Christophe Petit Tesson/EPA, via Shutterstock
Christophe Petit Tesson/EPA, via Shutterstock

França avalia repatriação de obras de arte do continente africano

Presidente francês, Emmanuel Macron sinalizou apoio para devolver objetos aos países africanos

Farah Nayeri, The New York Times

06 Dezembro 2018 | 06h00

PARIS - O Museu do Quai Branly em Paris tem cerca de 70 mil objetos procedentes da África subsaariana, inclusive  magníficas estátuas dos reis do Benin atual e delicadas pinturas que outrora decoravam as paredes de igrejas na Etiópia. Mas um relatório que estava sendo esperado há tempos, divulgado no dia 23 de novembro, poderá provocar um impacto dramático no que os visitantes veem aqui, com repercussões para outros museus internacionais.

O relatório foi encomendado em março pelo presidente Emmanuel Macron da França a dois acadêmicos que receberam a tarefa de esboçar propostas para a devolução de peças da herança cultural africana.

Os acadêmicos Bénédicte Savoy, da França, e Felwine Sarr, do Senegal, recomendaram que os objetos que  foram retirados e enviados para a França sem o consentimento dos respectivos países originários sejam devolvidos em caráter permanente - se os países de origem os solicitarem. Esta restituição deveria fazer parte de um processo de colaboração para pesquisa, intercâmbio científico e treinamento nos próximos cinco anos.

O relatório poderá ter consequências de grande alcance para os museus internacionais. Segundo o documento afirma, de 90 a 95% da herança cultural da África  é mantida fora da África por importantes museus. Somente a França tem pelo menos 90 mil objetos da África subsaariana.

“Não se trata, para nós ou para os nossos colegas africanos, de esvaziar os museus franceses ou europeus para encher os museus africanos”, afirmou Bénédicte Savoy. “Obviamente, não se trata de transferir os 70 mil objetos da África subsaariana que hoje se encontram nas coleções do Museu Quai Branly e que chegaram à França ao longo de um período de 150 anos”.

Ao contrário, Savoy disse, o objetivo é buscar um “reequilíbrio da geografia da herança africana no mundo, hoje extremamente desequilibrada, uma vez que os museus europeus têm quase tudo, e os museus africanos quase nada”.

O relatório recomenda a restituição de “todos os objetos levados pela força ou supostamente adquiridos a condições injustas” durante o período colonial na África, que durou do final do século 19 a 1960.

Em outras partes da Europa, os museus prestarão total atenção. O Museu Britânico de Londres tem cerca de 700 objetos do Reino do Benin, cujo território faz atualmente parte da Nigéria. Berlim espera encher o seu novo museu Fórum Humboldt com centenas de esculturas desse mesmo reino.

Ambas as instituições fazem parte de um consórcio de museus empenhados na devolução de alguns tesouros do Benin para a Nigéria na base de um empréstimo a longo prazo.

Macron levantou inicialmente a questão em novembro de 2017, quando falou a centenas de estudantes de Ouagadougou, a capital de Burkina Faso.

“Não posso aceitar que grande parte da herança cultural de vários países africanos deva estar na França”, afirmou. “A herança da África deve ser mostrada em Paris, mas também em Dakar, no Lagos em Cotonou. Esta será uma das minhas prioridades”.

Sarr disse que, ao contrário do que Macron declarou, todas as restituições precisam ter um caráter permanente.

“Estamos propondo uma solução que leve em conta a limitação do tempo das nações solicitantes”, afirmou, “de modo que não estamos impondo a elas a devolução de uma grande quantidade de objetos, mas queremos ter a garantia de que elas querem realmente a sua restituição, estão preparadas para isto e têm condições de organizá-la”.

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