Tom Benson
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Apesar de furacões, humanos são a verdadeira ameaça às aves

'As aves evoluíram para resistir aos furacões. Não evoluíram para resistir à destruição por parte dos humanos', diz pesquisador

James Gorman, The New York Times

01 de outubro de 2019 | 06h00

Em um furacão catastrófico como o Dorian, perdas de vidas e destruições de lares são terríveis. Mas, mesmo em meio à devastação, uma questão muito menos urgente, mas perene, pode ficar na nossa cabeça. Qual é o impacto dessas tempestades para os animais selvagens, como os pássaros?

Entrevistas com cientistas e descobertas registradas em um artigo publicado em 16 de setembro na revista acadêmica Ecology Letters indicam que muitas aves selvagens são resilientes e, quando um furacão realmente pressiona alguma espécie, trata-se quase sempre de espécies já ameaçadas pela atividade humana.

Se o que nos preocupa é a extinção, “nós somos a causa”, afirmou David Steadman, curador de ornitologia no Museu de História Natural da Flórida. Ao destruir os ecossistemas onde aves selvagens vivem, introduzir predadores exógenos e causar outros tipos de dano, os humanos colocam pássaros e outras espécies em risco. 

Um furacão ou outro tipo de desastre podem dar o golpe final, mas não são causa fundamental de uma extinção. Christopher Elphick, ornitólogo da Universidade de Connecticut e um dos autores do artigo, afirmou que o desenvolvimento e a elevação no nível do mar, ambos provocados pela humanidade, são assassinos garantidos. Ele faz uma comparação com a doença cardíaca: “Exagerar um pouco na quantidade de gordura na sua dieta é a causa do infarto. Mas fazer um esforço, como limpar a neve da frente de casa, é o que desencadeia o ataque cardíaco em si.”

É claro que pássaros morrem nos furacões, e sofrem outros tipos de aflições. O Dorian soprou alguns até a Nova Escócia, no Canadá. E outros foram vistos se abrigando no olho do furacão. Quem sabe onde foram parar? Cientistas se concentram em espécies e subespécies. Tratando-se das Bahamas, somente a especulação é possível neste momento.

Uma espécie de pássaro extremamente ameaçada é o pica-pau-cinzento das Bahamas. Havia registro de somente um ou dois indivíduos antes do Dorian, que pode ter levado a espécie à extinção; outros pássaros ameaçados, como o papagaio das Bahamas, podem ter sofrido menos com o impacto do furacão.

Diana Bell, da Universidade de East Anglia, afirmou que os pesquisadores de seu laboratório encontraram um pica-pau-cinzento das Bahamas no ano passado. Um único pássaro. Ela disse que outra equipe relatou ter encontrado outros dois. O furacão devastou a Grande Bahama, ilha na qual um ou dois pica-paus-cinzentos foram vistos, onde poderiam ainda estar vivos. “Isso pode ter sido o golpe de misericórdia para o pica-pau-cinzento”, afirmou Steadman.

Grande parte da população de papagaios vive no sul da ilha, que foi atingida, mas não devastada, pelo Dorian. Os papagaios fazem seus ninhos em cavidades nos rochedos calcários da ilha e, sem dúvida, se abrigaram durante a tempestade. Outros pássaros lutando para sobreviver no país são a andorinha das Bahamas e o corrupião das Bahamas.

No passado, furacões atingiram muito duramente certas populações de pássaros na região, mas seletivamente. Os priolos da ilha de St. Kitts foram vítima de furacões no fim do século 19, afirmou Joseph M. Wunderle Jr., funcionário do Serviço Florestal dos Estados Unidos. Os pássaros sobreviveram na região por um tempo e depois desapareceram, afirmou ele.

Eles viviam em uma floresta montanhosa em St. Kitts, alimentando-se de frutas e sementes - e a recuperação das plantas após a passagem de furacões era demorada. E por que eles não se mudaram para as terras baixas? Nas baixas altitudes, as florestas tinham sido substituídas por campos de cana-de-açúcar. Graças aos humanos.

O sabiá de Cozumel (Toxostoma guttatum) é outro exemplo. A ilha foi atingida pelo furacão Gilbert, em 1988, e pelo furacão Roxanne, em 1995. A introdução de predadores exógenos pode ter contribuído para o desaparecimento da espécie. Mas, quando são mais disseminadas, as populações de pássaros conseguem ser mais resilientes.

Elphick e seus colegas analisam os efeitos das grandes tempestades também sobre as aves do pântano, porque eles já estavam fazendo um levantamento das populações de pássaros nos pântanos da costa leste dos Estados Unidos, em 2012, quando o furacão Sandy atingiu a região.

Eles ficaram surpresos ao perceber que o efeito sobre as populações de aves do pântano não era tão grave. “As pessoas veem aves mortas e dizem: ‘Oh, meu Deus’”, afirmou Elphick. Mas mortes de certos indivíduos não significam necessariamente que a espécie esteja em perigo.

Elphick afirmou que, evidentemente, “há duas grandes ressalvas ao resultado geral da nossa pesquisa”. As espécies que eles estudaram são muito pequenas ou muito localizadas. E essa, é claro, é exatamente a situação dos pássaros que habitam ilhas, particularmente onde os humanos alteraram o meio ambiente.

A mudança climática poderá trazer um aumento na frequência e na força dos furacões que poderia alterar seus cálculos, afirmou Elphick. Mas as principais ameaças aos pássaros que ele estudou são a gradual destruição de habitats em nome do desenvolvimento humano e, para as aves do pântano, o desenvolvimento chegando aos pântanos onde elas vivem e o nível do mar em elevação, que torna as marés e tempestades mais perigosas durante os períodos de reprodução. “As aves evoluíram para resistir aos furacões. Não evoluíram para resistir à destruição por parte dos humanos”. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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