor do Oscar pelo filme “Moonlight”, que faz o papel de gerente e namorado abusivo e muito mais velho de Roxanne, concordou que sua contribuição para o hip-hop não é um exagero. "Eu não sei se as pessoas estão realmente cientes de que portas ela abriu para as mulheres no rap - de Foxy Brown e Lil 'Kim para Nicki Minaj e Cardi B", disse ele.

A cinebiografia, escrita e dirigida por Michael Larnell, foi bem recebida quando exibida no Sundance Film Festival no ano passado. A revista Variety disse que a obra era "um drama vívido e excepcionalmente honesto sobre a dor e a bravata que eram o combustível do hip-hop", e a revista The Hollywood Reporter destacou Chanté Adams, em sua estreia na tela como rapper, dizendo que ela tinha "ótimo alcance e presença de tela incandescente”.

Nina Yang Bongiovi e Mimi Valdés, as mulheres da festa em 2016, estão entre as produtoras de “Roxanne, Roxanne”. O filme chega em meio a sinais de uma mudança cultural que permitiu que mais histórias sobre mulheres negras fossem contadas em vários gêneros: comédia (“Viagem das garotas”), fantasia (“Uma dobra no tempo”), filmes de super-heróis (“Pantera Negra”).

Para Roxanne, o filme parece uma esperada vitória agridoce. “A história de Roxanne Shante não é fácil, mas eu sempre estive disposta a compartilhar minha vida - quanto mais você dá, mais você ganha”, ela disse, acrescentando que desta vez, “era realmente capaz de sentar e dizer: 'Uau, algo bom saiu de tudo isso'”.

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