Victor Beccari via The New York Times
Victor Beccari via The New York Times

Apreensão de fósseis ajuda a discutir colonialismo científico

Entre os 3.000 fósseis apreendidos no porto de Santos em 2013, estava um esqueleto quase completo da espécie de pterossauro 'Tupandactylus navigans', preservado blocos de calcário

Vimal Patel, The New York Times - Life/Style, O Estado de S.Paulo

09 de novembro de 2021 | 05h00

Blocos de calcário resgatados em uma operação policial de 2013 no Brasil revelaram o fóssil mais completo já encontrado de uma espécie de pterossauro, fornecendo novos detalhes sobre como o réptil voador poderia parecer e se comportar 110 milhões de anos atrás.

A descoberta também chama a atenção para a questão do colonialismo científico - a remoção (e às vezes o roubo total) de itens de valor científico de seus países de origem por negociantes de fósseis ou nações mais desenvolvidas. Segundo os autores de um novo relatório sobre o fóssil, o Brasil e outros países que historicamente tiveram seus fósseis contrabandeados ou levados para outros países agora possuem infraestrutura para manuseá-los e estudá-los com responsabilidade - e devem acumular benefícios como descoberta científica e turismo que vêm com uma rica reserva nacional de fósseis.

A operação, em um porto próximo a São Paulo, confiscou cerca de 3.000 fósseis, incluindo muitos peixes e insetos, segundo Victor Beccari, estudante de pós-graduação e principal autor do estudo, publicado na revista PLOS ONE. A peça central foi o esqueleto quase completo da espécie de pterossauro, Tupandactylus navigans, preservado em seis blocos de calcário.

O excêntrico réptil deve ter sido impressionante de se observar. Com uma crista gigante em estilo moicano, um bico semelhante ao de um pássaro e um corpo coberto por algo que lembra, mas não é exatamente uma pele, o pterossauro provavelmente se sobressaiu mesmo entre as outras criaturas exóticas do início do período Cretáceo. Sua extensa envergadura indicava que quase certamente voava, mas provavelmente apenas por curtas distâncias por causa de seu pescoço longo e da grande crista. Provavelmente passou muito tempo procurando alimentos no solo, dizem os pesquisadores.

A crista, os pesquisadores suspeitam, foi uma bênção e uma maldição. Indivíduos com a crista maior do que a média podem ter maior probabilidade de atrair um parceiro. A desvantagem? Maior vulnerabilidade a predadores. (Morra jovem e deixe um belo cadáver, talvez.)

Os fósseis de pterossauros são raros. Seus ossos são extremamente frágeis, ainda mais do que os das aves, dizem os pesquisadores.

Um lago com salinidade flutuante, criado quando a África e o Brasil se separaram, era ideal para a preservação de fósseis. Os pesquisadores têm acesso a muitos peixes preservados com seus órgãos internos daquela região. Beccari suspeita que seu espécime de pterossauro pode ter morrido perto do lago ou de um rio que arrastou o corpo para o lago.

“Achamos que no fundo do lago não havia oxigênio, então nenhum animal ou bactéria poderia decompô-lo”, disse Beccari. “Se conseguisse chegar a esta parte do lago, estaria livre da decomposição.”

As autoridades brasileiras tiveram que resolver questões legais sobre a localização exata para a qual o fóssil deveria ser enviado. Ele foi encontrado no nordeste do Brasil, mas apreendido em São Paulo, no sudeste do país. Foi eventualmente doado para a Universidade de São Paulo e, em 2016, Beccari, então na graduação, e uma equipe de pesquisadores começaram a estudá-lo.

David Hone, um paleontólogo da Queen Mary University of London que não fazia parte da equipe de pesquisadores, disse que "não houve grandes surpresas" no novo artigo, mas que ele fornece uma descrição anatômica mais completa da espécie. Anteriormente, ele era "conhecido apenas por um crânio", ele disse, "agora temos o animal inteiro."

“É um fóssil espetacular”, acrescentou. “Este grupo é conhecido por sua crista de cabeça gigante. Essa é grande e até mesmo ridícula para aqueles padrões, o que é realmente muito legal.”

Para Hone, a parte mais significativa da pesquisa é que ela realmente ocorreu. “O contrabando de fósseis para fora do Brasil é um grande problema para a ciência”, ele disse.

Como exemplo do que o colonialismo científico negou ao Brasil, Beccari apontou lugares nos Estados Unidos, como Wyoming ou Utah, cujas famosas coleções de fósseis de dinossauros “atraem milhares de turistas todos os anos”.

“Agora que temos modelos 3D e outras tecnologias para estudar esse animal, não há razão para que ele deixe nosso país”, disse Beccari. “Se ficar no país, atrai o turismo e mais gente tem contato com seu patrimônio. Isso também é bom para a ciência. ”

Hone observou que estrelas de cinema e outras pessoas ricas pagam grandes quantias para exibir fósseis em suas paredes. Vários anos atrás, o ator Nicolas Cage devolveu o crânio de um Tiranossauro bataar para a Mongólia depois de ser contatado pelo Departamento de Segurança Interna.

“Este é um espécime que provavelmente seria contrabandeado ou vendido ilegalmente”, Hone disse sobre o pterossauro, “e agora está em um museu disponível para pesquisas”. /TRADUÇÃO LÍVIA BUELONI GONÇALVES

The New York Times Licensing Group - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito do The New York Times

Tudo o que sabemos sobre:
dinossaurofóssilpássaroaves

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.