Zack Wittman para The New York Times
Zack Wittman para The New York Times

Flórida enfrenta grandes problemas na utilização de energia solar

Incentivos das grandes empresas de energia do estado desencorajaram instalação de painéis solares no telhado

Ivan Penn, The New York Times

29 de julho de 2019 | 06h00

ST PETERSBURG, FLÓRIDA - A Flórida se define como o "estado ensolarado". Mas em termos de utilização da energia solar, está atrás de 19 estados. Especialistas do ramo e ambientalistas culpam as empresas de serviços públicos do estado. Estas empresas impedem que possíveis concorrentes ofereçam energia solar residencial. E para tanto, gastaram dezenas de milhões de dólares em lobby e financiamentos políticos. Além disso, quando os proprietários de residências adquirem equipamento solar, demoram meses a fio para fazer a ligação nas redes.

Na Flórida, as empresas de serviços públicos ganham dinheiro praticamente em todas as fases do sistema elétrico - a produção de energia, a transmissão, venda e distribuição. “Se os lucros se baseiam no consumo, onde está o seu incentivo para reduzir o uso de eletricidade?” disse Rick Kriseman, o prefeito de St. Petersburg.

As empresas de serviços públicas consideram o proprietário de uma residência equipado com painéis solares um concorrente, e não um cliente, afirmou. Timothy Nathan Shields, um enfermeiro aposentado de 57 anos, queria um sistema que atendesse às necessidades de energia de sua casa de 186 metros quadrados, bem como a do seu carro elétrico. Por isso, adquiriu uma instalação da Sunrun, companhia que fornece energia solar residencial.

Em primeiro lugar, contou Shields, um representante da Duke Energy, a segunda maior empresa de serviços públicos do estado, falou que ele não se beneficiaria de muita energia solar por causa da “chuva”.  E avisou que a sua economia seria irrisória. Depois que ele se comprometeu a adquirir o sistema, a Duke disse que precisaria de um seguro, porque ele poderia “prejudicar a rede elétrica”.

A Sunrun instalou o sistema de Shields em poucos dias. Mas a Duke levou dois meses para ligá-lo, o que o obrigou a continuar pagando contas mensais de eletricidade de US$ 310. “Toda vez que eu a procurava reclamando, os funcionários inventavam desculpas”, disse Shields. “Eles querem que a gente pense que se trata de um processo difícil, horrível, complicado”.

Randy Wheeless, um porta-voz da Duke, afirmou que a companhia simplesmente obedece às normas do estado que exige a instalação de sistemas domésticos maiores. A companhia reduziu os tempos para fazer as ligações e registrou 750 clientes de painéis solares por mês.

A experiência de proprietários de casas como Shields foi em grande parte determinada pelos gastos políticos das empresas públicas. De 2014 até o final de maio, as quatro maiores empresas do gênero da Florida, de propriedade dos investidores, gastaram em conjunto mais de US$ 57 milhões em contribuições de campanha, segundo uma análise. As empresas também contrataram lobistas para poderem contar com um em cada dois legisladores de Tallahassee, a capital, para defenderem os seus interesses.

Na Flórida, nos últimos cinco anos, foi criada uma associação de consumidores  para promover a energia solar residencial, enquanto ambientalistas se uniram a grupos como o Tea Party e a Christian Coalition. A iniciativa criou uma frente contra as companhias de serviços públicos, que, em 2016, apoiaram um referendo para impor mais tarifas aos usuários de energia solar e forçar as empresas que instalam painéis solares a sair do estado.

Embora as companhias de serviços públicos tenham gasto mais de US$ 20 milhões na campanha, a proposta foi derrotada. No ano seguinte, a associação convenceu os legisladores a isentar 80% do valor das instalações solares do imposto predial. Entretanto, as companhias também se beneficiaram, porque isto acabou reduzindo a sua carga fiscal sobre fazendas solares como a Babcock Ranch, que a Florida Power & Light está ampliando a fim de torná-la a primeira cidade sustentável dos Estados Unidos.

Scott McIntyre, diretor da Solar Energy Management, uma líder no estado no setor de energia solar comercial, sediada em St. Petersburg , disse que os ganhos que o estado aufere são mais de fachada. “A Florida não irá fazer nenhum tipo de política energética que beneficie os consumidores, não por muito tempo”, disse McIntyre. “Só continua criando obstáculos cada vez maiores”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.