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Furacões não acabaram com o beisebol em Porto Rico

Desastre não foi capaz de acabar com a tradição de jogar em todas as temporadas desde 1940

James Wagner, The New York Times

28 Abril 2018 | 10h15

AIBONITO, PORTO RICO - No estádio Hermanos Marrero, de beisebol, na pequena cidade de Aibonito, na região montanhosa central de Porto Rico, partes da cobertura da arquibancada foram arrancadas pelas tempestades.

Mas os Cayey Toritos jogaram ali na abertura da temporada de 2018 em um domingo, dia em que agora é disputada uma partida dupla, porque seu estádio está ainda em péssimas condições e não pode ser usado. Antes do primeiro lançamento, a costumeira oração da equipe, conduzida no próprio banco dos reservas dos Toritos pelo jogador, Rafael Sánchez, acabou com a frase: “Pela nossa comunidade!”

Os jogadores estão longe de serem os milionários que atuaram na Major League (liga principal) em San Juan, no dia 18 de abril. Lá, apesar do apagão em toda a ilha, os Minnesota Twins bateram os Cleveland Indians após 16 entradas em um estádio bem iluminado, enquanto o resto da ilha estava mergulhado numa escuridão. Os jogadores em Aibonito são estudantes, balconistas, barbeiros, professores e cozinheiros. Eles ainda passam pelas provações causadas pelos furacões Irma e María, mas ainda assim não desistem.

Os furacões devastaram esta ilha que adora o beisebol, mas sete meses mais tarde, os Toritos e outros times da liga menor, dos 18 anos em diante, em que predominam os amadores, contribuíram para emprestar uma aparência de normalidade mantendo o cronograma de seus jogos, mesmo que em condições muito difíceis.

“Houve vezes em que tivemos de lavar nossa roupa no rio”, contou o receptor dos Toritos, Raulier Martínez, 22, que ficou seis meses sem energia elétrica em casa.

Sua determinação reflete a profunda relação do beisebol com a ilha, porque os Toritos e 37 outros times da Liga de Béisbol Superior Doble A ajudaram-na a fazer o que têm feito todos os anos, desde 1940: jogar beisebol.

“O Doble A é mais regional aqui do que qualquer outro esporte de que eu lembre”, disse Luis Rodríguez Mayoral, um escritor porto-riquenho, radialista e ex-executivo do beisebol dos times da Major League. “Na ilha, há cidadezinhas espalhadas em toda parte em que a vida das pessoas gira em torno do time da casa”.

Muitos proprietários de times Doble A pensaram em pular esta temporada, mas José Quiles, o presidente da federação amadora de beisebol de Porto Rico, insistiu para que os que tivessem condições, jogassem. Ao menos 12 times concordaram. Quando a notícia se espalhou, o número dobrou e chegou a 38, quatro a menos do que o normal.

“Quisemos que as pessoas tivessem um pouco de diversão depois dos terríveis meses que passaram”, disse Pedro Vargas, diretor executivo da liga. “Mas isso superou nossas expectativas. A movimentação foi grande em todo lugar”. 

Inclusive em Cayey, que no final de janeiro decidira que não iria jogar. Mas os fãs apaixonados deste município de 44 mil habitantes, quiseram ver seu time jogar. Falaram, então, pelo Facebook com o dono do time, Héctor de Jesús, e com a prefeitura, dona do estádio usado pelos Toritos. Os próprios jogadores se reuniram e pediram para jogar.

“Nós não tínhamos um estádio, o patrocínio das empresas era insuficiente, nem sabíamos quando a eletricidade voltaria, quantos jogadores teríamos ou qual era sua situação econômica”, explicou Jesús. “Todo mundo teve de contribuir e fazer sua parte para criar um evento em que as pessoas pudessem esquecer um pouco o que aconteceu com o María”.

O Estádio Municipal Pedro Montañez de Cayey, de 6 mil lugares, custou US$ 15 milhões e foi inaugurado em 2012, era nosso motivo de orgulho, disse o prefeito Rolando Ortiz Velázquez. Mas, segundo os cálculos, María causou um prejuízo de 2 milhões de dólares, destruiu o placar e derrubou partes de concreto e o muro do campo.

