Osman Orsal / Reuters
Osman Orsal / Reuters

Dois novos filmes transmitem uma mensagem clara: 'Não esqueçam de Jamal Khashoggi'

Kingdom of Silence e The Dissident revisitam o assassinato do jornalista saudita Jamal Khashoggi, ocorrido na Turquia em 2018

Sara Aridi, The New York Times - Life/Style

14 de outubro de 2020 | 05h00

No dia 2 de outubro de 2018, o jornalista saudita Jamal Khashoggi, crítico destemido do príncipe herdeiro Mohammed bin Salman, foi assassinado, e seu corpo esquartejado no consulado saudita na Turquia. Depois de uma manobra de acobertamento, em um processo secreto, a Arábia Saudita emitiu vereditos que absolveram o príncipe Mohammed de todo crime. No entanto, a Agência Central de Inteligência (CIA) e outros investigadores concluíram que ele provavelmente foi o mandante da morte do jornalista.

Dois anos mais tarde, dois novos documentários nos lembram de que os promotores turcos – e os mais próximos de Khashoggi – ainda aguardam justiça, na esperança de que ele não desapareça da memória. Ambos os filmes cobrem o caso, ocorrido nas altas esferas do poder, em que um súdito que se opôs ao governo saudita abertamente criou problemas graves aos realizadores, durante e depois das filmagens.

Kingdom of Silence, um documentário da ShowTime, dirigido por Rick Rowley (16 Shots), estreou na sexta-feira, no segundo aniversário da morte de Khashoggi. (Por uma rara concessão, a Showtime está permitindo que não-assinantes vejam gratuitamente na plataforma e no YouTube).

O filme acompanha a carreira de Khashoggi desde o início, como jornalista muito competente no Afeganistão para a sua época, como porta-voz de um político saudita de alto nível até os últimos anos de sua vida, como colunista do jornal Washington Post autoexilado.

Sua história é narrada no contexto das relações americano-sauditas, por meio de comentários de funcionários da inteligência, ativistas e jornalistas, entre eles o escritor Lawrence Wright do New Yorker (que é um produtor executivo) e Ali Soufan, ex-agente do FBI e amigo de Khashoggi.

“A primeira virtude do filme”, escreveu Ben Kenigsberg em sua crítica para The New York Times, “está em apresentar muitos amigos e colegas de Khashoggi que iluminam os seus ideais, aventuras e relações pessoais”. O próprio Khashoggi está também presente em documentários de arquivo e em trechos escritos. Inicialmente, Rowley se propôs elaborar um crime misterioso. Mas à medida que foi aprofundando a sua pesquisa, desistiu de investigar quem estaria por trás do crime – “Não se trata disso”, afirmou – mas do motivo pelo qual isto aconteceu.

“Quem foi este homem pelo qual o reino arriscaria tanto silenciando-o?”, ele lembrou na hora. A sua foi uma existência repleta de contradições. Por exemplo, um dos amigos de Khashoggi não sabia que ele tinha uma esposa em Washington – que foi entrevistada por Rowley – enquanto outro amigo ignorava a existência de sua noiva em Istambul. E somente nos últimos anos de Khashoggi, afirma o filme, ele personificou o dissidente hoje conhecido.

O filme é antes um retrato de uma pessoa que circulou nas esferas do poder por muito tempo, e que dispunha de informações valiosas, potencialmente perigosas. Ele revela um detalhe não divulgado: pouco antes de sua morte, Khashoggi concordou em encontrar-se com um investigador que trabalhava com famílias das vítimas do ataque de 11 de setembro que decidiram processar o governo saudita.

O investigador queira discutir os vínculos do governo com a Al Qaeda, mas Khashoggi foi morto antes que a reunião ocorresse. As filmagens esbarraram em algumas dificuldades. A Arábia Saudita negou os vistos à equipe de jornalismo de Rowley. De maneira que ele conseguiu entrar graças a um visto de turista e filmar às escondidas. A equipe recebeu ameaças durante o decorrer das filmagens, mas Rowling hesitou em falar mais.

“Você não pode ser ingênuo quando começa um projeto como este”, afirmou. “Você esta em constante comunicação com pessoas que são vigiadas continuamente ou que trabalham para agências de inteligência, ou que na realidade poderiam ser alvos da própria inteligência saudita”. A vigilância é o elemento básico em The Dissident, de Bryan Fogel, diretor de Icarus, documentário ganhador do Oscar de 2017.

Com lançamento teatral marcado para 18 de dezembro, o documentário se desenrola como um filme de mistério: seu roteiro denso muitas vezes evoca a catástrofe que se aproxima, e material de arquivo recebeu o suplemento de imagens geradas por computador. O filme é a crônica dos últimos anos de Khashoggi da perspectiva de Omar Abdulaziz, um jovem ativista saudita em Montreal e amigo de Khashoggi que, como o jornalista, fugiu da Arábia Saudita, criticou seus governantes e teve de pagar por isto.

Suas histórias se entrelaçam de maneira progressiva, particularmente quando o filme analisa as operações cibernéticas da Casa Real. Tanto Khashoggi quanto Abdulaziz foram visados por sua retórica online, e Abdulaziz contou que a corte saudita invadiu o seu smartphone usando o mesmo software que está sendo utilizado para espionar jornalistas e ativistas.

Nos dias que antecederam a morte de Khashoggi, este e Abdulaziz estavam colaborando para uma campanha nas redes sociais para rebater a propaganda suadita no Twitter. Em janeiro deste ano, a ONU acusou o príncipe Mohammed de invadir o celular de Jeff Bezos, o diretor executivo da Amazon e proprietário do Washington Post, supostamente como uma tentativa de influir na cobertura crítica que o veículo faz sobre o reino.

Fogel afirmou que sabia da história antes que viesse a público e a explora e seu filme para enfatizar um ponto assustador. “Se eles podem usar esta tecnologia para perseguir o homem mais rico do mundo e envergonhá-lo, quem irão perseguir depois?“, perguntou. “Quem não está seguro?”. Fogel obteve acesso a provas dos investigadores, promotores e funcionários do governo turco. Além disso, passou um tempo considerável com Hatice Cengiz, a noiva de Khashoggi, que compartilhou de mensagens de voz de Khashoggi e levou Fogel até a casa que viria a ser do casal.

O objetivo, disse Fogel, foi criar uma “jornada emocional”. A distribuidora Briarcliff Entertainment pretende lançar The Dissident em cidades determinadas antes de exibi-lo em todo o país no início do próximo ano. “É uma história importante que precisa ser contada”, afirmou Tom Ortenberg, o diretor executivo da Briarcliff . “Ele merece e francamente exige ser visto na telona”.

O caso de Khashoggi continua dando manchetes. A Arábia Saudita emitiu seu veredito final em setembro; e na semana passada, a promotoria turca apresentou um segundo indiciamento contra seis suspeitos; além disso, em Washington, acaba de ser revelada uma organização que acompanha a situação dos direitos humanos, criação de Khashoggi.

Kingdom of Silence e The Dissident ampliam ainda mais a história, expondo detalhes menos conhecidos e servindo de chamado à ação. “Não foi feita justiça “, afirmou Fogel. “Por isso, acredito que a história não terminará no dia 2 de outubro”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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