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Em 'The Old Guard', Charlize Theron volta a se destacar em filme de ação

Suas cenas de luta têm o peso e a emoção de uma sequência de dança de Gene Kelly

Jason Bailey, The New York Times - Life/Style

12 de agosto de 2020 | 05h00

“Tem certeza de que quer fazer isto, garota?” A maneira como Andy (Charlize Theron) faz a pergunta a Nile (Kiki Layne), em uma cena de luta em The Old Guard, da Netflix, é fundamental para compreender a personagem – e todas as heroínas da ação que Charlize interpretou ultimamente. Ela não considera a sua pergunta como um desafio ou uma audácia: apenas quer ter a certeza de que a mulher mais jovem compreende onde está se metendo. Esta nunca será uma velha briga. Ela está prestes a aprender uma lição.

As duas mulheres se enfrentam em um pequeno avião de carga, e como todo bom lutador, Andy aproveita o espaço reduzido para jogar a adversária contra as paredes e a carga para atacá-la e cansá-la. Os olhos de Andy se iluminam às vezes, quando a adversária a surpreende – um jab inesperado, um chute certeiro – mas estes são momentos fugazes, e quando Andy diz: “Acabou”, ela quer dizer isto mesmo.

Nile na realidade nunca teve qualquer chance contra ela. Não se trata apenas de Charlize colocar os seus socos com força e precisão ou executar com sucesso suas fintas; não se trata somente do fato de uma estrela de ação competente acertar seus alvos. Observar Charlize Theron lutar tornou-se um dos prazeres do cinema americano contemporâneo, tão perto do jato de endorfina que sentíamos ao ver Gene Kelly dançar, ou Judy Garland cantar, ou a pantomima de Charlie Chaplin.

O seu trabalho nestes filmes de ação parece uma recente aquisição na sua carreira versátil, mas Charlize briga desde a sua estreia na telona em 2 Days in the Valley, um pugilato de terceira no estilo de Pulp Fiction, de 1996. É um filme que parece feito primeiramente sob medida para olharmos para ela – a atriz passa todo o tempo vestida com um terno branco colado na pele ou fora dele – e sua grande cena de ação é uma briga de mulheres mal coreografada só para impressionar, com sua co-estrela, Teri Hatcher.

Mas Charlize se destaca mais, colocando um perigo feroz, inconfundível, no encontro em que os móveis serão duramente castigados. O único momento em que ela não convence é quando precisa lutar com Hatcher, na época uma estrela de maior brilho. A estreia de Charlize como estrela de filmes de ação ocorreu em 2005, com Aeon Flux.

Embora tenha sido um fracasso comercial e de crítica, foi uma amostra dos ingredientes brutos que posteriormente ela refinaria: seu comportamento resoluto, os movimentos de felino e uma presença física que se impõe. Mas estes filmes prejudicam os dons de Charlize, cortando suas acrobacias no estilo específico influenciado por Michael Bay da época. Por isso, o espectador tem raramente a sensação clara do que ela consegue fazer. E ela passa inexplicavelmente para o segundo plano no clímax do seu filme, destino que se repete na película de ação seguinte, o infeliz Hancock, de 2008.

O avanço se dá sete anos mais tarde, com o merecidamente celebrado Mad Max: Estrada da Fúria, de George Miller. Embora ela passe a maior parte do filme dirigindo e atirando, tem também uma memorável sequência de luta com o personagem do título, abordando-o com a raiva em seu olhar de aço e desarmando-o com facilidade – literalmente sozinha. Mas o "esboço" das lutas de Charlize Theron nas telas é Atomic Blonde, de 2017.

O diretor David Leitch foi um dos criadores da franquia John Wick, e Blonde tenta ser para Charlize o que Wick foi para o seu companheiro de cena pela segunda vez, Keanu Reeves. Como Wick, a agente do M16 interpretado por Charlize, Lorraine Broughton, ela sempre decide de maneira rápida e brilhante, transformando criativamente o que tiver à mão em armas mortais improvisadas: um salto agulha, um saca-rolhas, uma escada, uma prateleira e um cinto de automóvel que estrategicamente não estava enganchado.

Na melhor sequência de ação do filme, sua visita a um apartamento abandonado onde vai investigar é interrompida por uma equipe de policiais, que ela evidentemente despacha com uma mangueira, uma panela e a porta de uma geladeira. O seco profissionalismo destes personagens se coaduna com a abordagem de Charlize como atriz.

Ela olha os intensos desafios físicos destes papéis diretamente nos olhos, sem piscar. Atores masculinos mais velhos deram vida às suas carreiras com papéis de ação durante anos – como Liam Neeson, Denzel Washington ou o Bond de sua escolha – mas essa cortesia raramente é estendida às suas companheiras de cena, que em geral recebem na segunda parte de suas carreira, o seu período médio, o papel de esposas atenciosas e arquétipos barulhentos. Charlize não tem nada disso; ela até criou para si mesma algumas destas oportunidades (ela coproduziu Atomic Blonde e The Old Guard).

Ganhadora do Oscar, ela se submete claramente a uma preparação para estes papéis com a mesma seriedade com que se entrega e pesquisa para uma guinada dramática, comum, como mostra a sua atuação; comparemos, por exemplo, suas lutas com o tipo de hiper-edição necessário para fazer com que alguém como Neeson pareça ágil e convincente. O mais importante é que ela nunca se limita a interpretar a ação.

A força física e a bravata dos seus personagens são irresistíveis, mas Charlize também sabe como aproveitar seus raros momentos pessoais e extrair todo o possível deles. A vulnerabilidade de Lorraine Broughton é um tema recorrente em Atomic Blonde; ela é vista inicialmente cuidando do seu corpo massacrado com um banho em cubos de gelo, curativos, comprimidos e vodka e, ao longo de todo o filme, ela aparece ensanguentada e regularmente espancada.

O dano não é apenas físico. Na cena final, depois de deixar mais um banho de sangue atrás de si, observa a própria imagem em um elevador com paredes de espelhos com um olhar mais próximo do desgaste total do que do triunfo. Esse olhar assombrado retorna no novo filme da Netflix The Old Guard, e nós temos a sensação de que o seu personagem também mata porque é boa nisto e não porque ela gosta.

Estes toques improvisados, estas nuances acrescidas ressaltam (como se houvesse necessidade) a legitimidade da luta de Charlize; ela nunca aparece como uma respeitável atriz dramática se rebaixando por um cheque. Isso é pura interpretação cinematográfica, enraizada no desafio de interpretar um personagem que expressa a si mesmo não por meio de palavras, mas da ação – uma ação gloriosa, graciosa, com movimentos de balé. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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