Diana Zeyneb Alhindawi para The New York Times
Diana Zeyneb Alhindawi para The New York Times

Fogão a lenha criado na África ajuda a preservar a saúde e as florestas

Empresa em Ruanda quer acabar com a dependência africana por lenha e carvão ao criar fogões de energia mais limpa

Peter S. Goodman, The New York Times

21 Dezembro 2018 | 06h00

Eric Reynolds vai dizer que está prestes a libertar grande parte da humanidade do flagelo mortal do fogão a lenha. Que consegue acabar com a fumaça tóxica que paira pelos lares africanos, proteger o que resta da cobertura florestal do continente e ajudar a salvar o planeta da ira das mudanças climáticas.

Ele fica feliz em explicar como conseguirá fazer tudo isso enquanto está criando um negócio que pode render bilhões a partir de clientes improváveis: as pessoas mais pobres da Terra. “Muita gente acha que é bom demais para ser verdade”, diz Reynolds, empresário nascido na Califórnia que vive em Ruanda.

A empresa que ele está construindo em Ruanda, a Inyenyeri, quer substituir a esmagadora dependência africana de lenha e carvão por fogões de energia mais limpa, alimentados por pellets de madeira. Já tem mais de 5 mil clientes e precisa de uns 100 mil para fechar as contas. Até mesmo seu diretor de operações, Claude Mansell, veterano da consultoria global Capgemini, quer saber como essa história vai acabar. “Vai dar certo?”, ele se pergunta. “Não sei. Ninguém nunca fez nada parecido”.

A Inyenyeri representa um verdadeiro teste para uma ideia que vem ganhando força entre aqueles que estão focados no desenvolvimento econômico: a de que as empresas com fins lucrativos podem estar mais bem posicionadas para fornecer serviços essenciais às comunidades mais pobres do mundo. “O lucro impulsiona o impacto em escala”, disse Reynolds, agora no meio de uma turnê global para angariar mais investimentos além dos cerca de 12 milhões de dólares que ele já levantou. “Se ninguém ficar rico, não vai dar certo”.

Mais de quatro décadas se passaram desde que Reynolds embarcou no que ele descreve como uma vida de empreendedor acidental, consequência de seu fascínio pelo alpinismo. Ele abandonou a faculdade para fundar a Marmot, uma empresa de equipamentos para atividades ao ar livre. Com ela, lucrou ao proteger guerreiros de fim de semana que bebiam vinho e dirigiam carrões contra o frio de Aspen, no Colorado. 

Agora, está tentando construir um negócio centrado em clientes para quem acender uma luz é um ato extremo de ascensão social. A Inyenyeri está apostando que pode doar fogões e ganhar dinheiro cobrando pelo combustível. Se tiver sucesso, promete entregar valores que vão além do lucro. As florestas seriam poupadas, porque produzir pellets de madeira derruba menos árvores que fazer lenha ou carvão. Os clientes teriam algum alívio dos males relacionados à fumaça de cozinha, entre eles doenças cardíacas e problemas respiratórios. Em todo o mundo, cerca de 4 milhões de pessoas morrem a cada ano devido a doenças ligadas à poluição do ar resultante da preparação de alimentos, segundo a Organização Mundial de Saúde.

Os habitantes das áreas rurais de Ruanda - e, com o tempo, de toda a África e sul da Ásia - não precisariam mais procurar lenha. Os habitantes das cidades, que dependem do carvão, poderiam trocá-lo por pellets de madeira, que são mais baratos. Em boa parte dos países em desenvolvimento, as iniciativas ambientais tendem a colocar os pobres contra a proteção dos recursos naturais. Para que o resto do planeta possa se beneficiar de uma redução nas emissões de carbono, os camponeses da Amazônia devem parar de derrubar florestas para limpar a terra para suas plantações. No entanto, nos projetos da Inyenyeri, as preocupações cotidianas das famílias pobres estão alinhadas com os imperativos ambientais.

