Georges Gobet/Agence France-Presse - Getty Images
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França e vinho, uma combinação sagrada e polêmica

O governo francês iniciou campanha de conscientização sobre consumo excessivo de álcool, incluindo vinho, o que gerou incômodo na população

Adam Nossiter, The New York Times

08 de maio de 2019 | 06h00

PARIS - Recentemente, o governo francês deu início a uma campanha de conscientização sobre os perigos do consumo excessivo do álcool. No caso do vinho e de outras bebidas alcoólicas, afirmou: “para uma boa saúde, recomenda-se o consumo máximo de dois copos por dia, e não todos os dias”. Qual foi a resposta da França? A nação se fez de surda. A mídia francesa nem chegou a se preocupar em esboçar uma reação. Os produtores de vinho deste setor multibilionário em dólares zombaram. Os bares continuaram lotados de clientes.

E como poderia ser diferente em um país em que a relação com o vinho é tão íntima? Onde até a mercearia mais humilde da esquina tem uma garrafa decente de Bordeaux? E onde o jantar (e às vezes até o almoço) deixa de ser uma verdadeira refeição sem uma garrafa sobre a mesa?

Onde até o presidente Emmanuel Macron disse: “Eu tomo vinho no almoço e no jantar”, em uma grande feira anual da agricultura, no ano passado. E prosseguiu incisivo: “Não criem problemas para os franceses”, em um aceno a um dos seus antecessores, Georges Pompidou, que foi o primeiro a usá-la.

Outro antecessor, Pierre Mendès-France, nos anos 50, tentou promover o consumo de leite para substituir o vinho. O demagogo populista Pierre Poujade respondeu: “Presidente, suas palavras foram um golpe para cada francês”. Respeitados produtores de vinho insistiram que a agência de saúde pública, que agora afirma que 25% da população francesa ultrapassa os limites recomendados, mostra que não entende a questão fundamental. A agência alertou: o álcool é uma das principais causas de mortes que poderiam ser evitadas na França.

O vinho é o oposto da morte, retrucaram os produtores. Ele tem a ver com três elementos essenciais da vida francesa: liberdade, fraternidade e a busca do prazer. “Veja bem, nós concordamos com o aspecto da moderação, por outro lado, sempre temos a impressão de que há uma implicação com o vinho”, afirmou Maurin Bérenger, que produz vinho Cahors. “Limitá-lo é uma restrição da liberdade”.

Nos últimos 50 anos, o consumo de vinho francês declinou cerca de 50%, segundo o Vin et Société, consórcio de produtores do setor. A tradição secular do trabalhador que às 10 horas da manhã vai ao bar local para tomar o seu copo de vinho tinto, o petit rouge, hoje é muito menos observada. Mas um slogan de marketing anterior à guerra ainda capta a essência do vinho: “O vinho é um alimento sagrado que acende o fogo da alma francesa”.

Véronique Desfontaine, que produz um Borgonha, ficou pasma com a declaração da agência de saúde. “Os franceses costumam beber vinho porque, por exemplo, estão na companhia de amigos”, disse. E  ressaltou que o vinho francês é consumido na maior parte à mesa do jantar. “O vinho se toma à mesa, este é o modelo peculiar da cultura francesa”, afirmou a diretora geral da Vin et Société, Krystel Lepresle. “É um objeto cultural”.

O comentário de Krystel e Véronique foi muito educado; a cultura anglo-saxônica de beber para embebedar-se está muito menos presente na vida francesa. "O governo diz: ‘Não bebam’ , mas aqui nós falamos de outra categoria de pessoas”, continuou Krystel. Segundo ela, “os que apreciam vinhos de qualidade não serão influenciados por esta publicidade”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

 

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