John Taggart/The New York Times
John Taggart/The New York Times

Voluntários vasculham fazendas em busca de alimentos para os famintos

A pandemia de coronavírus impactou negativamente as safras, então grupos se organizaram para dar um melhor destino aos alimentos que estavam parados nos campos

Rachel Wharton, The New York Times - Life/Style

07 de agosto de 2020 | 05h00

SPRINGFIELD TOWNSHIP, Nova Jersey - Armada com uma faca de cortar carne barata, uma cesta de plástico e mais um saco de lixo, a jovem universitária Alicia Garlic se senta com as pernas cruzadas na terra suja da Fazenda Specca, colhendo suas próprias verduras. Sob o sol que atravessava as nuvens da manhã, ela colhia o espinafre com suas folhas frisadas com a maior rapidez possível, retirando as partes amareladas, cortando as hastes mais grossas.

Alicia não estava separando as hortaliças para seu consumo naquela manhã de terça-feira, mas para o programa Fazendeiros Contra a Fome, instituído pela Sociedade Agricultora de New Jersey. Juntamente com outros companheiros espalhados em fileiras respeitando o distanciamento social - uma professora aposentada, uma funcionária da Agência Census, uma jovem mãe com a filha ainda frequentando a escola primária, ela estava ali para separar e recolher as verduras.

Esta operação é uma tradição agrícola consagrada, definida como recolher aquilo que foi deixado para trás depois da colheita. Neste país, ela sempre foi uma área restrita aos grupos religiosos inspirados pela história judaica de Ruth, escrita numa época em que esse era um direito protegido dos pobres. Nos últimos anos, com uma nova ênfase no apoio à agricultura local, na diminuição do desperdício e melhora da qualidade nutricional dos alimentos no combate à fome - um novo grupo de organizações comprou a ideia.

E então veio a pandemia do coronavírus, com as enormes filas nos bancos de alimentos e a vista perturbadora dos agricultores jogando fora suas cebolas quando seus contratos com empresas de serviços de comida sumiram da noite para o dia.

Hoje os grupos de catadores estão na linha de frente daqueles que querem estabilizar a oferta abalada de alimentos, posicionados perfeitamente para atacar um problema - a abundância de produtos colhidos que não são vendidos para resolver um outro - o da fome avassaladora.

“Quando você vê as longas filas de pessoas em busca de alimento, isto leva as pessoas a perceberem que temos de encontrar o alimento que já existe aqui, agora, disse Virginia Baker, coordenadora do projeto do Fazendeiros Contra a Fome. “Nós já temos. É preciso apenas levar esse alimento para aqueles que necessitam”.

Virginia Baker, 27 anos, se encarrega de localizar os  agricultores que querem doar a produção excedente, administra uma lista longa de voluntários que desejam fazer alguma coisa ao ar livre com segurança e envia as contribuições para um depósito atacadista onde sua organização aluga um canto do refrigerador do armazém.

Cada uma dessas etapas é lenta diante da necessidade de se usar equipamentos de proteção, desinfetar e manter o distanciamento social. Mas vale a pena, porque a colheita hoje com frequência é de produtos de alta qualidade e não apenas restos. Em duas horas na Fazenda Specca, ela e seu grupo recolheram quase 230 quilos de espinafre destinados a bancos de alimentos locais.

Este tem sido um ano agitado para Baker, que também envia produtos doados de várias fontes para serem distribuídos por Nova Jersey. Sua organização planeja recrutar mais catadores voluntários e conseguir uma subvenção da Fundação Comunitária da Área de Princeton para pagar três agricultores locais para plantarem meio hectare de hortaliças e legumes que o programa Colheita pela Fome reunirá no final deste ano.

Catadores voluntários em todo o país narram histórias similares de esforços hercúleos arranjados rapidamente para atender a uma necessidade que só cresce.

Em San Luís Obispo, Califórnia, um banco de alimentos chamado GleanSLO deixou de ser um grupo de pessoas catadoras de frutas em pomares abundantes no fundo dos quintais e passou a operar nos campos de fazendas que vendiam seus produtos por atacado para o setor de serviços de alimentos.

Em uma chácara colhemos frutas vermelhas em abundância que nem haviam sido tocadas”, disse Emily Wilson, coordenadora de programa do grupo. “Foram milhares de quilos de mirtilos”.

“Conseguimos as subvenções que pedimos”, disse Barbara Eiswerth, fundadora da Rede de Refugiados Iskashitaa, de Tucson, Arizona, cuja equipe de catadores voluntários inclui refugiados da África, Ásia e do Oriente Médio. Eles normalmente levam parte do que colhem para suas famílias.

