Jason Henry para The New York Times
Jason Henry para The New York Times

Fotógrafa pioneira em guerras registra caos na Nicarágua

'Estamos sempre vivendo história, só que pensamos que se trata da vida diária', diz Susan Meiselas

Julie L. Belcove, The New York Times

09 Agosto 2018 | 10h00

Um dia, em Nova York, a aclamada fotógrafa documental Susan Meiselas estava no estúdio, no subsolo da sua casa, preparando uma retrospectiva do seu trabalho no Museu de Arte Moderna de San Francisco.

Mas com as notícias de uma insurreição na Nicarágua, onde ela se tornara famosa nos anos 1970 com suas imagens íntimas, corajosas da Revolução Sandinista, resolveu pegar um avião.

“Se eu for, sei que não vou conseguir voltar”, disse Meiselas, 70 anos. “Sei que vou ser arrastada para a corrente da história. É muito difícil para mim agora: devo preparar a mala?”. Durante 12 anos, acrescentou, “nunca desfiz as malas, a não ser para mandar a roupa para a lavanderia”.

Semanas mais tarde, com as câmeras nas mãos, ela voltou à Nicarágua, quando grupos paramilitares cercavam os estudantes que haviam ocupado em protesto à Universidade Autônoma de Nicarágua. “Tinha decidido o que tinha de fazer”, disse depois que regressou.

Esta sua inflexível dedicação lhe permitiu captar imagens como o famoso “Molotov Man” (1979), como é conhecido, um rebelde sandinista (posteriormente identificado como Pablo Araúz) prestes a lançar uma garrafa de Pepsi com explosivos caseiros, tornada tão simbólica da resistência que os manifestantes atuais a ressuscitaram, 40 anos mais tarde. Suas fotografias dos rebeldes mascarados e de corpos apodrecendo, como os de freiras americanas executadas por soldados salvadorenhos, mostraram a opressão política e a brutalidade dos conflitos latino-americanos das décadas de 1970 e 1980 aos espectadores do mundo inteiro.

Quando ela regressou à Nicarágua, em junho, encontrou um país mergulhado no caos, onde amigos, inclusive antigos sandinistas, voltaram-se contra o presidente Daniel Ortega e sua esposa, a vice-presidente Rosario Murillo, que abraçaram o autoritarismo.

Mas a Magnum, a agência que representava Susan desde 1976, não conseguiu colocar suas imagens da violência mais recentes. “A mídia está distraída com outras coisas”, ela lamentou. “Agora temos Trump e Putin”.

A retrospectiva do SFMoMA, que irá até 21 de outubro, também demonstra que a obra de Susan abrange muito mais: Projetos sobre a violência doméstica, e mulheres que trabalham em um mercado de especiarias em Marrocos definem a sua abordagem humanista.

Susan disse: “A fotografia de rua fixa o instantâneo - ela o capta e segue em frente. Está muito concentrada no objeto da fotografia e não na relação. Não me sinto confortável fazendo isto”.

Esta empatia ficou palpável em seu trabalho inicial, “44 Irving St.” (1971), que retratava os companheiros da pensão em seus quartos. Susan fez a peça para a única aula de fotografia que ela teve na vida, como aluna de Harvard.

Sua cobertura da Nicarágua e El Salvador foi publicada em revistas de grande destaque, mas a sua preocupação estava muito mais voltada para a história do que para a notícia. “Artista, fotojornalista, historiadora visual - não acho que seja um vocabulário útil”, ela disse.

Depois de passar dez anos na América Latina, as consequências da Guerra do Golfo a levaram a fotografar as sepulturas em massa do genocídio curdo, mas então, enquanto ouvia as histórias dos sobreviventes, ela começou a fotografar novamente as imagens das suas famílias, fazendo uma espécie de álbum coletivo do grupo étnico perseguido. O uso de material de arquivo, considerado radical na época, tornou-se comum a partir de então entre os artistas contemporâneos.

Desde o seu regresso da Nicarágua, Susan produziu um cartão postal para distribuir aos visitantes do museu em San Francisco. Nele há um díptico do “Molotov Man” e um trabalho descoberto, de um fotógrafo sem créditos, de um manifestante em uma postura semelhante, preparando-se para disparar o que parece ser uma saraivada de tiros de morteiro. Do outro lado, há uma nova imagem de Susan: um jovem, com o lenço cobrindo o rosto para ocultar a sua identidade, rabiscando algumas letras sobre um muro. 

“SOS”, está escrito em preto, e ele escreve em vermelho, “Las balas”. “É estranho montar algo tão histórico e ver que se tornou tão relevante hoje em dia”, disse a fotógrafa. “Estamos sempre vivendo história, só que pensamos que se trata da vida diária”.

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