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Dmitry Kostyukov/The New York Times
Dmitry Kostyukov/The New York Times

Na França, escassez de trabalhadores com a reabertura de hotéis e restaurantes

Setor hoteleiro e de restauração alerta para uma escassez de mão de obra no país mais visitado do mundo

Liz Alderman, The New York Times - Life/Style

26 de maio de 2021 | 05h00

PARIS – Durante seis meses, Christophe Thiriet aguardou a suspensão dos excruciantes lockdowns para reabrir seus hotéis e restaurantes num local pitoresco no leste da França e convocar seus 150 funcionários licenciados meses atrás.

Mas ao chamá-los para retornarem ao trabalho na reabertura das atividades em meados de maio, se deparou com uma dor de cabeça inesperada: pelo menos 30 disseram que não retornariam, o que o deixou na luta para contratar novos funcionários no momento em que precisava entrar em ação.

“Quando você fecha os estabelecimentos por um tempo tão longo, as pessoas pensam duas vezes se querem permanecer”, disse Thiriet, um dos administradores do Heintz Group, proprietário de 11 hotéis e três restaurantes na cidade ribeirinha de Metz, perto da fronteira com Luxemburgo.

Restaurantes e hotéis de todo o país enfrentam o mesmo problema. Depois de meses de licença, os trabalhadores vêm decidindo não retornar ao seu emprego no setor hoteleiro. É uma grande preocupação na França, que normalmente está na lista dos países mais visitados do mundo.

Uma escassez de cerca de 100 mil funcionários de restaurantes e hotéis, segundo os maiores grupos do setor, é particularmente preocupante porque centenas de milhares de pessoas estão à procura de trabalho depois de a França enfrentar sua pior recessão em décadas. Os empregadores dizem que é mais difícil atrair mão de obra num setor cujo futuro está mais ou menos preso aos caprichos do coronavírus e às incertezas das campanhas de vacinação.

Placas de “Precisa-se” são vistas nas janelas de hotéis e restaurantes pelo país.

O problema da falta de funcionários surgiu quando milhares de hotéis e restaurantes que sobreviveram à crise começaram sua luta para compensar a queda de 80% dos negócios desde o primeiro semestre do ano passado. Os lockdowns impostos por causa da covid-19 penalizaram o setor de turismo da França, pedra angular da economia, que contabilizou mais de 60 bilhões de euros de receitas perdidas no ano passado.

“Sabemos que não vamos ter clientes este verão europeu - este não é o problema”, disse Yann France, proprietário do La Flambée, restaurante de Deauville, uma cidade à beira-mar muito conhecida. “A questão é termos uma mão de obra adequada no momento em que precisamos para tentar compensar as enormes perdas”.

“Alguns afirmam que o problema talvez não seja tão grande, uma vez que os visitantes internacionais não estão vindo em grandes números para a França e as pessoas à procura de emprego, incluindo estudantes que precisam trabalhar para sobreviver, poderão eventualmente preencher a lacuna.

Mas outros afirmam que a precariedade dos negócios é o problema maior.

“O problema maior é a incerteza quanto ao futuro deste setor”, disse Thierry Gregoire, proprietário do NT Hotel Gallery Group, que possui cinco hotéis e três restaurantes em torno de Toulouse. “Os estabelecimentos permanecerão abertos ou haverá mais um fechamento por causa de um novo vírus?”.

No caso daqueles que já enfrentam a falta de mão de obra, está claro que o pacote generoso subsidiado pelo Estado para pagamento dos empregados licenciados, com o objetivo de ajudar os patrões franceses a manterem seu pessoal em standby, também gerou inconvenientes inesperados. Nos seis meses em que os empregados do setor hoteleiro receberam 85% dos seus salários para ficarem em casa, muitos tiveram bastante tempo para reavaliar o seu futuro.

“Muitas pessoas estão decidindo que têm outras coisas para fazer em vez de continuar numa profissão onde nada vem ocorrendo”, disse Thiriet, que também é um representante da maior federação hoteleira da França, Union des Métiers et des Industries de l’Hotellerie (UMIH)

Segundo ele, milhares de empregadores têm reportado as mesmas dificuldades com o recrutamento de pessoal.

Proprietários de cafés e restaurantes temem particularmente perder a mão de obra especializada e sazonal à medida que procuraram se equipar para enfrentar um aumento esperado de clientes neste mês.

O governo deve avaliar a cada 15 dias se a reabertura gradual nos setores hoteleiro, cultural, esportivo e atividades relacionadas, continuará ou terá de ser suspensa, dependendo da trajetória do vírus.

Como em Nova York, Londres e outras grandes cidades onde restrições estabelecidas pelos governos foram suspensas, os consumidores na França já estão prontos para gastar suas economias acumuladas nos prazeres gastronômicos e na joie de vivre, negados a eles durante muitos meses.

Os profissionais do turismo na França também esperam que a suspensão de uma interdição que durou um ano, salvo no caso de viagens essenciais, de turistas que vêm dos Estados Unidos para a União Europeia, bem na época das férias de verão, atrairá os americanos de volta depois de uma longa ausência.

As feiras de emprego que os patrões normalmente usam para preencher as vagas foram canceladas por causa do toque de recolher e da proibição de aglomerações, o que dificulta atrair candidatos para um setor que já se deparava com a falta de mão de obra antes mesmo da pandemia.

France, o proprietário do La Flambée, vem procurando um supervisor, um assistente de cozinha e um chef de partie, depois de alguns empregados responderem que não retornariam ao trabalho. Os restaurantes da região de Calvados, onde está o La Flambée, precisam preencher de três a quatro mil vagas e contratar funcionários sazonais para estarem prontos para um esperado aumento de clientes.

Os subsídios oferecidos pelo governo foram vitais para manter as empresas à tona. Mas não foram garantia de que os patrões conseguiriam manter seus funcionários mais qualificados.

Craig Carlson, dono do Breakfast in America, um restaurante popular de panquecas em Paris, disse que o programa de licenciamento subsidiado, embora essencial para a sobrevivência do restaurante, paradoxalmente colocou alguns dos seus funcionários com remuneração maior em desvantagem.

Enquanto os funcionários do setor de restauração que recebem um salário mínimo mensal de 1.539 euros, continuaram a receber integralmente o salário, cozinheiros e gerentes, que ganham mais, sofreram um corte de 15% na sua remuneração para ficarem em casa.

No caso de um gerente, casado e com dois filhos, com o salário reduzido “ele está realmente enfrentando dificuldades”, disse Carlson. Nos hotéis e restaurantes de Thiriet, em Metz, as 30 vagas inesperadas ainda não são um problema inquietante, uma vez que a reabertura dos estabelecimentos será por etapas e as reservas e o turismo não deve voltar aos níveis pré-pandemia rapidamente.

Mas, disse ele, é um problema substituir funcionários com anos, às vezes décadas, de experiência que decidiram não mais continuar na função. “No começo as pessoas acharam ótimo ter um ou dois meses de descanso em casa. Agora não conseguem visualizar o futuro a longo prazo do setor e algumas não estão muito seguras de que gostariam de continuar dentro dele”. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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