Karen Weintraub
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Fobia de abelhas pode salvar elefantes

Agricultores instalam cercas de abelhas no Sri Lanka para afugentar elefantes que invadem as plantações e destroem a colheita

Karen Weintraub, The New York Times

10 Março 2018 | 10h00

Os elefantes têm medo de abelhas. O maior animal terrestre do mundo sente tamanho pânico de um minúsculo inseto que começa a agitar as orelhas, levantar poeira e faz barulho ao ouvir o zumbido de uma colmeia.

O ferrão de uma abelha não consegue perfurar o espesso couro de um elefante, mas, quando atacam em enxames (as abelhas africanas formam enxames agressivos), centenas de abelhas podem picar áreas mais sensíveis do corpo do elefante, como a tromba, a boca e os olhos. E a dor é forte.

A reação dos elefantes à ameaça das abelhas é tão forte que os preservacionistas a estão usando para ajudar a evitar o tipo de conflito que os coloca em risco. Os animais ameaçados já foram alvejados por agricultores que tentam salvar suas colheitas dos elefantes que se alimentam delas.

Mas, nos anos mais recentes, pesquisadores e defensores dos elefantes convenceram os agricultores a usarem o medo que os elefantes sentem das abelhas como uma cerca em potencial para proteger as colheitas. Ao instalar colmeias em intervalos de 20 metros entre elas, alternando colmeias verdadeiras e colmeias falsas, uma equipe de pesquisadores na África mostrou que consegue manter 80% dos elefantes afastados das terras produtivas.

Num novo estudo, a mesma equipe, liderada pela pesquisadora Lucy King, da Universidade de Oxford, descobriu que os elefantes asiáticos também têm medo de abelhas, embora talvez sua reação seja menos pronunciada. Esse é o primeiro passo na tentativa de mostrar que a estratégia de controle também pode funcionar em países como Sri Lanka, Índia, Nepal e Tailândia, onde os elefantes asiáticos são 10 vezes mais ameaçados que seus primos africanos.

Não se sabe ao certo se os elefantes asiáticos reagem diferentemente às abelhas porque as abelhas asiáticas são menos agressivas. Talvez os elefantes simplesmente tenham outra resposta comportamental.

Na África, a organização sem fins lucrativos Save the Elephants, que tenta proteger os animais, constrói cercas feitas com arame e colmeias ao custo de aproximadamente US$ 1 mil para uma propriedade com pouco mais de um acre: o valor é um quinto da instalação de uma cerca elétrica, disse Lucy.

A fazenda é protegida pelos elefantes e recebe uma renda modesta de uma colheita de mel que pode ser feita duas vezes ao ano. As colmeias precisam ser armadas em fios fortes o bastante para sustentá-las, mas com alguma flexibilidade, para que as colmeias oscilem com a brisa. A pesquisadora Lucy King aprendeu no início das pesquisas que a oscilação da colmeia torna as abelhas mais propensas à fuga, tornando-se mais ativas na função de afastar os elefantes.

Os elefantes são tão inteligentes que, na ausência do "condicionamento negativo" de algumas picadas (quando os pesquisadores tocam o som das abelhas, por exemplo), eles logo aprendem que a ameaça não é real, explicou Lucy. Ela também reconheceu que as abelhas podem não ser suficientes quando os campos estiverem cheios de comida, e os agricultores tiverem de afastar os elefantes valendo-se de outro dos seus medos, como o som do latido de cães ou de tiros para o alto.

Até o momento, as cercas de colmeias estão sendo usadas ou testadas em 11 países da África e quatro países da Ásia, e os agricultores parecem gostar da abordagem, com mais de 200 deles se oferecendo como voluntários para participar no ano passado.

“Quando começamos, não era fácil convencer as pessoas a tentar nossa ideia”, disse Lucy King. “Eles pensaram que fosse loucura. Mas, então, perceberam que estávamos distribuindo colmeias de graça, e aceitaram. Agora, há uma fila de interessados”.

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