ean Vannier / Laboratoire de Géologie de Lyons
ean Vannier / Laboratoire de Géologie de Lyons

Fósseis revelam estratégias coletivas (muito antes dos humanos)

Organização em fila indiana, por exemplo, é uma ação que pode ser associada a comportamentos coletivos de animais primitivos

Becky Ferreira, The New York Times

11 de novembro de 2019 | 06h00

Provavelmente nós não pensamos duas vezes quando fazemos fila na mercearia ou na hora de fazer o trenzinho em um casamento. No entanto, este tipo de organização em fila indiana é uma forma sofisticada de comportamento social coletivo. Por outro lado, os seres humanos não são os únicos animais que apreciam o valor das filas ordenadas.

Mas a que época remonta este comportamento? Há, pelo menos, 480 milhões de anos, segundo estudo publicado no mês parrado pela revista Scientific Reports. Ele aponta evidências de animais marinhos fossilizados chamados trilobitas enfileirados em uma época em que a vida mais complexa ainda não tinha chegado à maturidade na Terra.

“Provavelmente, o comportamento coletivo se desenvolveu muito cedo entre vários grupos de artrópodes”, afirmou Jean Vannier, paleontólogo da Université Claude Bernard Lyon 1, na França, e autor principal do estudo. Vannier e colegas examinaram espécimes de Ampys priscus encontrado em leitos de fósseis no Marrocos, que preservam  fileiras com até 22 destes pequenos artrópodes espinhosos. Os fósseis são umas das comprovações mais antigas do comportamento coletivo sincronizado nos animais.

Estes trilobitas viveram durante o Grande Evento da Biodiversificação Ordoviciana, período definido por um amento dramático da variedade e complexidade da vida marinha. Foi a continuação do primeiro evento importante da diversificação, a chamada explosão cambriana, que estabeleceu a maior parte dos grupos de animais em seu registro fóssil, há cerca de 541 milhões de anos.

Antes do cambriano, “não há nenhuma evidência de comportamento grupal” em animais, segundo o pesquisador, porque as formas de vida pré-cambrianas careciam de sistemas nervosos sofisticados.

Os trilobitas Ampyx, por outro lado, tinham uma anatomia que pode ter permitido a comunicação química e a estimulação sensorial. Embora fossem cegos, os trilobitas tinham longos espinhos que se projetavam de suas terminações posteriores. Estes apêndices claramente sobrepõem e ligam os indivíduos nas cadeias fossilizadas, e é possível que permitissem sinais táteis ou a troca de feromonas.

O arranjo lembra as formações em fileiras adotadas pelas modernas lagostas espinhosas durante as migrações em massa. A preservação excepcional dos fósseis implica que os trilobitas morreram repentinamente ao serem cobertos por sedimentos, talvez durante uma tempestade, em vez de serem transportados gradativamente para lugar do seu descanso pelas correntes.

Quase todas as trilobitas enfileiradas eram sexualmente maduras, o que pode ser uma evidência de que os animais viajavam em massa para locais de reprodução. A natureza da sua morte e fossilização sugere também que é possível que andassem juntas para escapar de condições perigosas durante as tempestades.

Qualquer que seja a explicação precisa deste comportamento, os fósseis de trilobitas proporcionam um vislumbre fascinante dos primeiros dias de atividade coordenada em equipe dos animais. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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