Paulo Nunes dos Santos para The New York Times
Paulo Nunes dos Santos para The New York Times
Amos Barshad, The New York Times

29 de agosto de 2019 | 06h00

DUBLIN - Em uma semana de julho, a banda irlandesa de rock Fontaines D.C. saiu do Festival de Glastonbury e foi para Copenhague, Barcelona, São Petersburgo e Moscou. No aeroporto, na viagem de volta depois da última escala, o apresentador, Grian Chatten, se perdeu.

Acabou tendo de matar a melhor parte das 24 horas seguintes, enquanto aguardava o próximo voo. Ele contou que passou o tempo “bebendo cerveja Guinness ruim até que ficou parecendo Guinness da boa. No ar, ele continuou bebendo muito vinho de graça. Por fim, Chatten regressou a Dublin e à casa dos pais, onde vive entre uma excursão e outra. As andanças da vida na estrada de uma banda de rock provavelmente não combinam com a domesticidade filial, mas é ali que os Fontaines D.C. se encontram agora.

Uma turnê para o álbum de estreia da banda, Dogrel, lançado em abril, levou os seus integrantes a percorrer toda a Europa e os Estados Unidos. Os últimos meses foram uma sequência de datas de festivais, mais uma indicação para o Mercury Prize, um importante prêmio de música britânico.

A Fontaines D.C. é um conjunto anárquico de rock com guitarras em um presente movido à eletrônica. E tornou-se uma das maiores bandas irlandesas dos últimos anos. A ênfase é no irlandês. A banda afirma que a famosa tradição literária da Irlanda - de gigantes como James Joyce e William Butler Yeats até figuras menores como o poeta e romancista Patrick Kavanagh - é a sua fonte de inspiração.

A fórmula em Dogrel é simultaneamente gasta e específica: em cima de guitarras e bateria, Chatten apresenta poemas compactos oblíquos sobre Dublin. “Vocês sabem que eu amo a violência que se vê aqui, aquele tipo de violência firme-pronta”, grita Chatten na trilha Liberty Belle. E poderia sinalizar a sangrenta história da Irlanda, ou ser um aceno a uma noite de loucuras na cidade. Os cinco integrantes da banda se conheceram quando estudavam composição no British and Irish Modern Music Institute de Dublin.

Por alguns anos, a começar de 2016, eles tocaram em bares da cidade. Dedicavam o mesmo tempo aos ensaios e à redação dos seus versos, lembra o baixista Conor Deegan. Iam aos pubs e faziam circular entre os presentes um caderno que compartilhavam, publicaram folhetos que deixavam sorrateiramente nas livrarias, e montavam sessões de leitura com outros escritores. “Duelávamos desnudando as nossas emoções”, disse Chatten. “E é por isso que somos amigos para toda a vida. E inimigos para toda a vida”.

Os primeiros singles fascinantes como Chequeless Reckless chamaram a atenção do selo americano Partisan Records, que contratou os Fontaines D.C. em novembro de 2018. Então foi lançado Dogrel, e a vida dos integrantes da banda virou de ponta cabeça. Eles estavam vivendo à base de arroz até pouco tempo antes, disse Deegan. Hoje em dia, acrescentou, o selo os faz trabalhar duro.

Mas o trabalho duro valeu a pena, segundo Chatten: Fontaines D.C. quer mostrar ao mundo uma visão da Irlanda que não aceita clichês antiquados e nem rejeita o passado. O seu profundo interesse pela história da Irlanda e por sua cultura nasceu do fato de ser de outro lugar, afirmou Chatten. 

Ele nasceu em Barrow-in-Furness, Inglaterra, embora tenha crescido na Irlanda desde nove semanas de idade. “Eu não tinha certeza da minha essência irlandesa”, afirmou. “Queria chegar a entender isto, a uma verificação”. Chatten acrescentou que a Irlanda está “sentada sobre uma mina de ouro de história”. “Fazer de conta que isto não existe para nós equivale a tornar-nos um país árido, sem rosto, o que significa sermos essencialmente robôs com determinados sotaques”, ele disse. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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