Reynolds, de 66 anos, às vezes pode soar como o último homem branco que veio para salvar a África. “É escandaloso que ainda tenhamos 3 bilhões de pessoas cozinhando como se estivessem na Idade da Pedra”, diz. Ele se gaba de sua capacidade de se conectar com as clientes, as mulheres de Ruanda, ainda que não fale o kinyarwanda, a língua local, mesmo depois de uma década morando no país. Ele se senta no chão de terra das casas e fala inglês devagar e em voz alta.

As ruandesas confiam nele, diz Reynolds, porque ele se casou com uma delas. E mostra as provas: fotos de sua esposa, Mariam Uwizeyimana Reynolds, 32, e de seus dois filhos, Terry Toulumne Reynolds, 6, e Marc Booth Reynolds, 3. Certa noite, ele visita a aldeia de Buzuta, um punhado de cabanas de barro em volta de uma estrada de terra esburacada no oeste de Ruanda. Ele se senta de frente para Mukamurenzi Anasthasie, que está criando dois netos e dois órfãos em uma casa sem encanamento nem eletricidade.

Durante a maior parte de seus 60 anos, Anasthasie observou a luz do dia se esvair com medo de que a escuridão caísse antes que ela pudesse encontrar lenha suficiente para cozinhar pelo menos uma refeição. As florestas que antes cercavam sua aldeia foram desmanteladas. Ela e seus vizinhos perambulavam por horas pelas montanhas vizinhas à procura de gravetos.

“Às vezes, a gente colhia ervas secas e tentava cozinhar com elas”, diz Anasthasie. “Outras vezes, ainda mais quando chovia, a gente simplesmente não comia”. Dois anos atrás, Anasthasie trocou seu forno a lenha por um fogão Inyenyeri, um cilindro vermelho com uma câmara para queimar pellets. Ela já não passa o dia se preocupando com madeira. Ela e as crianças já não sofrem com a tosse constante. Ela pode colocar feijão para ferver e sair para fazer outra coisa.

Segundo Reynolds, sua carreira nos negócios nasceu de um simples desejo de dormir confortavelmente. Era o início da década de 1970 e ele tinha 21 anos, estudava na Universidade da Califórnia, em Santa Cruz, mas passava a maior parte do tempo escalando os paredões do Vale Yosemite. Ele e seu parceiro de escalada não gostavam dos sacos de dormir volumosos. E começaram a costurar os seus próprios. Reynolds deixou a faculdade para se dedicar à Marmot em tempo integral. Os lucros se multiplicaram, mas ele continuava inquieto. “No final do dia, tudo o que realmente fazíamos era deixar os yuppies secos e quentinhos”.

Ele deixou a Marmot em 1987 e passou anos escalando montanhas, dos Andes ao Himalaia, ainda morando em Boulder, Colorado. Trabalhava e prestava consultoria para algumas empresas. Foi então que uma amiga começou a projetar um memorial para as vítimas do genocídio de 1994 em Ruanda. Ela convidou Reynolds para ajudar.

Em março de 2007, ele viajou para a aldeia onde ficaria o memorial. O país que ele cruzou parecia bruto e despedaçado. Treze anos haviam se passado desde a onda de assassinatos que matou cerca de 800 mil pessoas em 100 dias, mas Ruanda ainda fervilhava de dor e desconfiança. A taxa de mortalidade infantil era uma das mais altas do planeta. A expectativa de vida ficava abaixo dos 60 anos. O ruandês típico tinha uma renda anual de 206 dólares.

Quando Reynolds visitava os aldeões, ficava impressionado com sua existência cotidiana. Não existia água potável. Nem eletricidade. Nem banheiros. Incêndios tomavam florestas teoricamente protegidas. Colinas antes cobertas de árvores tropicais ficavam desnudadas e expostas às intempéries. Os rios sufocavam sob um lodo marrom, as fortes chuvas arrancavam os nutrientes da terra. Tudo isso para produzir um combustível que matava silenciosamente centenas de milhares de pessoas. “Não há nada na casa que cause tantos males quanto a cozinha. É suja, esfumaçada. A mãe fica lá com o bebê nas costas, os dois tossindo”.

