John Taggart para The New York Times
John Taggart para The New York Times

Frustrada com a música popular, cantora japonesa muda para o gospel

“Cantando o gospel, canto com o coração”, disse TiA, 30, cujo nome verdadeiro é Tomoka Takayama, após trocar o Japão por um coral no Harlem

James Barron, The New York Times

10 Junho 2018 | 10h45

TiA, cantora de música popular no Japão, conseguiu um contrato de gravação quando tinha 16 anos. Lançou um single e um álbum aos 17 anos, e outro single aos 18. Mas então começou a sentir-se esgotada, e ao chegar aos 27, abandonou a música.

Mudou-se para Manhattan, com a intenção de procurar alguma coisa para fazer que não envolvesse música, e alugou um apartamento em um edifício de tijolinhos marrom do Harlem, do lado de uma igreja.

Através da parede, a cantora - que usa profissionalmente apenas um nome curioso TiA, como no Japão - ouvia o coral gospel de 12 vozes ensaiando durante a semana e cantando no serviço religioso, aos domingos. Com o apoio de uma guitarra elétrica, teclado e bateria, a música transmitia-lhe uma exuberante exaltação.

O efeito era magnético. Um dia, ela entrou na igreja e pediu para fazer parte do coral, embora nunca tivesse cantado uma nota de gospel.

Isto foi há dois anos. Seu estilo se tornou tão apurado que recentemente participou de uma competição de música gospel em Nova Jersey.

“Quando canto gospel, canto com o coração”, disse a cantora de 30 anos, que se chama Tomoka Takayama. “Quando cantava como estrela da música popular, tinha de fingir que eu era um modelo. Com o gospel, é uma coisa natural. Gosto da música”.

Há muito existe uma relação entre o Japão e a música gospel. A. Curtis Farrow, que criou a competição de Nova Jersey nos anos 80, disse que cerca de 15% dos 11 mil cantores que fizeram o teste eram japoneses ou coreanos.

“O gospel como forma de arte passou esta imagem de música exclusiva da comunidade negra,” ele disse. “Mas atualmente há muitas pessoas diferentes que se dedicam a ela e é por isso que é inclusiva”.

E acrescentou “Deus é global, e consequentemente, precisamos ser globais”.

São numerosos os turistas japoneses que visitam o Harlem há anos, entre eles cantores atraídos pela música gospel negra. Eles costumam cantarolar junto, bater palmas acompanhando o canto com movimentos do corpo, embora em geral não compartilhem da crença religiosa dos cantores que eles imitam.

“Ela pegou porque vai direto para a nossa alma”, disse Vy Higginsen, que com o marido, Ken Wydro, escreveu o libreto e a letra do musical repleto de gospel “Mama, I Want to Sing”.

“A música afro-americana, principalmente, penetra a mente e as emoções, a inteligência e o amor”, afirmou Vy. “Não importam as crenças religiosas das pessoas”.

TiA não sabia disso quando entrou na New Hope Community Church, mas o ministro, o reverendo Terrance L. Kennedy, dirige oficinas de canto gospel no Japão desde os anos 90. O caminho foi aberto por grandes intérpretes deste gênero: Mahalia Jackson excursionou pelo Japão e 1971; “Mama, I Want to Sing” foi exibido em 11 cidades japonesas nos anos 80.

TiA nasceu em Yokohama, ao sul de Tóquio, e se desiludiu com a vida de cantora quando tinha cerca de 25 anos. “Todo mundo dizia para ela: ‘Venda mais CDs’,” contou Kohei, outro artista japonês que se apresenta com TiA e também usa apenas um nome, e que traduziu a fala da cantora quando ela passou a falar japonês na entrevista. “Era uma pressão excessiva. Isto não é arte. Ela disse: ‘Esta não sou eu’”.

Abandonou tudo depois de um concerto em 2014. Pegou um avião e foi para Nova York sem nenhuma razão particular. “Poderia ter sido a Espanha. Ou mesmo o Brasil”, afirmou.

Voltou para o Japão depois de uma semana, mas retornou para sempre e mudou-se para o apartamento no Harlem.

“Ela não ia cantar”, disse Kohi. “Não estava aqui para cantar. Mas o  seu apartamento ficava ao lado da igreja. As paredes vibravam”.

O som possante da música fez com que ela recomeçasse a cantar, mas não os arranjos poderosos do coral. “Ela não sabia ao certo se seria correto cantar gospel porque não é religiosa”, disse Kohei.

TiA foi uma dádiva para Kennedy: Ela tinha uma maneira muito forte de cantar que vinha lá do fundo da alma, entre as batidas dos ritmos. “TiA consegue criar muitos sons”, ele explicou.

Kennedy e o coral planejam excursionar pelo Japão perto do fim do ano. Ela irá com o grupo, não apenas como cantora, mas como membro da igreja - enquanto estiver lá, Kennedy anunciou que irá batizá-la.

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