O estádio principal não era adequado para jogos, mas o saguão no andar térreo estava em condições razoáveis e poderia ser usado como base principal em caso de emergência. A Federal Emergency Management Agency continua usando esta área para atender as famílias que precisam de assistência.

“Às vezes, as pessoas acham que os esportes são um desperdício ou não passam de entretenimento”, afirmou Velázquez. “Mas pela nossa experiência depois do María, graças aos esportes e ao beisebol, esta foi a melhor acomodação que encontramos para coordenar os nossos serviços.”

Para que os Toritos, os Tourinhos, tivessem um lugar para jogar, Velázquez falou com o prefeito de Aibonito, William Alicea Pérez, que concordou em emprestar o estádio da prefeitura ao time de Cayey quando os Polluelos, os Franguinhos de Aibonito, viajam para partidas fora de casa. Os Toritos são um dos seis times que jogam em um estádio emprestado, nesta temporada, mas eles ainda treinam no seu estádio normal.

Vargas disse que todos os anos o orçamento da liga Doble A é apertado, e os times dependem das empresas locais para ajudarem a cobrir os custos. Jesús acrescentou que, nesta temporada, é ainda mais difícil poder contar com esses patrocínios.

Para que as contas ficassem equilibradas, as autoridades adiaram a abertura da temporada e eliminaram quatro jogos da temporada normal, deixando 16. As partidas foram transferidas para os domingos, os dia em que há dois jogos, deixando assim de serem disputadas nas noites de sexta-feira ou nas tardes de sábado, porque em muitos estádios não há eletricidade. O preço da entrada baixou de 5 dólares, por jogo, para 5 dólares para as partidas duplas. A liga reduziu também a remuneração máxima dos jogadores de cerca de 300 dólares para 100 dólares em um fim de semana.

Efrain García, 55, o administrador dos Azucareros de Yabucoa, pequeno município no sudeste de Porto Rico, time que teve de ser transferido, agradeceu por poder usar o estádio de Las Piedras para os jogos em casa e para os treinos. Entretanto, compartilhar um estádio e os horários de trabalho dos seus jogadores aos sábados, quando eles costumam treinar, afetou o preparo do time. Eles começaram com duas vitórias e quatro derrotas no dia 24 de abril.

“Ganhar é importante, mas nestas circunstâncias, é mais do que isto”, ele disse. “Queremos que os torcedores se distraiam por algumas horas, embora muitos deles não tenham água nem energia elétrica, e dar a eles um espetáculo para se alegrarem com o esporte que amam”.

O Doble A tem a atitude humilde dos esportes das pequenas cidades em qualquer país do mundo todo. Os técnicos do Cayey acabaram trocando de roupa no banco, um domingo. Quatro bolas que caíram no estacionamento foram recuperadas e usadas de novo. Entre uma partida e outra, os jogadores ficaram no vestiário lotado, no meio das sacolas espalhadas com os equipamentos dos jogadores. Alguns deles se misturaram com os torcedores no saguão, onde havia bancas de frango e porco frito e empanadas. Jesús, o proprietário, ficou trabalhando no balcão das bebidas.

Na última fileira das arquibancadas, Lucia Rivera, 65, marcava cada jogada em um placar feito em casa. Originária de Cayey, ela costumava levar o filho, José Ramos, 44, aos jogos, quando era pequeno, e continua a tradição até hoje.

“Está no meu sangue”, ela disse.

A eletricidade só voltou na casa deles há três semanas. E embora provavelmente tivessem coisas mais importantes para fazer, mãe e filho foram assistir ao jogo dos seus adorados Toritos.

“Nós os seguiremos aonde eles forem,” disse Ramos. “Este é um alívio para o nosso stress. A vida continua. Precisamos nos adaptar, como os jogadores fizeram, e manter o beisebol vivo”.

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