Andrea Mantovani / The New York Times
Andrea Mantovani / The New York Times

Imigrantes mantêm esperanças e habitam abrigos improvisados na França

Milhares de imigrantes estão em escolas abandonadas, conventos e até em florestas; país é o principal destino da Europa para requerentes de asilo

Norimitsu Onishi, The New York Times

20 de dezembro de 2019 | 06h00

Desde suas casas na África Ocidental, essas pessoas atravessaram desertos, mares e montanhas para chegar a Lyon, a maioria por nenhum motivo específico. O próximo ônibus estava indo para a cidade francesa, explicou um deles. Como terceiro maior município da França, Lyon não parecia tão intimidadora quanto Paris, disse outro. Um colega imigrante, amigo da Itália, enviou uma mensagem sobre um lugar para ficar, segundo narrado por outro.

 

Mas para Sidi Koné, o motivo foi o time de futebol do Lyon. Ele sempre foi um fã desde sua aldeia no Mali, agora invadida por extremistas islâmicos. A França, ex-governante da colônia, sempre pareceu quase como uma "família" - e "não injusta".

Dois anos depois, Koné, de 27 anos, está ocupando - com outros homens da África - uma escola desocupada que se tornou um caldeirão das esperanças, problemas e sentimentos complexos de sua terra em relação à França. Com o início do inverno, os imigrantes estão no limbo em uma cidade que deseja expulsá-los, um país que está perdendo a paciência e um continente que já a perdeu. “Mas minha mãe está feliz por eu estar aqui”, justificou disse Koné. "Lá é vida ou morte."

 

Milhares de imigrantes da África, Oriente Médio, Ásia e Europa Oriental estão agora em abrigos improvisados por toda a França, em escolas abandonadas, conventos, tendas e, no caso de centenas de tibetanos, em uma floresta perto de Paris.

A França recentemente ultrapassou a Alemanha como o principal destino da Europa para requerentes de asilo e está a caminho de receber um número recorde de solicitações este ano. O recorde, 124 mil, foi estabelecido no ano passado. As solicitações na França aumentaram mesmo quando o fluxo de imigrantes para a Europa diminuiu, desde que atingiu o pico em 2015.

Asilo

Nos últimos anos, a França aumentou as moradias disponíveis para requerentes de asilo. No entanto, em novembro, anunciou medidas mais rígidas, incluindo a restrição do acesso dos requerentes de asilo a cuidados de saúde não urgentes. O presidente Emmanuel Macron – de visão política centrista, que adotou um comportamento de direita em um movimento para assumir a questão da imigração de seu principal rival político, o partido Front Nacional, de extrema direita - disse recentemente a uma revista de direita que seu “objetivo é expulsar todos que não têm razão para estarem aqui."

Em Lyon, o governo metropolitano está recorrendo de uma recente decisão judicial que permite que os imigrantes permaneçam até setembro do próximo ano. Hoje, cerca de 450 jovens dormem na escola e administram as instalações - limpando e preparando o jantar com suprimentos da cidade.

A maioria é das ex-colônias da França na África Ocidental, embora exista uma minoria crescente das ex-colônias britânicas. Há tensões entre diferentes grupos étnicos, bem como entre anglófonos e francófonos. "Aprendi muito sobre os problemas da África por estar aqui", afirmou Ibrahim Koné, de 18 anos, líder imigrante do Mali não relacionado a Sidi Koné.

Abrigos improvisados

Tudo começou em setembro de 2018, quando Ghassen Zaghdoud, ativista habitacional em Lyon, viu em uma escola que havia fechado em 2013. Parecia perfeita para jovens imigrantes africanos dormindo em um parque.

Quando ele começou a ocupá-la com cerca de 50 africanos, disse que estava "agradavelmente surpreso" pela reação dos vizinhos. Em poucos dias, os “novos moradores” tinham comida, colchões e outras doações. Eles estavam em Croix-Rousse, um bairro montanhoso que já fora o local da indústria de tecelagem de seda da cidade. E que agora está gentrificado.

Para Sébastien Gervais, professor de matemática do ensino médio que se mudou para Croix-Rousse há duas décadas, a França tem a responsabilidade de cuidar dos ocupantes, especialmente porque são provenientes de antigas colônias onde os franceses ainda exercem grande influência econômica, política e militar. "Alguns deles dizem que estão aqui porque a França explora seus países", disse Gervais, "e acho que estão certos".

Para muitos imigrantes, a França pairava sobre eles uma presença inefável. "Foi o país que nos colonizou, mas eles têm esse lema - liberdade, igualdade e fraternidade - o que significa muito", lembrou Mamadou Sow, um guineense que cresceu na Costa do Marfim. "Eu pensei que o que eles não nos deram na África, eu encontraria aqui e é por isso que vim." E acrescentou: "Mas estou aqui e não vejo isso."

Alpha Sow, de 24 anos, gambiano sem parentesco, fez uma distinção entre uma nação e continente que não os desejava, e os habitantes de Lyon, que lhes deram panelas, os levaram a hospitais, providenciaram aulas de francês e ajudaram a marcar consultas.

“Eu não sei o que eles querem de nós, não sei o que eles querem fazer amanhã, por que eles estão vindo, eu não sei”, disse Sow. "Eles são bons e, se eu os vir, tudo o que posso dizer é: 'Obrigado, irmão, obrigado." / MÉLISSA GODIN CONTRIBUIU COM A REPORTAGEM 

TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

 

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