Josh Haner para The New York Times
Josh Haner para The New York Times

Fugir da Califórnia? Nem pelo fogo, nem pelo calor político

Em defesa do estado que sempre foi visto como os Estados Unidos de amanhã

John Branch, The New York Times

12 Dezembro 2018 | 06h00

NOVATO, CALIFÓRNIA - Fazia cerca de 30 graus Celsius naquela tarde, mas em uma estação de descanso na Interstate 5, nas montanhas do norte da Califórnia, nevava flocos de cinza sobre minha caminhonete. O furacão nas proximidades era bem pior do que qualquer um poderia imaginar, mas nossa imaginação ainda não tinha chegado em novembro.

Isso foi em agosto, muito antes de termos perdido a região de Paradise e boa parte de Malibu, antes que os infernos escaldantes de todos os lados de um estado sitiado iluminassem as telas do mundo inteiro. Moro na área da baía de São Francisco, longe dos incêndios, mas algo sempre faz com que eu me lembre deles. Meu bairro desliza por colinas escarpadas de grama e árvores secas, um terreno não muito diferente do que vimos queimando na televisão.

Foi o Twitter que trouxe a primeira mensagem do presidente Donald Trump sobre os incêndios, na qual ele culpava a “má gestão das florestas” pela crise. Gostando ou não, a Califórnia representa um embaraço para aquelas pessoas que se preocupam com a possibilidade de o estado prenunciar o futuro do país, como sempre aconteceu.

Sempre nos disseram que o estado era uma terra cara demais, cheia de regras, de imigrantes delinquentes e de restaurantes esnobes. E agora, depois da eleição, olhe só para a Califórnia: queimada nas duas pontas, palco de um recente assassinato em massa inexplicável, um lugar com pobreza extrema e custo de vida astronômico, todo mundo só esperando pelo grande terremoto.

Engraçado, penso comigo mesmo toda vez que ouço alguém falando mal da Califórnia. Eu vivo aqui por escolha. Não criaria meus filhos em nenhum outro lugar. Tenho orgulho de dizer que sou da Califórnia, um lugar lindo e bagunçado, diferente de qualquer outro, num momento diferente de qualquer outro.

Um em cada oito americanos vive na Califórnia. Se fosse um país, seria a quinta maior economia do mundo. É o estado mais diversificado do país, por questões de geografia, economia, cultura e demografia. Sempre lançando tendências, a Califórnia hoje é os Estados Unidos de amanhã - e agora se sente pronta para usar seu poder para neutralizar as forças da Casa Branca, a cerca de 4.800 quilômetros de distância.

A Califórnia já entrou com processos contra a administração Trump 44 vezes, em temas que envolvem imigração, assistência médica, muro da fronteira e padrões de eficiência para combustíveis veiculares. E o governo processou a Califórnia três vezes, em causas que incluem neutralidade de rede e jurisdições locais.

Escolha um lado: ou a Califórnia representa uma ameaça, ou representa um ideal. A questão é bem mais complexa para as 40 milhões de pessoas que moram aqui. É mais um paradoxo que um paraíso. A vida seria mais simples em outro lugar. Aqui, sofro com o trânsito cada vez pior. Fico horrorizado com os níveis de falta de moradia. Desapontado com as escolas públicas.

Comprei minha casa seis anos atrás e jamais conseguiria pagar por seu valor de mercado hoje. Fico preocupado por estar criando meus filhos em um lugar que sempre será caro demais para seus recursos. Algumas pessoas já disseram "chega", mas a maioria de nós continua animada. É empolgante estar na linha de frente de muitos dos maiores problemas deste país - mudanças climáticas e energia, disparidade econômica e infraestrutura, raça e imigração.

Em um fim de semana desses, atravessei a fronteira norte com o Oregon e, até a noite de domingo, dirigi por mais de 1.600 quilômetros, todos na Califórnia. Viajei até Crescent City, na costa norte, e San Diego, no sul. Estive em Sacramento, Fresno, Bakersfield e Tehachapi, em diferentes viagens. Fui a dois parques nacionais (Yosemite e Redwoods), quase 800 quilômetros entre um e outro.

Aqui pode estar a frase mais californiana de todas: a única razão pela qual cancelamos nossas reservas no acampamento do Parque Nacional Vulcânico Lassen, em outubro, foi que meu filho tinha um horário marcado no Departamento de Veículos Motorizados, e a próxima data disponível seria este mês.

Todas essas excursões aconteceram enquanto a Califórnia fervia. Isso mudou meu jeito de ver as coisas ao redor. O que a Califórnia representará quando a fumaça se dissipar? O chamado incêndio Tubbs foi apenas um dos vários que eclodiram em cantos menos conhecidos da região.

Meu sogro e sua esposa, ambos na faixa dos 80 anos, ficaram em nossa casa por dez dias enquanto os incêndios ardiam em manchas descontroladas em volta da casa deles. A casa deles sobreviveu. As sequoias litorâneas das profundezas dos cânions, também. A sequoia é naturalmente resistente ao fogo, o que explica como algumas conseguiram viver por 2 mil anos e crescer a mais de cem metros de altura. É a árvore símbolo do estado, o que parece bem apropriado.

Choveu em minha casa no início de outubro, pela primeira vez desde maio, e as colinas marrons onde corro no meu tempo livre logo revelaram um toque de vegetação rasteira. Na Califórnia, a grama fica mais verde no inverno. Eu sempre achei que era uma metáfora apropriada. Agora mais do que nunca.

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