Os voluntários se reúnem três dias por semana, quando lotam alguns carros e partem para o trabalho. “Agora, com a covid-19 os mais velhos não vão, os estagiários não podem participar, e muitos dos refugiados são idosos ou com problemas de imunodepressão.

Ela recrutou mais de 70 novos voluntários que atuam sozinhos ou em família e ajudam a separar alimentos recolhidos em padarias, distribuidoras e concessionários nas áreas de estacionamento de trailers fechados do Estado. As doações são embaladas em caixas e entregues em 11 conjuntos de apartamentos onde muitos refugiados vivem, e também para várias agências que atuam no combate à fome.

Com ajuda de uma plataforma de vendas agrícolas chamada Forager e uma subvenção em dinheiro de uma entidade sem fins lucrativos chamada ReFED, sua organização chegou a distribuir mais de 950 quilos de produtos para a comunidade indígena em quarentena em Window Rock, no Arizona, capital da Nação Navajo, uma viagem de seis horas de carro.

Tem sido também uma primavera agitada na sede da Sociedade de St. Andrew, em Orlando, Flórida, um grupo de catadores voluntários fundado pela Igreja Metodista Unida e com programas também na região sudeste, Ohio e Indiana.

A pandemia atingiu duramente o país no meio da estação mais agitada para os plantadores de hortaliças na Flórida, que de setembro a maio suprem a economia de turismo local e o resto do país. No início de março, o escritório recebeu telefonemas dos agricultores que estavam vendendo menos do que esperavam ou cujos contratos firmados com centros de convenções da região malograram, incluindo um cujos pepinos normalmente iam para a Vlasic Pickles.

“Ele falou que havia sido sua melhor safra e não valia a pena colher”, disse Barbara Sayles, 65 anos, diretora regional do grupo. “Melhor o seu pessoal vir pegar”, disse ele.

A necessidade de ajuda alimentar era tão aguda que ela começou a telefonar para agricultores inscritos no programa Farmers to Families Food Box, do Departamento de Agricultura, que paga pelas doações feitas de produtos não vendidos para programas de combate à fome. Muitos agricultores não sabiam a quem doar ou como fazer, disse Sayles.

Juntamente com vários outros grupos - o Food Forward, em Los Angeles, o Boston Area Gleaners, em Massachusetts e outras equipes da Sociedade de St. Andrews - a organização de Sayles vem auxiliando os agricultores a distribuir, separar e encher as caixas com uma variedade de hortaliças. Na Flórida, Sayles vem trabalhando com o braço do Service Trades Council Union para entregar caixas de produtos para seus membros que foram licenciados pela Walt Disney World.

Essas são algumas histórias de sucesso compartilhadas nas reuniões on-line da Associação de Catadores Organizados, fundada há quatro anos e com sede em Salt Lake City. Parte da sua missão é ajudar seus 200 membros “a aprenderem com seus colegas”, disse o fundador da associação, Shawn Peterson, 37 anos. Seu objetivo último é recolher o máximo de alimento possível dos campos do país.

É difícil ter números precisos, disse ele, mas dois estudos feitos no ano passado - um de pesquisadores da Universidade Estadual da Carolina do Norte, e outro da Universidade de Santa Clara, na Califórnia, determinaram que cerca de um terço de toda a safra consumível de hortaliças nos Estados Unidos provavelmente deixou de ser colhida.

É por isto que a Colheita contra a Fome, em Seattle, adicionou a atividade dos catadores voluntários ao seu programa de combate à fome, disse David Bobanick, 54 anos, diretor executivo da entidade. Hoje a organização, que existe há 38 anos, também dirige um programa de formação de catadores através do AmeriCorps VISTA que visa criar operações adaptadas para atender às necessidades específicas da sua região.

Este ano o programa também visa dar apoio financeiro para empresas agrícolas que doarem alimentos, pois muitas não conseguiram participar do programa Farmers to Families Food Box, disse Boobanick. Sua organização é uma das várias que recentemente conseguiram financiamento para intermediar acordos entre organizações de combate à fome e agricultores que não conseguem vender sua colheita.

Esta é também a meta da plataforma de vendas Forager, que usará o restante da sua subvenção ReFED para lançar uma nova ferramenta para conectar grupos de catadores voluntários a agências com fundos para compra de alimentos. A maior parte do dinheiro irá para o agricultor, mas uma parte será destinada ao grupo de catadores para cobrir os custos de distribuição, afirmou Erica Merritt, 29 anos, que coordena a iniciativa.

A ideia surgiu quando o óbvio ficou claro, disse ela. “Os catadores voluntários estão literalmente numa posição única entre as empresas agrícolas que não conseguem vender o que plantam e as pessoas que estão famintas”. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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