David Lee/Focus Features
David Lee/Focus Features

Filmes sobre justiça racial não dispensam finais à moda de Hollywood

Películas baseadas em assassinatos de homens negros pela polícia

Reggie Ugwu, The New York Times

13 de novembro de 2018 | 06h00

O policial Andy Landers é um personagem fictício, entretanto, da maneira como Spice Lee o concebeu, é um vilão com um destino horrível, mas sedutor. No sucesso “Infiltrado na Klan”, ele inspirou-se na história real de Ron Stallworth, um policial negro que se infiltrou na Ku Klux Klan no Colorado, nos anos 70, enquanto Landers é o cretino da história, um racista não reformado nas próprias fileiras de Stallworth.

Mas o cretino é recompensado. Stallworth e sua namorada, Patrice Dumas, ativista do ‘black power’, que havia sido assediada por Landers, gravam secretamente algumas imagens em um bar quando ele se vangloria de seus atos. Mais tarde, ele é levado algemado pela polícia enquanto Stallworth, Patrice e duas colegas brancas brindam porque finalmente se fez justiça.

A cena quer ser uma comemoração da harmonia racial depois de duas horas de discriminação e recriminação essencialmente intensas. Este é o padrão, segundo os finais hollywoodianos.

O notável é que quem está por trás da câmera é Spike Lee, um homem cujos primeiros filmes, como o seu fundamental “Faça a coisa certa” renegaram com tanta frequência as suturas limpas da mais persistente ferida dos Estados Unidos.

Mas isto é passado. Entre os vários filmes que trataram da história da justiça racial nos EUA em 2018, “Infiltrado na Klan” não é o único que encontra uma solução esperançosa no desespero.

“The Hate U Give”, “Blindspotting”, Monsters and Men”, e “Pantera Negra” atenderam à demanda de filmes sobre a experiência negra. Mas o fato de dependerem das alegorias das histórias de super-heróis e das fantasias de vingança sugere a dificuldade de fazer um cinema que fale da realidade da história que estamos vivendo.

Os super-heróis em “The Hate U Give” e “Monsters and Men” são jovens e negros na América dos dias de hoje. Ambos os filmes nos oferecem o tipo de coquetel - homem negro desarmado, policial branco, o peso horrível da história - que o público reconhece em histórias semelhantes que a mídia fala.

Em “The Hate U Give”, dirigido por George Tillman Jr, Starr Carter (Amandla Sternberg), uma garota negra particularmente dotada estuda com destaque em uma escola do ensino médio em grande parte branca e está presente quando uma blitz aleatória contra traficantes acaba com um policial matando sua amiga de infância.

Um grande júri não quer indiciar o policial. Manuela Starr está desolada, furiosa e desorientada, mas também inusitadamente firme. Ela lidera um protesto contra a polícia em que aparece de cabeça raspada, mas triunfante - uma ativista que promete levar “a luz na escuridão”.

Contudo, na tentativa de sugerir uma ligação com o universo moral de Martin Luther King, o filme acaba endossando praticamente um pensamento mágico semelhante ao das películas da Marvel.

O filme pede aos espectadores que olhem o serviço militar obrigatório destes jovens corpos em um conflito antigo como um motivo de esperança e não de vergonha; que os oprimidos sonhem em ser super-homens; que os espectadores não continuem mergulhados no que aconteceu a King. É nobre que uma estudante dedique a sua vida à causa duradoura da justiça social. Mas o enredo se perde quando este compromisso é substituído pela coisa em si.

Quando lançou “Faça a coisa certa”, em 1989, Lee não estava interessado em progresso, nem em resolução. 

No clímax, “o tumulto que se seguiu à morte de Radio Raheem parece merecido”, disse Justin Gomer, um estudioso do cinema e professor assistente de Estudos Americanos na California State University, em Long Beach. “O filme nunca sacrifica a intensidade das emoções que a comunidade está experimentando - ele as valida. E diz: ‘Se formos honestos, não haverá um fim hollywoodiano neste sentido”.

Cerca de 30 anos mais tarde, o status quo não é a ausência de uma consciência do racismo sistêmico, mas a indiferença a ele.

Uma nova geração de realizadores escolheu uma tarefa diferente - e de certo modo mais perigosa - do que a de Lee em 1989, e o próprio Lee alterou a sua posição. O novo projeto consiste em organizar, mobilizar a alquimia da tela prateada para corrigir de maneira substancial eventos recentes.

As fantasias de vingança visam provocar a catarse onde a realidade falhou. O problema é que os que estão acostumados com a parte mais fraca da justiça racial naturalmente desconfiam das falsificações.

“Estes não são apenas traumas históricos, eles são recentes”, disse Wesley Lowery, autor de “They Can’t Kill Us All”, um livro sobre o movimento ‘Black Lives Matter (Vidas Negras também são importantes)’, que está sendo adaptado para a televisão pela AMC.

“Então eu compreendo o que diz o sentimento: ‘Se vou pedir que você rediscuta esta experiência comigo, devo dar-lhe algo em troca’ ”, prosseguiu: “Mas o que é difícil para mim como espectador é que pode parecer uma coisa vazia, então, receber o que parece uma compensação emocional barata”.

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