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Como ‘Friends’ ajuda pessoas no mundo todo a aprender inglês

Professores da língua dizem que o programa é um amálgama quase perfeita de inglês fácil de entender e cenas da vida real que parecem familiares, mesmo para pessoas que vivem mundos distantes de West Village

Mike Ives, The New York Times - Life/Style, O Estado de S.Paulo

11 de julho de 2021 | 05h00

Verdadeiro ou falso: no programa de televisão Friends, Monica Geller foi convidada para o casamento de Rachel Green.

A pergunta faz parte de uma aula de inglês para estudantes internacionais, em San Jose, Califórnia, que se baseia inteiramente no episódio piloto do programa. O método foi criado por Elif Koms, uma professora da Turquia que, em certa ocasião, assistiu de uma tacada só a Friends para melhorar o seu inglês.

A aula, e os hábitos de TV da professora, ilustram um fenômeno internacional surgido nos anos 1990 e que tem resistido através de gerações. Jovens que não têm o inglês como língua nativa aparentemente gostam de aprendê-lo com a ajuda das comédias de sucesso.

Dezessete anos depois do episódio final de Friends, estudantes e educadores afirmam que o programa, ainda amplamente assistido no mundo todo, funciona muito bem como recurso de aprendizado. Os jeans de pai e os telefones sem fio podem parecer datados, mas as reviravoltas do enredo - apaixonar-se, começar uma carreira e outros momentos importantes na vida de um jovem - ainda são perfeitamente atuais.

“É realmente divertido, em comparação com outras comédias, e aborda questões universais”, disse Konus, 29, por telefone de sua casa em Monterey, Califórnia. “Os temas, se me perguntar, falam a todas as pessoas”.

Ao longo dos anos, várias celebridades de destaque disseram que  aprenderam inglês  com Friends. A lista inclui Jürgen Klopp, o treinador de futebol alemão que dirige o Liverpool na Premier League inglesa; vários jogadores de beisebol da Major League Baseball, cuja língua mãe é o espanhol; e Kim Nam-joon, líder  do grupo pop sul-coreano BTS.

“Eu me sentia uma espécie de vítima na época, mas agora, tenho muita sorte, graças a minha mãe”, disse Kim que se apresenta com o nome artístico de RM, à âncora de televisão Ellen DeGeneres em 2017. “Ela comprou todas as temporadas”.

O episódio da reunião de Friends, que estreou em junho na HBO Max, incluiu uma pequena apresentação de membros da BTS e cenas do programa que foram traduzidas para francês, japonês e espanhol. Fãs do mundo inteiro, de Gana ao México, também lembraram que o programa os ajudou a enfrentar dilemas ou tragédias pessoais.

Avaliar a popularidade de Friends como recurso de ensino é uma ciência inexata porque muitas pessoas assistem ao programa fora das salas de aula formais. Mas educadores, estudos acadêmicos e dados sobre as visualizações  sugerem que o programa ainda tem um amplo exército de seguidores entre pessoas que estão aprendendo a língua inglesa.

"Estou no YouTube há 13 anos, não postei conteúdo de Friends o tempo todo", disse Rachel Smith, fundadora do site de aprendizado Rachel’s English, na Filadélfia. “Mas definitivamente nunca percebi que o tempo para isso havia passado”.

Em um possível sinal de que, Friends - vídeos didáticos baseados em Friends que Rachel postou em 2019 receberam significativamente mais visualizações em média por dia - 839 - do que os que exibem outros programas ou filmes", afirmou. Depois dos Estados Unidos, os mercados mais populares para os seus vídeos como um todo são Vietnã, Índia, Brasil, Japão, Filipinas e Coreia do Sul.

Outros programas importantes da TV americana atendem a uma função didática semelhante, disse Rachel. Mas costumam ser demasiado peculiares para os falantes não nativos de inglês. O humor em Seinfeld é um pouco arrogante demais e específico de Nova York, por exemplo, enquanto The Big Bang Theory poderia soar demais como uma "coisa científica de nerd”.

“Outros programas funcionam”, ela disse. “Friends parece ter algo mágico que o torna ainda mais atraente”.

Fãs e educadores de três continentes ecoam o sentimento, e afirmam que Friends é um amálgama quase perfeita de inglês fácil de entender e cenas da vida real que parecem familiares até para pessoas que vivem a mundos de distância do West Village de Manhattan.

Alguns fãs dizem que poderiam indicar precisamente quando e onde viram Friends pela primeira vez.

Konus ensinava inglês em uma academia militar em Ancara, na Turquia, há seis anos quando notou que a sua colega de quarto ria assistindo a Friends em um laptop. Konus começou a ver o programa “sem parar”, ela disse, e aprendeu muito mais sobre a língua inglesa do que ela aprendera em anos de aulas de gramática.

Jamie Ouyang, 30, descobriu o programa durante o seu último ano de ensino médio, na região centro-sul da China, quando comprou um box de DVDs em sua cidade natal, Changsha, por cerca de $15. Ela se apaixonou desde o primeiro episódio, em que Rachel, interpretada por Jennifer Aniston, conhece os outros personagens de vestido de noiva, depois de abandonar o noivo no altar.

Ouyang, que fez faculdade em Ohio e agora trabalha como produtora cinematográfica em Pequim, disse que Friends lhe deu a confiança de conversar sobre coisas banais com americanos. Foi reconfortante, acrescentou, ver que Rachel cometia erros de gramática em seu currículo.

“Mas Rachel também cresceu bastante: ela se saiu bem em seu emprego e achou o seu proprio caminho”, disse Ouyang. “Com o tempo, percebi que as pessoas deixaram de provocá-la por causa  da sua gramática. Eu prestei muita atenção a isso.”     .

Friends talvez esteja durando como ferramenta didática em parte porque a Internet o tornou acessível às novas gerações de fãs. O YouTube, em particular, permite que os falantes não nativos assistam a clips sem precisar, digamos, comprar DVDs piratas embaixo de uma ponte, como Ouyang fazia na China, há 12 anos.

Outro motivo, segundo Angela Larrea Espinar, professora no departamento de estudos de inglês na Universidade de Córdoba, na Espanha, é que as pessoas que ensinam uma língua estrangeira mudaram gradativamente nos últimos 20 anos, de uma abordagem “comunicativa”,  que enfatiza a gramática, para outra que encoraja  a compreensão e a reflexão inetercultural.

“Cultura  é uma coisa  difícil  de ensinar, e se você depende dos livros didáticos o que você aprende são estereótipos”, afirmou.

Para evitar a armadilha dos livros didáticos, Konus, a professora de inglês, na Califórnia, formulou planos de aula em torno do episódio piloto da sitcom de 1994. Além da questão se Mônica, interpretada por Courtney Cox, foi convidada para o casamento de Rachel (resposta: falso), há exercícios que pedem aos estudantes que analisem cenas, expressões idiomáticas e as motivações dos personagens.

Por que, por exemplo, Rachel respira em um saco de papel? E o que quer dizer Monica quando diz a Joey Tribbiani, interpretado por Matt LeBlanc, para "parar de dar em cima de sua amiga? (Respostas: “Ela está apavorada por sua decisão de ir morar sozinha”, e “começar uma conversa com alguém em quem você está interessada”.)

Depois de uma aula, uma estudante turca observou que o inglês da professora não parecia muito nativo, mas também “não turco”. Konus disse que tomou o comentário como um grande elogio.

Como, perguntou a estudante, eu poderia esperar alcançar o mesmo nível de proficiência em inglês?

“Apenas assista a ‘Friends’ e tente  imitar os personagens,” disse Konus, “Você vai chegar lá”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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