Ilana Panich-Linsman para The New York Times
Ilana Panich-Linsman para The New York Times

Fugindo da violência, imigrantes africanos buscam abrigo nos EUA

Desde outubro de 2018, mas de 700 imigrantes da África foram detidos nas proximidades da fronteira entre o México e o Texas; entre 2007 e 2018, foram apenas 25

Manny Fernandez, The New York Times

26 de junho de 2019 | 06h00

SAN ANTONIO, TEXAS - Faz meses que um centro de serviços para imigrantes no centro de San Antonio está lotado de famílias da américa Central que cruzaram a fronteira em número recorde. Mas, recentemente, centenas de imigrantes de outra parte do mundo levaram as autoridades municipais a reagir rapidamente.

Homens, mulheres e crianças da África Central - principalmente da República Democrática do Congo e de Angola - chegam à fronteira sudoeste dos Estados Unidos após uma perigosa jornada de meses. Sua chegada na fronteira e a duas cidades separadas por uma distância de aproximadamente 3.400 quilômetros - San Antonio e Portland, no Maine - deixou perplexas as autoridades de imigração e sobrecarregadas as autoridades locais e as organizações sem fins lucrativos. A onda levou Portland a transformar seu ginásio de basquete em um abrigo de emergência.

Em San Antonio, o Centro de Recursos para Imigrantes, administrado pelo município, prestou auxílio a cerca de 300 imigrantes africanos nas duas primeiras semanas de junho. Desde outubro de 2018, mais de 700 imigrantes da África foram detidos pela Patrulha da Fronteira no setor Del Rio, trecho essencialmente rural da fronteira texana. Entre os anos fiscais de 2007 e 2018, foram detidos 25 imigrantes do Congo e de Angola na fronteira. 

Em San Antonio e em Portland, representantes eleitos, voluntários e lideranças religiosas e do terceiro setor uniram forças para ajudar os imigrantes, doando dinheiro, oferecendo refeições gratuitas e ajudando no funcionamento dos albergues noturnos. Mas seus recursos já estavam no limite, e houve frustração diante da reação do governo à onda de imigração.

Muitos solicitantes de asilo centro-africanos combinaram de viajar de avião ou ônibus para se reunir com parentes que já vivem nos EUA assim que forem liberados. Mas alguns imigrantes africanos não têm parentes no país e, assim, são liberados sem qualquer solução para o deslocamento interno, um problema que as autoridades locais e as organizações sem fins lucrativos são obrigadas a solucionar.

Em Portland, onde a população é de 66.417 habitantes, cerca de 200 imigrantes africanos estavam dormindo em colchonetes no chão do ginásio em uma noite recente. A cidade construiu para si a reputação de receber bem os solicitantes de asilo, com um fundo criado para oferecer o pagamento de aluguéis e outras formas de assistência.

"Não considero a situação uma crise, no sentido de ter efeitos negativos para nossa cidade", disse Ethan K. Strimling, prefeito de Portland. "No Maine em geral, e principalmente em Portland, tudo é construído por braços imigrantes há 200 anos, e essa é apenas a onda mais recente a chegar".

As autoridades de San Antonio disseram ter enviado cerca de 150 dos aproximadamente 300 imigrantes africanos da cidade para Portland. Os demais viajaram para Chicago, Dallas, Denver, Nova York, e cidades na Flórida e em Iowa.

No dia 14 de junho, o centro de imigrantes da cidade estava cheio, com algo em torno de cem imigrantes, dos quais ao menos 30 eram do Congo e de Angola, e o restante da América Central. Os congoleses viajaram para Angola, país vizinho, e de lá pegaram um avião até o Equador. Dali, viajaram de ônibus e a pé por Colômbia, Panamá, Costa Rica, Nicarágua, Honduras, Guatemala e México até chegar à fronteira no sul do Texas.

Uma congolesa chorou ao contar que a filha de 5 anos adoeceu e morreu em um ônibus. "É difícil demais contar minha história".

Um homem de 41 anos vindo da capital do Congo, Kinshasa, que pediu para ser identificado apenas pelo nome, Alain, disse ter fugido porque denunciava assassinatos cometidos pelo governo. "Agora, não posso voltar", disse ele. "Do contrário, eles me matam".

Outra congolesa, Gisele Nzenza Kitandi, 44 anos, disse entre lágrimas ter sido estuprada na selva na fronteira entre Panamá e Colômbia. Afirmou não ter dinheiro para passagens de ônibus para si e para os filhos.

A médica Colleen Bridger, funcionária municipal, disse que San Antonio encontraria um modo de oferecer aos africanos os serviços e transportes de que eles necessitavam. Nos últimos meses, a cidade e as organizações sem fins lucrativos já gastaram mais de US$ 600 mil na assistência a imigrantes.

"Não temos a opção de dizer a pessoas que acabaram de chegar aos EUA que elas não são nosso problema e podem dormir no banco do parque até conseguirem dinheiro para comprar comida e passagens de ônibus para os filhos", disse Colleen. "Não é assim que agimos em San Antonio". / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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