Brendan Hoffman para The New York Times
Brendan Hoffman para The New York Times

Fraude fiscal nos EUA passa por salão de beleza na Ucrânia

Um cabeleireiro descobriu que sua identidade havia sido roubada ao receber uma cobrança de US$ 30 milhões em impostos

Andrew E. Kramer, The New York Times

28 Setembro 2018 | 15h00

KIEV, UCRÂNIA - À primeira vista, o que ocorreu com Yevgeny G. Kaseyev não poderia ser chamado de azar. Ele diz que, sem o seu conhecimento, pessoas desconhecidas criaram várias companhias em seu nome e depositaram dezenas de milhões de dólares nas contas bancárias dessas empresas.

“Às vezes acho graça", disse o cabeleireiro Kaseyev, de 34 anos, dando de ombros. “Secretamente, sou um milionário”. Até as autoridades baterem na sua porta, exigindo US$ 30 milhões em impostos devidos.

Uma das pessoas que fez negócios com uma empresa aberta no nome de Kaseyev não significava nada para ele. Mas o nome chamou a atenção dos investigadores americanos: Paul J. Manafort.

Manafort, que trabalhou por dez anos como consultor político na Ucrânia, antes de se tornar presidente da campanha de Trump em 2016, fez um negócio de centenas de milhares de dólares com uma empresa de fachada aberta no nome do cabeleireiro, chamada Neocom Systems Limited.

Este é apenas um exemplo do tipo de operação financeira complexa que chamou a atenção do investigador especial Robert S. Mueller III, encarregado de apurar o envolvimento russo nas eleições presidenciais americanas, e levou às recentes condenações criminais de Manafort.

Analisando a evasão fiscal de Manafort, os investigadores de Mueller encontraram uma rede de empresas estrangeiras, algumas das quais com diretores que, como Kaseyev, nem imaginavam que suas identidades estavam sendo usadas.

Em agosto, Manafort foi condenado em oito acusações de fraude financeira e evasão fiscal no valor de milhões de dólares recebidos em troca de seus serviços como consultor de forças políticas pró-russas na Ucrânia. Ele evitou um segundo julgamento federal ao se declarar culpado de conspiração para fraudar os EUA e conspiração para obstruir a justiça.

O uso de empresas de fachada e diretores falsos para ocultar e lavar dinheiro é uma forma comum de subterfúgio nos antigos países soviéticos, mas não se restringe a eles, disseram analistas da corrupção na Ucrânia.

Às vezes, os diretores são advogados ou vítimas de roubo de identidade, disse Daria Kalenyuk, diretora do Centro de Combate à Corrupção daqui. Mas, geralmente, “trata-se de pessoas que têm problemas de saúde ou com o alcoolismo, que simplesmente vendem seus passaportes por cerca de 20 dólares".

Um dos riscos envolvidos nesse esquema é o dos diretores falsos tentarem ficar com o dinheiro que é guardado em seu nome. Mas Daria não se lembrou de nenhum caso desse tipo.

“Na maioria dos casos, eles não sabem como fazê-lo", acrescentou ela. “E, mesmo que soubessem, é arriscado tentar assumir o controle de uma empresa ligada a um empresário poderoso envolvido em corrupção.”

Em 2009, Manafort assinou um recibo de 750 mil dólares endereçado a Kaseyev na capacidade de diretor da Neocom Systems. Kaseyev só ficou sabendo disso quando o recibo foi divulgado publicamente em 2017 por um legislador ucraniano.

Kaseyev disse que tomou conhecimento do seu papel de intermediário na criação de pelo menos três empresas de fachada quando a polícia o procurou em 2007 com uma conta de aproximadamente 30 milhões de dólares em impostos devidos por parte da Regional Insurance Union, empresa da qual ele nunca tinha ouvido falar. Seu passaporte tinha sido roubado no ano anterior.

Kaseyev disse que logo conseguiu convencer a polícia a respeito do roubo de sua identidade. Mas as empresas continuaram sendo usadas em negócios, e uma delas, April Limited, ainda aparece como aberta, de acordo com registros corporativos.

Não foi a primeira vez que a Neocom Systems aparece envolvida numa investigação de corrupção. Num caso de lavagem de dinheiro e fraude do mercado de ações em 2012 no Quirguistão, o banco central do país a citou como empresa de fachada usada para pagamentos feitos pelo Asia Universal Bank, confiscado por autoridades quirguizes em meio a alegações de lavagem de dinheiro.

Não se sabe ao certo quanto dinheiro passou pela empresa ou por outras abertas no nome de Kaseyev.

Ele agora passa os dias trabalhando num salão de beleza em Kiev pelo equivalente a cerca de 8 dólares por corte de cabelo. Também tem certificado de colorista.

Ele disse que a melhor parte do seu dia é ver o “novo olhar de autoconfiança” dos fregueses ao saírem da cadeira, examinando sua nova aparência.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.