Annie Flanagan for The New York Times
Annie Flanagan for The New York Times

Floresta aquática esconde segredos para novos medicamentos

Antes que essa floresta subaquática desapareça, os cientistas correram recentemente para procurar vermes e outras espécies marinhas que possam ocultar a medicina do futuro

Joanna Klein, The New York Times

07 de abril de 2020 | 06h00

DAUPHIN ISLAND, ALABAMA - Eram 6 da manhã de um dia de dezembro no cais. A névoa pairava sobre a água e o motor do barco de pesquisa E.O. Wilson roncava. A embarcação desapareceu na névoa e, às 7h30, a tripulação, uma equipe de biólogos, químicos e microbiologistas, chegou ao destino. Abaixo deles havia um mundo secreto onde passado, presente e futuro colidem.

Trata-se de uma floresta subaquática. Seus residentes incomuns, taredos e organismos marinhos, poderiam servir como incubadoras de medicamentos inesperados, produzindo novas fórmulas e compostos que salvam vidas e que podem não ser encontrados em nenhum outro lugar do planeta.

“Floresta subaquática” não é uma metáfora - não é um recife de coral ou um leito de capim marinho que se assemelha às florestas de superfície, mas árvores de verdade com raízes e folhas. Por centenas de milhares de anos, esse bosque de ciprestes - com o tamanho de cerca de dois campos de futebol e dois metros de largura - ficou em silêncio, preservado dentro de uma tumba de areia e sedimentos sem oxigênio. Então apareceu (o furacão) Ivan.

Em 2004, o furacão atingiu o Golfo do México, com ventos de até 225 Km/h. A tempestade levantou cerca de três metros de areia do fundo do mar, despertando a floresta adormecida embaixo. Poucos viram este lugar e os que sabiam dele, mantiveram sua localização secreta.

Mas eles confiaram a este grupo de cientistas, liderado por Dan Distel, biólogo marinho e diretor do Ocean Genome Legacy Center da Northeastern University, em Boston, as coordenadas para a expedição daquele dia. Esse grupo foi o primeiro a explorar, documentar e estudar os taredos e outros xilófilos marinhos que se estavam na floresta quando ela emergiu.

Segundo os cientistas, os taredos são cruciais para a descoberta de medicamentos. À medida que as populações envelhecidas aumentam em todo o mundo e a resistência a antibióticos ameaça a saúde pública, a medicina está buscando uma nova fronteira que possa produzir novos medicamentos para tratar doenças como o câncer e a dor crônica e conter infecções mortais. A floresta já foi um pântano a cerca de 160 quilômetros do continente.

Seus ciprestes carecas e seus troncos contraídos do tamanho de carros sustentavam uma diversidade de vida terrestre. Mas agora abriga peixes, anêmonas e outros habitantes do mar. E para os taredos, é um bufê sem limites. “Isso é como uma carcaça de baleia de madeira”, disse Margo Haygoo, bióloga molecular da Universidade de Utah. Uma carcaça de baleia morta que afundou até o fundo do mar. E a vida brota ao redor dela.

Margo estudou taredos gigantes em manguezais nas Filipinas com Distel. Mas eles nunca viram nada assim. Ninguém nunca tinha visto algo semelhante. A floresta submersa é ainda maior, mais distante da costa e mais antiga do que qualquer coisa remotamente parecida. Como flores silvestres após um incêndio, a diversidade floresce à medida que novos habitats são estabelecidos. Nos estágios iniciais do assentamento, quando tudo está lutando pelo espaço, as disputas territoriais geram muita química.

Enquanto analisa tudo, Margo acha que há uma chance melhor de encontrar novos medicamentos não tóxicos que funcionem bem. Taredos parecem ser boas fontes para a fabricação de medicamentos, e a equipe descobriu compostos que agora estão avançando nos estágios iniciais do desenvolvimento de medicamentos.

Seu talento farmacêutico pode ser explicado pelas bactérias que vivem em seus orifícios, que enviam enzimas ao estômago para ajuda-los a digerir a madeira. De alguma maneira, esse processo também deixa o estômago quase estéril, sugerindo que possa haver a presença de antibióticos.

E Margo diz que quaisquer dos compostos encontrados já passaram milhões de anos pela pré-triagem nos corpos dos taredos em evolução. Isso os torna provavelmente menos tóxicos para os seres humanos do que os medicamentos desenvolvidos em laboratório. Todas as espécies não estudadas, todas as amostras, são potencialmente um baú de combinações químicas não imaginadas. E um lugar como a floresta subaquática pode estar escondendo milhões de bactérias desconhecidas.

Marinheiros identificaram esses seres como cupins-do-mar, pois eles escavam e devoram navios de madeira. Mas eles não são cupins, pelo contrário, são mexilhões alongados que moem madeira com dentes microscópicos e digerem a madeira com a ajuda de bactérias simbióticas que vivem em suas células.

Um único espécime pode gerar dezenas de cepas de bactérias. Mas os exames que as identificam são difíceis e levam meses para serem realizados. De volta ao laboratório, os pesquisadores iniciaram tarefas menos ousadas: escolher mais pedaços de madeira, terminar uma simulação em computador de um grande tronco e analisar amostras com um microscópio.

Em seus mergulhos, os cientistas haviam criado trabalho suficiente para uma vida inteira ou mais. Eles não sabem se esses organismos ocultam um remédio milagroso. Mas eles estão ansiosos para continuar a caça. “Não existe essa coisa de taredo desinteressante “, disse Margo. TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

Tudo o que sabemos sobre:
Alabama [Estados Unidos]

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.