João Araújo
João Araújo

Depois que esse fungo transforma formigas em zumbis, seus corpos explodem

O fungo, chamado Ophiocordyceps, se alimenta da formiga e se multiplica em novas células no interior dela. Mas a formiga continua viva, buscando alimento para levar ao seu ninho

Carl Zimmer, The New York Times

05 de novembro de 2019 | 06h00

No mês passado, uma equipe de pesquisadores divulgou uma nova e importante descoberta sobre a origem dos zumbis - nesse caso, formigas que um fungo transforma em zumbis. Às vezes, uma formiga que está cuidando da vida fora do formigueiro, pisa no esporo de um fungo. Ele adere ao corpo da vítima e introduz uma célula fúngica no seu interior.

O fungo, chamado Ophiocordyceps, se alimenta da formiga e se multiplica em novas células no interior dela. Mas a formiga continua viva, buscando alimento para levar ao seu ninho. Enquanto isso, o fungo vai se desenvolvendo até ocupar cerca de 50% da massa corporal da formiga.

Quando o Ophiocordyceps acaba de alimentar-se de sua hospedeira, as células fúngicas se unem no corpo da formiga. Elas criam uma espécie de tapete e expelem projeções como agulhas nas células dos músculos da formiga. As células fúngicas enviam sinais ao cérebro da formiga, fazendo a hospedeira sair do ninho e subir em uma árvore próxima.

Nos trópicos, onde vivem muitas espécies de Ophiocordyceps, o fungo dirige a formiga para cima, até uma folha acima do solo. A formiga morde, suas mandíbulas se travam e ela morre. O fungo expele filamentos viscosos que  colam o corpo à folha, e da cabeça da formiga explode então um pedúnculo gigante, que espalha esporos nas trilhas das formigas embaixo dela.

“As formigas se movem em um campo minado”, disse David Hughes, especialista da Universidade Estadual da Pensilvânia. Alguns naturalistas publicaram os primeiros relatos sobre os Ophiocordyceps há mais de um século. Mas foi somente nos últimos anos que os pesquisadores investigaram como estes fungos se dedicam a criar formigas zumbi.

Em 2010, Hughes e seus colegas identificaram um fóssil de 48 milhões de anos de uma formiga zumbi mortalmente presa a uma folha. O fóssil demonstrou que os fungos zumbificadores existem há muito tempo. Mas isto não deu nenhuma indicação de como o fungo evoluiu desde os seus ancestrais comuns.

Em 2013, um dos alunos de pós-graduação de Hughes, João Araújo, começou a fazer o sequenciamento do DNA dos fungos em coleções científicas. Também realizou expedições por conta própria, durante as quais virava as folhas em busca de formiga zumbis. Quando eram de espécies que nunca havia visto antes, ele as fotografava e as levava para casa.

Hoje, sabemos que existem pelo menos 28 espécies destes fungos e não apenas uma. Cada uma delas zumbifica uma espécie diferente de formiga ou ataca outros insetos. As espécies pertencem a um grupo muito mais amplo de fungos. Muitos dos seus parentes se alimentam de plantas mortas, e alguns infectam insetos - principalmente um grupo chamado hemipterans, que inclui afídios e cigarras.

Araújo, atualmente pesquisador da Universidade das Ryukyus no Japão, analisou o DNA de mais de 600 destas espécies da mesma família. Comparando as sequências genéticas, ele pôde traçar uma árvore genealógica fúngica. A árvore revelou que todas as espécies de Ophiocordyceps descendem de um ancestral comum. Mas este ancestral não infectou um hemipteran. Ao contrário, concluíram os cientistas, ele começou infestando larvas de besouros.

Os besouros infectados pelos fungos vivem em troncos apodrecidos. Quando os seus ovos eclodem, as larvas se espalham no interior do tronco, roendo a madeira. Se uma larva entra em contato com um esporo, ele invade o corpo do inseto e se alimenta dos seus músculos. O besouro morre sem tornar-se um zumbi.

O fungo produz o seu pedúnculo e espalha esporos ao redor do corpo morto. Outras larvas que penetram no interior do tronco também são infectadas. Araújo e Hughes levantaram a hipótese de que, há milhões de anos, os fungos às vezes eram apanhados por formigas que também viviam nos troncos. Nas formigas, suas novas hospedeiras, os fungos já tinham a capacidade de se alimentar dos músculos, produziam pedúnculos e se espalhavam.

A passagem dos fungos para as formigas desencadeou uma revolução evolutiva. Assim que os Ophiocordyceps evoluíram para viver em uma espécie de formiga, espalharam-se para outras espécies. É possível que alguns fungos que pertenciam a esta linhagem primitiva até hoje.

Os dois especialistas suspeitam que existam centenas de outras espécies de Ophiocordyceps a serem descobertas. “Toda vez que vou para a mesma reserva, ainda descubro novas espécies”, disse Araújo. “Acho que a descrição de novas espécies será uma tarefa sem fim ao longo de gerações”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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