Nick Hagen para The New York Times
Nick Hagen para The New York Times

Ford está concentrada nos alicerces do renascimento de Detroit

Esperança de uma cidade começa com o resgate da antiga estação de trem

Neal E. Boudette, The New York Times

12 Julho 2018 | 10h15

DETROIT - Ao longo dos doze meses mais recentes, a Ford Motor esteve trabalhando num plano para revigorar suas operações e proporcionar um rápido início para o crescimento do lucro. Agora, com as bases dessa estratégia já no lugar, a montadora está investindo em outro grande projeto de reforma: a cidade de Detroit e as imponentes ruínas de sua antiga estação de trem.

A Ford comprou a Estação Central de Michigan, uma torre de 18 andares abandonados e cobertos de grafites que abrigava uma estação de trem e agora é o principal marco geográfico do bairro de Corktown. Faz tempo que a estação é tida como um símbolo claro do declínio vivido há décadas pela cidade.

A Ford enxerga a jogada como parte da corrida pela supremacia na próxima era dos automóveis.

“Para mim, estamos falando da invenção do futuro", disse em entrevista William C. Ford Jr., presidente da empresa e bisneto do seu fundador.

A montadora espera que a estação reformada, de onde o último trem partiu em 1988, seja reaberta em cerca de quatro anos. O objetivo é transformá-la na peça central de um novo campus urbano voltado para o desenvolvimento de empreendimentos como serviços de corridas e empresas de entregas, que usem carros autônomos.

Construída em 1913, a grandiosa estação tem um imenso salão criado pelos mesmos arquitetos da estação Grand Central, de Nova York. Antes das viagens aéreas, essas estações proporcionavam um dramático comitê de boas-vindas para os visitantes que chegavam de Nova York, Chicago, Washington e outros lugares.

Conforme os moradores e empregadores deixaram Detroit, o trânsito de trens diminuiu e então cessou, e a estação se tornou alvo de vândalos, grafiteiros e fotógrafos em busca de imagens da decadência urbana.

A Ford já comprou outras propriedades na área e transferiu cerca de 200 funcionários para um edifício que antes funcionava como fábrica de meias-calças. A Ford disse esperar que o campus de Corktown seja parte de um centro de tecnologia capaz de atrair startups, investidores e outras empresas que trabalham com veículos autônomos.

Ao oeste situa-se o principal centro de engenharia da Ford, em Dearborn, e um pouco mais adiante fica Ann Arbor, a menos de uma hora de carro, onde a Universidade de Michigan comanda o desenvolvimento de dois campos de testes para veículos autônomos.

A Ford acredita que a presença em Detroit vai atrair jovens profissionais que atualmente orbitam o Vale do Silício e outros centros de alta tecnologia, normalmente afastando-se de empresas cuja cultura corporativa é vista como estéril e rígida.

“Nosso objetivo é inventar e testar um veículo autônomo aqui, e atrair os empreendedores e as jovens empresas que vão possibilitar esse resultado, para que possamos assim criar o corredor de mobilidade dos próximos 50 anos", disse Ford.

A Ford disse que até 2,5 mil funcionários da empresa trabalhariam no campus de Corktown.

Ele não quis revelar o quanto a empresa imaginava gastar com as obras e reconheceu que o custo final pode superar as estimativas atuais.

Mas, com os incentivos econômicos oferecidos pelo estado de Michigan, o custo da reforma “parece bastante favorável", disse Ford.

Não foram desenhados planos para a estação, mas Ford gostaria que o salão e o piso térreo formassem um espaço público repleto de lojas, restaurantes e cafés.

“Trata-se de um evento grandioso e transformador para a revitalização da cidade", disse Sandy K. Baruah, diretor executivo da Câmara Regional de Detroit. “É algo que vai atrair o desenvolvimento da cidade para o oeste, e ter um investidor global em Detroit é como um sinal verde para os investidores de fora.”

Mas a cidade ainda enfrenta muitos desafios. O sistema de ensino passa por dificuldades, o transporte público na cidade e nos arredores é escasso, e muitos bairros continuam abandonados, com cerca de 20 mil imóveis vagos.

“Não quero fingir que não temos grandes obstáculos pela frente”, disse Baruah.

Mas, por enquanto, os planos da Ford para a reforma da estação de trem indicam que Detroit está avançando para um futuro melhor.

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