Kasia Strek para The New York Times
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Na França rural, as padarias estão desaparecendo

Centros comerciais estão atraindo clientes satisfeitos em fazer compras em supermercados

Norimitsu Onishi, The New York Times

17 de novembro de 2019 | 01h00

LA CHAPELLE-EN-JUGER, França - As luzes de dentro da padaria do vilarejo costumavam acender antes do amanhecer, mais ou menos uma hora antes do cheiro do pão assando se espalhar pelas casas da vizinhança. A porta da entrada logo começaria a ser ouvida, abrindo e fechando, em um ritmo tão previsível quando a vida no interior da França.

Mas tudo muda.

“Sem pão não há vida”, afirmou Gérard Vigot, diante da entrada de sua casa, do outro lado da rua da padaria agora fechada. “Este vilarejo está morto.”

Dois anos atrás, os 650 moradores de La Chapelle-en-Juger perderam sua padaria, o último estabelecimento comercial local onde eles podiam se encontrar e conversar enquanto esperavam na fila pela baguete do dia. Para a comunidade, o fechamento da padaria foi “um drama”, como um jornal definiu, ou uma tragédia, que está se repetindo em incontáveis vilarejos franceses.

Os jovens não se sentem mais atraídos pelas longas horas de trabalho de um padeiro. Centros comerciais estão atraindo clientes satisfeitos em fazer compras em supermercados. Os clientes não estão mais comendo tanto pão.

O desaparecimento das padarias tradicionais também veio simbolizar o declínio de uma rica convivência nos vilarejos.

La Chapelle-en-Juger fica no costeiro Departamento da Mancha. Desde o início da década, cerca de 50 padarias fecharam na Mancha, restando cerca de 370, e outras 20 deverão desaparecer no próximo ano, segundo a Câmara de Comércio e Ofícios local.

Máquinas de vendas automáticas apareceram, por vezes, em cidades onde padarias fecharam. Recentemente, na beira de uma estrada rural em La Vendelée, a filha de Vincent Lenoir saiu da minivan da família para comprar uma baguete de uma máquina que parecia uma cabine telefônica.

“É muito bom”, afirmou Lenoir sobre o sabor do pão. Mas o desaparecimento das padarias, ele acrescentou, está “matando nossos vilarejos”.

O número total de padarias na França está aumentando, especialmente nas grandes cidades. Mas padarias familiares tradicionais, em áreas rurais, estão desaparecendo rapidamente - às vezes a uma taxa de 4%, ou até mais, em um único ano.

Vigot, 71 anos, costumava atravessar a rua para ir à padaria. Agora, ele dirige até 4 quilômetros, até a cidade de Marigny-le-Lozon, onde ele sempre compra dois pães redondos e um pão de forma fatiado. Entre 30 e 40 moradores de La Chapelle-en-Juger passaram a comprar seu pão da padaria de Jeannot e Valérie Coleron, em Marigny-le-Lozon.

“Sempre adiciono um pequeno brie”, afirmou Vigot, referindo-se a um tradicional pão da Normandia, “e como, no caminho de volta, como se fosse um bolo”.

Quando o casal que tinha sido proprietário da padaria em La Chapelle-en-Juger fechou o estabelecimento, no fim de 2017, Nelly Villedieu, a prefeita, entrou em ação.

A municipalidade gastou € 130 mil, cerca de US$ 144 mil, para comprar o edifício. Agora, está considerando empréstimos de até € 40 mil para a compra de um forno usado e outros equipamentos, afirmou Nelly.

Sem ajuda pública, uma padaria não seria um negócio viável em um vilarejo tão pequeno, afirmou a prefeita. “É uma aposta para nós”, acrescentou ela. Mas é uma aposta que ela sentiu que tem de fazer. “Segundo o espírito francês, por um longo tempo, nós tínhamos que prover o pão”, afirmou Nelly a respeito das autoridades eleitas. / Melissa Godin colaborou com a reportagem. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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