Ele voltou para Boulder e começou a estudar práticas culinárias e tecnologias de fogão. Os esforços filantrópicos se concentravam na distribuição de fogões mais limpos. Os empreendimentos com fins lucrativos estavam desenvolvendo modelos para venda. Mas os fogões de alta tecnologia que limitavam a fumaça tóxica custavam até 150 dólares - absurdamente caros para os africanos. Se quisesse ter sucesso, o fogão teria de ser conveniente a ponto de as mulheres o preferirem a seus métodos tradicionais.

Reynolds percebeu que a magia estava na combinação do fogão com o combustível. Ele fez experimentos e descobriu os pellets de madeira - feitos a partir da compressão da madeira e da eliminação da água, elemento que produz grande parte da fumaça. Acabou optando por um fogão de fabricação holandesa que transforma a madeira em gases limpos. A utilização de pellets reduzia a necessidade de madeira em 90%. Mas esses fogões custavam mais de 75 dólares. Então veio a epifania: a Inyenyeri poderia fornecer fogões grátis e gerar receita com um esquema de assinatura de pellets. “Vender combustível todos os dias, e não um fogão a cada dois anos”, diz Reynolds, “o negócio é este”.

Os clientes das áreas rurais não conseguiriam comprar os pellets, mas a Inyenyeri poderia atendê-los com um sistema de troca. As pessoas juntariam lenha - menos do que precisavam para cozinhar - e a trocariam por pellets. A Inyenyeri construiria uma rede de fábricas para produzir pellets a partir dessa lenha. Quanto mais o negócio crescesse, mais barata ficaria a produção.

Conforme o preço do carvão subisse, os pellets ficariam mais atraentes. Em todo o continente, o carvão vegetal é uma indústria de 40 bilhões de dólares por ano, dominada por gangues criminosas que tomam florestas e empregam trabalho infantil. O governo de Ruanda prometeu eliminar seu uso.

A Inyenyeri começaria em Ruanda, onde o governo ganhara credibilidade junto às organizações internacionais por seus avanços na redução da pobreza. E poderia usar o sucesso no país como trampolim para a expansão por toda a África. Em 2010, Reynolds se mudou para Ruanda sem planos de ir embora. Hoje, a Inyenyeri tem escritórios de distribuição em várias cidades e aldeias de Ruanda. Administra uma fábrica de pellets em Gisenyi, cidade no Lago Kivu, e está construindo uma segunda fábrica, ainda maior. 

Representantes da empresa vão até a casa dos novos clientes para ajudá-los a preparar a primeira refeição usando seus fogões novos. A Inyenyeri entrega pellets gratuitamente, com entregadores de bicicletas, e está perto de implantar um sistema que permitirá que os clientes façam pedidos usando um smartphone. Mas cada projeção faz com que seja necessário um aumento acentuado no número de clientes para o negócio se tornar rentável. A Inyenyeri precisa convencer os investidores a entregar dinheiro suficiente para comprar centenas de milhares de fogões e erguer fábricas de pellets.

A demanda pelo produto da Inyenyeri parece esmagadora. A empresa se expande para todos os lados, o boca-a-boca esgota rapidamente o suprimento de fogões. Os clientes falam em se livrar da fumaça. Na aldeia de Buzuta, Dorcas Nyiransabimana, mãe de dois filhos, cozinha feijão e pode deixá-los no fogão enquanto alimenta os porcos que ficam em um cercado ao lado da casa.

Duas vezes por ano, ela vende leitões e ganha 15 mil francos ruandeses (cerca de 17 dólares), uma soma enorme na Ruanda rural. Com o combustível para cozinhar garantido, ela pode passar mais tempo procurando alimento para os porcos. A casa de Anasthasie fica nas proximidades. Uma mesinha de madeira e três bancos são seus únicos móveis. 

O fogão vermelho da Inyenyeri brilha como um totem de modernidade. Ela costumava ficar presa ao fogão a lenha. Agora, deixa a panela cozinhando e vai recolher folhas de bananeira para alimentar a cabra que mantém amarrada a uma árvore. “Antes, eu saia para procurar folhas para a cabra e quando voltava não tinha tempo para cozinhar para mim e para a família”, diz Anasthasie. “Ou eu cozinhava para nós ou dava comida para a cabra. Agora, todos nós conseguimos comer - nós e a cabra”.

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