Jessica Eve Rattner / The New York Times
Jessica Eve Rattner / The New York Times

Força de trabalho clandestina move engrenagens do Google

Desde março, a multinacional trabalhou com cerca de 121 mil temporários e prestadores de serviços em todo o mundo; denúncias de assédio também aumentaram

Daisuke Wakabayashi, The New York Times

04 de junho de 2019 | 06h00

SÃO FRANCISCO - Mindy Cruz tinha uma oferta de contratação para um cargo em outra grande empresa de tecnologia quando aceitou uma vaga temporária como recrutadora no Google, em 2017. Os salários e benefícios não eram tão bons, mas foi um passo para estar mais próxima do sonho de ser uma funcionária do Google.

Cruz tornou-se parte de uma força de trabalho clandestina que agora ultrapassa o número de funcionários contratados da empresa. Mas ela nunca chegou a ser contratada: foi demitida depois que um gerente do Google, que ela afirmou tê-la assediado, disse à agência temporária que a contratou para demiti-la.

Empresas de tecnologia há muito promovem a ideia de que são locais de trabalho igualitários. E o Google, talvez mais do que qualquer outra, abraçou essa imagem. Mas alguns funcionários se perguntam se a crescente dependência de temporários e prestadores de serviços está prejudicando essa cultura.

Desde março, o Google trabalhou com cerca de 121 mil temporários e prestadores de serviços em todo o mundo, em comparação com 102 mil funcionários contratados, de acordo com um documento interno. Embora muitas vezes trabalhem com funcionários contratados, os temporários da Google geralmente são convocados por agências externas. Eles ganham menos e têm benefícios diferentes, de acordo com mais de uma dúzia de atuais e antigos trabalhadores temporários e  prestadores de serviços, que, em sua maioria, falaram sob condição de anonimato.

Um tratamento melhor para esses trabalhadores foi uma das exigências feitas pelos organizadores de uma greve de funcionários, no ano passado, para protestar contra o tratamento que a empresa dava às reclamações de assédio sexual. "É hora de acabar com o ‘sistema de dois pesos’ que trata alguns trabalhadores como descartáveis", escreveram os organizadores da paralisação no Twitter, em março.

Quando Sundar Pichai, chefe da empresa, não respondeu a essas demandas, os prestadores de serviços enviaram uma carta aberta exigindo pagamento igual e melhores oportunidades. Em abril, centenas de funcionários do Google assinaram outra carta protestando contra a demissão de trabalhadores temporários. Em resposta, a multinacional disse que estava mudando suas políticas para melhorar as condições para seus temporários. 

A mão-de-obra eventual responde por 40% a 50% dos trabalhadores da maioria das empresas de tecnologia, de acordo com estimativas da OnContracting, um site que ajuda as pessoas a encontrar trabalho na área de tecnologia. A OnContracting estima que uma empresa pode economizar US$ 100 mil por ano, por demanda de trabalho, ao usar prestadores de serviços em vez de um funcionário contratado. "Está se criando um sistema de castas dentro das empresas", avaliou Pradeep Chauhan, que administra a OnContracting.

O Google usa os temporários e terceirizados desde seus primeiros anos em projetos como a digitalização de livros para pesquisas onlines. De acordo com um ex-funcionário, temporários e prestadores de serviços respondiam por cerca de um terço da força de trabalho há cerca de uma década, e essa parcela vem aumentando constantemente.

O pagamento dos prestadores de serviços varia entre US$ 16 por hora para um revisor de conteúdo de nível básico e US$ 125 por hora para um desenvolvedor de software experiente de alto desempenho. Eles são impedidos de participar de eventos da empresa e de ver postagens internas de emprego. Em sua carta a Pichai, os temporários disseram que a empresa enviou atualizações de segurança apenas para funcionários contratados durante um tiroteio em seus escritórios do YouTube no ano passado, deixando-os "indefesos na linha de fogo".

Quando o Google iniciou um projeto em 2014 para melhorar sua tecnologia de reconhecimento de voz, contratou temporários - muitos com doutorado em Linguística, de acordo com pessoas familiarizadas com o projeto. A equipe cresceu para cerca de 250 pessoas, a maioria de prestadores de serviços. Alguns trabalharam dois anos no projeto - o limite da plataforma - e fizeram uma pausa de seis meses antes de voltar.

Em uma reclamação ao departamento de recursos humanos, um prestador de serviços disse que os líderes dos projetos pressionaram os terceirizados a trabalhar mais horas sem reportar horas extras. Os líderes dos projetos fizeram promessas sutis de contratações, disseram dois funcionários. A multinacional abriu uma investigação, que ainda continua, sobre horas extras não pagas.

Cruz trabalhou em um escritório do Google na Califórnia. Seu gerente disse que esperava contratá-la depois de um ano, caso ela atingisse suas cotas de contratação, o que ela fez. É por isso que ela não disse nada quando ele começou a convidá-la para sair. Ela recusou, e seus avanços se transformaram em assédio. "Eu ouvi que muitas vezes quando você diz algo à sua agência de recrutamento, eles simplesmente tiram você da situação e o colocam em outro lugar", disse. "E eu não queria mudar de trabalho".

Ela foi demitida em fevereiro. Seu relatório foi detalhado em documentos legais. Um mês depois, ela fez uma reclamação ao Google. A empresa disse que, após investigações, demitiu o gerente em abril. Cruz concordou com um acordo. Mas uma parte dela dói: ela não pode trabalhar lá novamente. "É tão injusto", lamentou. / TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

 

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