William Widmer para The New York Times
William Widmer para The New York Times

O francês renasce no país cajun

Nos EUA, escolas bilíngues voltam a ser a tendência na educação

Richard Fausset, The New York Times

04 de outubro de 2019 | 06h00

MAMOU, Louisiana - No primeiro dia de aula, Alice Renard levou os seus alunos do terceiro grau para o pátio, falando com eles em uma língua que antigamente os escolares da Louisiana, nos EUA, eram obrigados a esquecer pela força. O francês parisiense da professora Alice Renard parecia ao mesmo tempo familiar e fora de lugar em um país cajun, como a voz de Edith Piaf  que saía de um clube zydeco (música folk da Louisiana dos falantes de creole).

Ela disse aos alunos que  estavam saindo “pour apprendre à travailler ensemble” - para aprender a trabalhar juntos - por meio de alguns jogos novos.

Alice, 27, pertence ao grupo de cerca de 65 professores franceses importados pela Louisiana, este ano, para ajudar a aumentar a sua lista cada vez longa de escolas bilíngues com o ensino do francês, no âmbito de um programa de recrutamento internacional adotado em 1972.

A maioria dos seus alunos tem sobrenomes creole ou cajun, e as férias de verão contribuíram para que a sua capacidade de falar ficasse um pouco enferrujada.

Mas como eles logo estavam brincando de pega-pega e chamando-se de acordo com as instruções da professora somente em francês, esta é uma pequena, mas importante vitória para os que temiam que o francês, tão simbólico na cultura do sul da Louisiana, estivesse morrendo.

No mês passado, mais do que nunca, foi bem maior o numero de estudantes americanos que começaram o seu primeiro dia de escola aprendendo  em outra língua, além do inglês. Robert Slater, pesquisador sênior dos American Councils for International Education, disse que, nos últimos anos, houve uma “explosão do crescimento” dos programas de aprendizado bilíngue,  inclusive em espanhol, russo e chinês mandarim.

O francês da Louisiana é o legado dos primeiros colonizadores e dos que chegaram posteriormente, entre eles os acadianos, os exilados do século 18 vindos do leste do Canadá, que se tornaram conhecidos como cajuns. Mas a língua foi praticamente extinta no início do século 20 por leis e costumes que estimulavam a assimilação com o universo de língua inglesa.

No final dos anos 90 e início dos 2000, alguns estados baniram a educação bilíngue. Pais desestimularam os filhos a aprender francês, por considerarem o inglês o melhor caminho para o sucesso econômico e social.

Mas veio o arrependimento e uma mudança de atitudes. Em 1968, o estado criou o Council for the Development of French na Louisiana, na tentativa de promover e preservar a língua. Mas o declínio continuou. Dados do censo mostram que, em 1990, o estado tinha 250 mil francófono, e apenas cerca de 100 mil em 2013.

O Evangeline Parish School District adotou o modelo de escolas com o ensino em uma língua estrangeira, e, em 2017, começou a receber professores de vários países.

Neste ano letivo, a Escola Elementar de Mamou tem a professora Renard. Ela admitiu que não estava preparada para lecionar o dialeto cajun francês, com o qual tinha apenas uma leve familiaridade. Mas estava preparada de outras maneiras. De fato, passou os últimos cinco anos nas salas de aula dos bairros da periferia de Paris, em geral lecionando para os filhos de imigrantes.

Ethan Harris, 8, é um dos três alunos afro-americanos da classe. Sua mãe, Nekol Henderson, 38, conta que a tradição de várias gerações de sua família havia se enfraquecido na época em que ela nasceu. “Eu sentava com os mais velhos e eles conversavam, mas não entendia o que falavam”.

Darwan Lazard, o superintendente da escola Evangeline Parish, disse que  sua avó afro-americana falava o francês creole. “Ainda podemos ser patriotas americanos maravilhosos, leais, sem apagar as nossas origens culturais”, afirmou.

Com a ênfase nos testes padronizados do estado, a professora Renard teme ser obrigada a seguir as rígidas diretrizes e perder de vista o que ela ama na sua profissão - ensinar as ferramentas para pensar de maneira livre, as ferramentas que permitirão que os seus alunos “se tornem intelectuais”, ela disse

Alice Renard, como a maioria dos professores, terminou o primeiro dia de aula exausta. Na manhã seguinte, ela estava de volta a postos orientando os alunos no Juramento à Bandeira: “J’engage ma fidélité au drapeau des Etats-Unis, et à la republique qu’il represente...” / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.